SAMARA



SAMARA

***

Gostava do fígado mais que tudo. Não que os outros órgãos, as outras partes do corpo, fossem ruins. Gostava de chupar as grossas veias do coração, sim, mordicar o tecido esponjoso dos pulmões; mas o fígado, ah! o fígado... Tinha um sabor especial. Talvez fosse a consistência quase pastosa, a cor, talvez. O certo é que saboreava cada pedaço. Era como se por meio daquele órgão pudesse sentir todos os sentimentos do seu dono, todas as suas mais íntimas preocupações, seus segredos, seus medos, ah! como saboreava o medo. Por isso o fígado era sempre a última parte, um doce especial mantido longe dos olhos ávidos das crianças enxeridas, ou dos vermes da terra. Se pudesse o deixaria intacto. Mas sabia que assim ele acabaria estragando... Tinha medo disso. Medo de perder a melhor parte. Então o comia. Saboreava, melhor dizendo, imersa num estágio catatônico de puro êxtase.
Às vezes até gozava.

***

Espia o homem amarrado à cama. A boca dele vedada com supercola. Os olhos, arregalados, são a mais nítida expressão do terror. Ele respira acelerado, o peito subindo-descendo-subindo-descendo convulsivamente. Está vivo, pelo menos. Isso quase soa confortável. Soaria, se a situação envolvesse lutar pela vida, quando agarra-se a qualquer resquício de esperança. Mas não agora. Não quando se sabe que a morte é a certeza. Ele sabe que vai morrer. Mas não ainda, pelo menos. Esperança? Não. Ele sabe que não morrerá antes que ela devore parte do seu corpo. A primeira parte foi o pênis, cortado assim que ele ejaculou pela terceira vez. Ela lambia o sangue e o esperma enquanto ele se contorcia no chão de dor... Até que apagou. Quando acordou estava amarrado àquela cama, a boca completamente vedada. Ao pensar nisso, ele se contorce na tentativa inútil de escapar. Não vai escapar. Sabe disso. Sabe porque já fez as mesmas tentativas milhares de vezes antes. Sabe porque aquele cheiro forte de desinfetante quer, inutilmente, esconder o cheiro putrefato de decomposição que entranha pelas narinas. Sim, são cadáveres. Sabe disso. Sabe porque os ganchos na parede do outro lado estão sujos de sangue negro ressequido. E não eram peças de boi que estavam penduradas ali, tinha certeza. Quase podia imaginar-se ali, ainda vivo, agonizando, um enorme gancho o suspendendo pela clavícula...
Ela aproximou-se.

***

O pai dizia que ela era doente, porque, quando menina, gostava de caçar passarinhos no quintal pra depois despedaça-los nos dentes e come-los crus, o sangue escorrendo pelos cantos da boca... Não lembra exatamente a sensação de ter aquelas frágeis criaturas se debatendo inutilmente na suas mãos sujas. Mas recorda do líquido quente que jorrava das suas entranhas. Não entendia como uma coisa, assim, tão boa, poderia ser algo ruim, ou porque ela seria doente por isso... Até que um dia, já quase adolescente, enquanto o pai mais uma vez saia do banheiro fechando o zíper da calça e a deixando encolhida num canto, tremendo e dolorida, deu-se conta de que era realmente doente. Doente pelo fato de maltratar animais indefesos, que nunca lhes fizeram mal... Mas foi também nesse dia que se curou. Foi nesse dia que experimentou pela primeira vez a carne humana. E não gostou. A carne do pai era dura, ressequida; o fígado, então, era a pior parte; exalava um forte fedor de álcool, muito provavelmente o órgão perdera há muito a capacidade de desintoxicação. Talvez por isso mesmo nutria esse gosto estranho pelo órgão...

***

Ele estremeceu.
Onde aquele mostro estava escondido? Não notara. Por Deus sequer imaginava uma coisa dessas.
Como?
Ela trazia uma pequena faca. Um sorriso estranho nos lábios fechados. Os cabelos não estavam mais transados. Havia sangue ao redor da boca dela.
— E aí, benzinho? — disse.
Ele se remexeu.
Oi, coração! — ela respondeu por ele, tentando imitar uma voz masculina, mas a voz estridente dela dava um teor bizarro.
— Tá tudo bem, amor?
Tá sim! — e riu. Gargalhou.
Era louca, ele tinha certeza. Assim como tinha certeza que não poderiam ouvi-la. Ninguém poderia ouvi-la. Não ouvira outro som que não fosse a voz estridente dela! Era provável que estivessem no porão da casa, ou num quarto-cozinha-sala do terror, ou sabe-se lá onde. O certo é que o mundo parecia não existir mais...
— Sabe o que nós vamos fazer hoje, amorzinho?
[a quantos dias estava ali? nem lembrava mais...]
Não, meu amor
— Brincar! Você quer brincar comigo?
Ela riu.
Ele riu pela boca dela:
Quero!
Aproximou-se do rosto dele. Ele respirava acelerado. Pela primeira vez pôde olhar novamente no fundo dos olhos dela, completamente negros. Não dissera que a escuridão daqueles olhos tinham um mistério a ser explorado? Por um momento ele viu o negro da íris se expandindo pela parte branca dos olhos, como raízes crescendo em selvageria... As raízes romperam os olhos e se derramaram pela face dela... Até que os olhos dele se arregalaram. Piscou. Ela sorria, um sorriso sangrento, os olhos negros, a mão empurrando a faca pelo flanco esquerdo dele, lentamente...
— Você gostou de me foder, amor?
Ah, amor, gostei sim, você é uma vadiazinha
— Não me chame de vadia! — e a faca entrou mais fundo. Ele se contorceu. Ela sorriu. — Tá melhor assim?
Tá sim...
E a escuridão veio. A dor foi embora.

***

            Lembrava vagamente do som de um piano (ou talvez fosse um toca-discos).
Não, não tinham piano, nem toca-discos, nada. Ouvia do quintal. A vizinha que morava ali, uma professora há muito aposentada, tocava (ou ouvia).
E ela ouvia, atentamente, as melodias, cada nota...
É a melhor lembrança que tem daquela época. O som... As tardes... O cheiro de café. Naquela época ainda tomavam café às tardes. A mãe ainda não havia partido com o irmão menor.

***

Ele acorda, mas os olhos estão por demais pesados para abri-los. Permanece assim. A respiração lenta, doida. No silêncio uma torneira pinga. O pingar é lento, como se cada gota lutasse para se manter presa à torneira. O som é pesado, o líquido parece grosso. E está em algum lugar ao longe
pinga ploc-ploc-plo...oc
tão perto, está tão perto... Ele pode sentir. Sim, sentir, não apenas ouvir. Ele sente os pingos, sente a torneira.
Abre os olhos.
No chão uma poça de sangue vai aumentando a cada gota de sangue que se esvai. Uma tira de carne desaparecera dali.
Chora. Mas não vai adiantar, sabe disso.  
Para de chorar. Apura os ouvidos. Conhece aquele som, as melodias. Chopin?
Ela abre a porta. O celular na mão toca a sinfonia. Ele arregala os olhos, antecipa o pior. É o pior, sabe disso; o olhar vago dela diz que é o fim. Ele fecha os olhos. Só deseja que seja rápido. Mas o pensamento que vai ser devorado o aflige...
O som é interrompido bruscamente. Ele levanta a cabeça. Ela colocou fones de ouvido. Feito uma boneca sem expressão sai pela cômodo como se estivesse valsando, os braços abertos abraçam um ser imaginário. O demônio, ele pensa. Ela não ouve ele se debatendo. Não ouve nada. Vai até a parede oposta. Confere se um dos ganchos está bem seguro, chega a se pendurar num deles. Não cede. Está firme. Aguenta. Para por um momento como se avaliasse as opções. Vai até a mesa e pega uma grande faca de açougueiro — o cabo, antes branco, agora é rubro e negro, onde o sangue há muito coagulou. Vira-se para ele. Sorri.

***
[Dois meses depois.]

O homem checa o relógio. 20h:40min.  Passa as mãos nos olhos. Afrouxa a gravata. Precisa de ar. Precisa de um cigarro, de uma cerveja gelada. Precisa foder. Batem à porta:
— Doutor — a secretária mete a cara pela abertura — a reunião amanhã com o presidente do sindicato vai ser às nove, mas não poderei vir, tenho uma consulta, algum problema?
Ele avalia a secretária. Pondera dizer a ela que não haveria problema, contanto que ela o aliviasse ali mesmo, em cima da mesa, o escritório já não estava vazio mesmo? Olha pela janela.  A avenida em frente estava surpreendentemente pouco movimentada.
— Doutor?
— Ah, sim, claro; pode deixar. Obrigado, Dani, pode ir. Boa noite.
Ela se despede e vai embora.
Custava ter jogado o charme de sempre? Não funcionara das outras vezes?
Apaga as luzes e desce.
Precisava relaxar. A esposa não era uma opção. Precisava de uma coisa... diferente.
Atravessa a rua, destrava o carro, entra. Liga o veículo e abaixa o vidro. Do outro lado, na parada de ônibus, uma moça solitária espera por um coletivo. Ele pondera. Sorri. Aproxima-se.
— Boa noite, senhorita, aceita uma carona? É perigoso esperar ônibus por aqui uma hora dessas, ainda mais sozinha...
Ela tira os fones de ouvido e sorri acanhada. Avalia as opções. Levanta-se e entra no caro timidamente.
— Alberto — ele diz estendendo a mão.
— Samara... — ela responde, tímida.
— Muito prazer, Samara; o que você estava ouvindo, posso saber?
Ela sorri, dessa vez um sorriso completo:
— Chopin.



RELATOS {SAMANTHA DE SOUSA}


Se há lugares cheios de fascínio e com um vasto imaginário sobre fatos sobrenaturais, estes lugares certamente estão nas regiões mais afastadas das grandes cidades. Estou me referindo a cidades interioranas, o Brasil está cheio delas e de suas lendas e superstições. Os relatos que apresentarei a seguir são baseados nas vivências dos meus pais, histórias que eles contavam nas reuniões familiares, principalmente quando insistíamos em fica acordados até tarde ou quando faltava energia... ah, aquelas horas a luz de vela ouvindo histórias de assombrações serão inesquecíveis, até porque devo a elas inúmeros pesadelos e insônia, mas eram fantásticas! Meus pais passaram a maior parte da vida no interior do Nordeste, minha mãe no Maranhão e meu pai no Piauí, e presenciaram ou ouviram das estórias de família muitas coisas estranhas. Forçarei um pouco a memória para lembrar-me de algumas desses acontecimentos. Não divaguemos mais, pois. Há muito o que se falar por aqui!

Relato 1: A visagem no meio do caminho

Isto aconteceu com um tio meu, na verdade. Quem conta esta história é meu pai. Diz ele que isto se passou num lugarejo chamado Lagoa do Gato, quando seu tio voltava da roça a cavalo. Naquela região era comum que as casas e plantios fossem bem distanciados, o que obrigava seus moradores a cruzarem longos caminhos desertos até chegarem a seus destinos. Como era um caminho rotineiro, meu tio pouco se preocupava com os perigos da região, mas certo dia ele passou por um dos episódios mais sombrios de sua vida. Meu pai conta que este tio demorara a chegar em casa, e quando chegara estava mais branco que o leite, o homem mal conseguia se manter em pé, tampouco falar. A família ficou sem entender o que havia acontecido até ele recobrar as força e narrar sua experiência. Tal qual fazia todos os dias, ele cavalgava de noite rumo a sua casa, mas no meio do caminho surgiu uma aparição, a princípio ele não se incomodou com aquilo, parecia mais uma “toiça” de folhas e galhos despencados de uma árvore, seu cavalo, entretanto, travou no mesmo instante. Ele tentava fazer o cavalo andar, mas o animal só andava para trás e relinchava, foi então que meu tio começou a perceber que havia mesmo uma força estranha, pois o pavor também tomou conta dele. O vulto às vezes parecia se mover, e por alguns momentos pensou ter visto olhos brilhando na criatura. Depois de muito insistir com o cavalo, meu tio deu-lhe dois chutes na barriga e o bicho correu desenfreado, atravessando o caminho da visagem, o cavalo não parou de correr até chegar em casa e nem precisara ser guiado, parecia já saber exatamente par onde ir.

Relato 2: Alma pagã, alma penada

Minha mãe conta que ela mesma presenciara este fato. Quando criança, não recordo se em Zé Doca ou em Caxias, minha mãe, seus irmãos e minha avó moraram numa casinha bem isolada das demais. No caminho entre a cidade e a casa, passavam por um cemitério, minha mãe relata que todas as vezes que passavam por lá era possível ouvir o choro de uma criança. Certo dia, em companhia de uma outra moradora da região, minha mãe e minha avó passavam próximo ao tal cemitério e a mulher lhes explicou o que havia acontecido: tratava-se de uma alma penada, uma criança que morrera pagã. A mulher falou ainda que para que aquela alma tivesse descanso e parasse de atormentar o mundo dos vivos, era necessário batizá-la. Assim o fizeram. Minha avó e a mulher organizaram o material para o ritual, água benta, velas, orações e outros artifícios religiosos. Durante o ritual, o choro parecia ficar cada vez mais alto, mas fora enfraquecendo até desaparecer. Batizaram a criança. Depois disso, minha mãe conta que nunca mais ouviram o choro do bebê.

Relato 3: Papai?

Meu avô materno certamente é a figura mais misteriosa da família, tanto porque ninguém mais sabe dele desde há muito tempo (eu nem cheguei a conhecê-lo), quanto por causa das diversas histórias assombrosas que rondam sua existência. Minha mãe conta que ele era um homem muito ruim e que raramente tinham paz quando ele estava por perto, e ao mesmo tempo em que ele tinha muita sorte para juntar pequenas fortunas, a família estava sempre na miséria, pois ele perdia tudo numa velocidade assustadora. Certa vez meu avô construiu sozinho  e em pouquíssimos dias uma casa imensa, ele se isolara na construção e só apareceu quando a terminou, contudo, logo a vendeu e desapareceu novamente, abandonando a família como já era típico. Mas vamos ao primeiro relato sobre o meu avô! Este, minha mãe mesma vivenciou. Ela conta que, quando criança, vira meu avô transmutado em demônio. Ela dormia e sentiu, de repente, a sensação incômoda de que alguém olhava para ela. Quando abriu os olhos, viu seu pai apoiado no punho da rede olhando para ela, seus olhos, entretanto, não eram humanos, mais pareciam olhos de mosca-varejeira, eram gigantes e bizarros. Quando ele percebeu que ela acordara, afastara-se da rede rapidamente. Minha mãe chamou por ele, mas ele desapareceu no outro cômodo.

Relato 4: Nas mãos do Diabo

Este relato é novamente sobre meu avô, é, sem dúvida, o que mais me assustava. Minha mãe conta que meu avô era perseguido pelo Diabo e que, pelo menos em dois momentos, a criatura se manifestou para ele. Na primeira vez, foi quase um pesadelo, ele dormia na rede e acordou gritando: “Sai daqui, Satanás!” Ele deu um morro tão violento na parede que sua mão passou dias inchada. A segunda vez foi mais aterrorizante, tanto para ele, quanto para quem presenciara a situação. Ele dormia na cama e alguma coisa começou a puxá-lo, ele era arrastado para debaixo da cama e por mais que puxassem para fora, uma força parecia sugá-lo, ele dizia que era o próprio diabo o levando para o inferno. Os filhos conseguiram retirá-lo de lá, todos muito assustados. Muitos ouros acontecimentos bizarros se passaram nesta família e, entre muitas idas e vindas, meu avô desapareceu, até hoje não sabemos se ainda vive.

Relato 5: Samantha?

Esta é a última história e é a mais recente também. Aconteceu já em Paragominas, lugar onde passei minha infância, mas aconteceu já na minha juventude e foi um episódio que se repetiu duas vezes. Minha mãe conta que vira uma garota idêntica a mim, mas não era simplesmente uma sósia e, certamente, era nem era humana. A primeira vez que aconteceu foi dentro de casa, minha mãe me vira saindo do banheiro e jogando a roupa suja na máquina de lavar, chamou por mim e eu respondi, eu estava no banheiro ainda e nem havia passado perto da máquina. A segunda vez foi na rua. Ela tinha o costume de me esperar chegar da faculdade, ela ficava no portão e quando me vira descendo a rua, entrou, contudo, não era eu quem descia a rua. Eu só chegaria algumas horas depois. Era impossível ter confundido outra pessoa comigo, pois além das minhas características peculiares – eu era muito magra, tinha cabelos longos e quase brancos de tão loiros – a garota que ela vira estava vestida exatamente igual a mim, era a mesma roupa que eu usava naquele dia. Eu podia até duvidar dessa história, mas para piorar, a criatura apareceu em uma fotografia minha: eu fotografei de costas o comprimento do meu cabelo, então vermelhos, e uma fisionomia esbranquiçada apareceu no primeiro plano da foto, os contornos formavam exatamente meu rosto. A fotografia, infelizmente, desapareceu nem sei como e até hoje não sabemos como explicar aquilo!
***

São tantos os mistérios que rondam minha família, que pode até assustar pertencer a ela! Hoje eu não tenho mais medo deles, conto-os com certo ar de divertimento. E digo mais, não sigo religião alguma, nem sustento fé em divindades, mas que há muitos mistérios entre o céu e a Terra, disso eu não duvido!

ZONA MORTA I {SAMANTHA DE SOUSA}


Acordaram numa casa estranha. Olharam-se, não se conheciam nem se reconheciam. Tentaram falar, mas não havia voz. Estavam mudos. A casa cheirava a mofo. Era velha, escura e suja. Teias de aranha pendiam por todo o telhado e paredes. O assoalho rangia a cada movimento, parecia que nunca fora pisado antes, e os únicos passos naquele carpete de poeira eram os seus, nem ao menos havia sinal de como entraram lá, os únicos passos eram aqueles onde estavam. As frestas entre as tábuas das paredes deixavam entrever: escurecia. O lá fora era morno e alaranjado. Tentaram abrir a porta, mas não havia porta, nem janela. Era uma grande caixa de madeira. Os olhos olhavam desesperados. Como? Perguntavam. Precisavam acordar, pois nada daquilo poderia acontecer na vida real. Um deles se jogou contra a parede, talvez conseguisse derrubar uma das tábuas, mas eram tão sólidas quanto concreto. O outro procurava alguma saída secreta em vão, conseguia apenas emaranhar-se nas teias de aranha. Aranhas andavam por seu corpo, ele as esmagava, mas elas não morriam, corriam e desapareciam entre o chão e a parede. Um grito fazia doer a garganta, mas não saía. Sentia-se sufocar, como se o ar lhes fugisse dos pulmões. Caiu de joelhos, rogava mudo a um deus que lhe libertasse do pesadelo, o primeiro soldado a abandonar a guerra. O que sobrevivia de pé descobria móveis velhos entre a poeira, era-lhe tão familiar. No álbum perdido na gaveta: pai, mãe, irmã e ele, que também era o outro. Via-o morto, sufocado em seu próprio silêncio. As mãos perdem o significado, solta o álbum e as fotografias se espelham pelo chão. Também morreria, e logo. Escureceu e as paredes pareciam se estreitar. Queria desistir, mas não sabia como, não tinha um deus, não saberia se ajoelhar. Olha ao redor, tudo é sombra e vulto, as fotografias se apagaram, o corpo apodreceu, seus passos desapareceram. Pelas frestas da parede podia ver: lá fora, um menino catava estrelas numa poça d'água.

A CRIATURA {GIROTTO BRITO}



“Ânsia das horas místicas e aflitas,
De horas amargas das intermináveis
Cogitações e agruras insondáveis
De febres tredas, trágicas, malditas.”
Trecho do poema “Ocasos”, de Cruz e Souza.


Naquela época, vivia dias tristes e solitários. Morava num cubículo numa dessas vielas da cidade velha, no segundo piso de um casarão antigo perto da Praça da Sé. Era um cômodo apenas, muito abafado, de paredes mofadas e teto baixo. Além da cama e uma carcomida escrivaninha abarrotada de livros, a porta de entrada e uma janela, nada mais. Lá morei por treze meses, os mais difíceis e atormentadores meses de minha vida.
Na segunda semana após minha chegada, adoeci. A princípio um leve resfriado, febre, coriza e muita dor de cabeça. Depois vieram a tosse seca, a falta de ar, o cansaço e uma súbita falta de apetite que me fazia definhar um tanto a cada dia. Tuberculose, foi o que me disseram.
O temor da enfermidade me levou a um estado depressivo, talvez crônico. Isolei-me naquele quarto de subúrbio por meses, bebendo água da torneira e comendo — quando raramente vinha a fome — enlatados de carne e feijão que havia estocado. Do corpo se apossara uma fraqueza infinita e eu dormia, dormia muito, dormia o dia inteiro. Era nas madrugadas que um pouco de disposição me invadia a alma e trazia resquício de ânimo para me levantar. Nos livros já nem mais tocava. Quando acordado eu apenas sentava na beirada da cama, de frente para a janela, e ficava observando os movimentos noturnos nos becos, até onde a vista alcançava. Era o que eu fazia nas madrugadas, sentava, tossia, escarrava e observa os bêbados, cachorros, bandidos e prostitutas.
Certa noite, vi um gato caminhando pelos telhados dos velhos casarões. Um gato branco, de cauda grande e volumosa como um espanador. Foi pulando de uma casa à outra até chegar bem próximo da minha janela. Era um maravilhoso felino, de olhos claros e brilhantes, e uma pelagem de tamanha brancura que parecia iluminar a noite mais que a própria lua cheia. Por um instante ele ficou ali, parado, me observando, e eu a ele. Havia algo de especial naqueles olhos, algo de anormal. Eram terrivelmente penetrantes, mas causavam uma sensação bastante agradável. Coloquei um pouco de carne enlatada no batente da janela e esperei que ele viesse, mas não veio. Depois de ameaçar algumas vezes uma aproximação, o felino saltou para outros telhados e foi embora.
Depois dessa noite, passei a ter sonhos cada vez mais estranhos e sombrios. Pesadelos que me fazia acordar banhado em suor e num estado alucinado que ainda hoje não sei ao certo se tinha alguma relação com a visita inesperada daquele felino de olhos enigmáticos ou se foi apenas efeito das febres tão comuns da doença.
Semanas se passaram e a doença me deixara ainda mais fraco, tísico e taciturno. Alimentava-me muito pouco e, mesmo quando acordado, já não sentia mais vontade de levantar. Sentia que a morte estava próxima e um terror anômalo me provocava terríveis pesadelos e suores noturnos. A cama, os lençóis, minhas roupas, ..., tudo fedia. Eu definhava como um indigente num quartinho esquecido do mundo que eu ignorava. Ninguém, absolutamente ninguém em todas aquelas semanas, bateu em minha porta para saber como eu estava. Eu não estava bem. Talvez já estivesse morto e não tenha sido capaz de perceber.
Não, eu não estava morto. Estava ainda bem vivo. Vivo o suficiente para presenciar a cena mais horrenda e tenebrosa de minha vida medíocre.
Numa daquelas noites, acordei acometido por um súbito ataque de tosse e falta de ar. Tonteei, senti vontade de vomitar e ainda com a visão embaçada pude ver claramente o magnífico felino sentado no batente da janela. Ele me olhava e não desviava o olhar. Apoiei-me na cabeceira da cama e fechei os olhos por alguns segundos. Abri-os. Ele ainda estava lá, com seus olhos fixos e penetrantes, como se quisesse agora minha aproximação.
Peguei o copo com água de cima da escrivaninha e dei alguns goles. A tonteira diminuiu e busquei forças do âmago tuberculoso para um arraste até a extremidade oposta da cama, onde ficava a janela. Meus músculos relutavam em obedecer meus comandos, tamanha fraqueza. Mas eu cheguei. Sentei na beirada da cama e olhei de bem perto a beleza esplendorosa daquele animal. Para outras pessoas, talvez, poderia ser apenas um gato qualquer, mas não para mim que vivia há meses trancado naquele muquifo. Ele era vida. Era beleza. Era arte. Era, talvez, presságio.
Admirei-o por pouco tempo até perceber o que o felino tentava me dizer. Ele não estava ali por acaso e, creio eu, não era um animal qualquer. Seria um espírito mensageiro, um emissário a anunciar, por onde suas patas tocassem, que algo terrível estava por vir. E veio.
Quando meus olhos se desviaram daquela brancura majestosa, vi, lá em baixo, no beco mal iluminado, uma estranha e amedrontadora criatura. Vagava pela rua, dardejante, sob a luz pálida da lua minguante. Não era homem, não era bicho, não era nada! Nada que se parecesse com qualquer coisa que eu já havia visto. Sobre si, uma longa e esfarrapada túnica cobria malmente seu corpo forte e horrivelmente deformado, arrastando no chão a cada passo. De repente um frio inexplicável foi adentrando o quarto e o felino, aos saltos, desapareceu na noite.
A coisa se arrastava na calçada, silenciosamente, em direção à esquina. Da outra rua, pude ver, vinha pelo menos uma dúzia de homens, alguns bêbados, de encontro à criatura. Meu corpo estremeceu ao imaginar o encontro deles com aquilo em alguns segundos. Pensei em gritar para avisá-los, mas não tinha forças para isso. Aproximei-me da janela. Meus dentes roçavam uns nos outros nervosamente e, como jamais imaginei que pudesse existir tamanha monstruosidade, presenciei aquilo acontecer.
Quando viram a criatura na calçada, todos corajosamente se armaram para capturá-la. Avançaram com paus, pedras, punhos e facas, mas não valeram de nada. A coisa arrancou-lhes os corações com uma guinada e num segundo estavam os homens caídos ao chão com os peitos abertos. Para onde foi tal criatura não sei ao certo, sumiu na penumbra dos becos desertos. Sob o céu noturno enluarado, a rua tornou-se rubra: ensanguentada. Fiquei atônito, pasmo, abismado, aterrorizado. Quando amanheceu o dia, caí num sono profundo — quase mortal—, com pesadelos esparsos que se mesclavam à cena do horror noturno.
Nas noites que se seguiram, permaneci acordado, sob forte insônia, mas não me aproximei novamente daquela janela. E toda vez que me deitava em noites enluaradas, no batente da janela o gato branco me esperava, com seus olhos galácticos que me lembravam do palpitar dos corações pela calçada, e de repente uma brisa gélida tomava conta do ar anunciando a presença daquela criatura indesejada.

CONTROLE {MAURO LOPES LEAL*}



            Eu lavo as mãos sujas de sangue e acredito que sou um novo homem, melhor, mais civilizado, senhor de mim em todas as coisas, até mesmo nas mínimas. Mas este sentimento dura um instante, tão ínfimo que não pode ser contado em termos de tempo, tal como o conhecemos. Então eu choro, e preciso de alguns minutos para me recompor. Sou complexo, labiríntico, eu sei, mas não posso fazer nada, pois muitas vezes pareço apenas um mero espectador de mim mesmo.
            O sangue não quer sair. Esfrego embaixo das unhas e me sinto impaciente, apesar de saber que isso sempre ocorre. Abro mais a torneira e o fluxo de água torna-se mais intenso, molhando-me o ventre rente à pia.
            Enquanto tento me limpar, tenho o péssimo hábito de olhar para o espelho, como se aguardasse algo. Algo estranho ocorre. Vejo-me, mas não a mim, e sim outra pessoa, similar, com alguns traços que me são desconhecidos. Esse outro sorri, satisfeito. Parece ter saciado uma fome de dias. Mas seus olhos, vermelhos, traduzem uma solidão inquietante que diz tanto em tão pouco tempo. Como de costume, prendo a respiração e a imagem no espelho asfixia lentamente, entretanto, ela não morre, torna-se mais sorridente e exibe dentes amarelados e pontiagudos. De alguma forma incomum eu sinto pena dessa outra pessoa que sou eu. Se pudesse abraçá-la...  mas isso é perigoso. E ridículo. Não quero contato comigo sob o risco de me perder outra vez.
            Examino as mãos. Estão precariamente limpas. Não me importo, já dormi assim várias vezes, o que me assusta, mas também fascina. Mostro ao reflexo no espelho as minhas unhas sujas e o outro bate palmas, como uma criança que acabou de receber um caro e sofisticado brinquedo.
            Desligo a luz do banheiro. Saio. O quarto está impregnado de um odor doce, enjoativo. Esse seria o momento perfeito para abrir as janelas, mas não o faço, pois temo perder este instante de satisfação diante da minha obra. Sim, sou um artista, e me considero brilhante, mas ignorado pelo grande público. Isso me aborrece, mas não a ponto de vociferar contra o mundo. Não sou tolo a este ponto. Na verdade, sou centrado e amante da boa música, das belas formas de representação.
            Alguém me chama. Olho ao redor e sei que estou sozinho. Entretanto, continuam chamando meu nome. A voz vem do banheiro, previamente trancado, por motivos que me são absolutamente conhecidos. Sinto medo. E todo meu corpo é invadido por um torpor parecido com um lento desmaio, de quem está bêbado e resiste para se manter acordado.
            Sou chamado. Agora a voz se mostra mais angustiada, o que me entristece, uma vez que sou melancólico e busco, sempre que posso, me afastar das coisas tristes e desesperadas. Penso em responder, mas tenho consciência de que estou sozinho no quarto e que, agindo de forma incondizente com tal estado, estarei em uma clara situação de delírio. Mas isso é ridículo. Sou um homem que fala quatro línguas, sei tocar piano. Em uma sexta chuvosa, compus uma pequena sonata que falava sobre bocas risonhas, ventres largos e seios delicados e sedutores.
            Tapo com as mãos sujas os ouvidos.
            Estudei nas melhores escolas. Na universidade fui um dos melhores alunos do curso. E como fui parabenizado! Ainda tenho ali, na gaveta, as medalhas que ganhei. Algumas, douradas, trazem meu nome escrito. Ah, e como a vida era melindrosa naqueles dias difíceis, porém necessários. Hoje, se quiser comprar pardais de ouro, posso fazê-lo, uma vez que conquistei um lugar na sociedade que é para poucos. Sou, portanto, rei de mim...
            A porta do banheiro abre bruscamente. Tremo. Tento me esconder perto da cama, em um ângulo incomum entre o colchão e o solo frio. Pergunto quem é. Das sobras surge uma criatura horrenda. Suas mãos, grandes e vermelhas, abrem-se em garras. Os olhos, negros, refletem um pesadelo abissal que finjo desconhecer. Do canto da boca arroxeada escorre um líquido viscoso, que se torna mais e mais abundante, criando ao redor do monstro uma grande poça repulsiva.
            Sinto-me ameaçado. Por isso avanço, na tentativa de me defender. Alcanço a garganta da coisa, que me arranha o rosto, o peito, os ombros. Sinto uma grande dor, mas não posso desistir, minha vida depende unicamente do meu esforço. Luto desesperadamente. Penso nas pessoas que amo e que dependem de mim. Não posso desistir, se o fizer sei que, de alguma forma fantástica, serei sugado para dentro da criatura, que, para meu espanto, sufoca diante da minha força.
            Sinto a vitória. Regozijo-me. Hoje, ainda não será meu dia. O monstro tomba, convulsionando. Gargalho, por alguns minutos. Sei que todo meu esforço não foi inútil. Estou eufórico e não consigo parar de rir. Fecho os olhos e prendo a respiração. Durmo.

            Acordo horas, talvez dias depois. Ao meu lado, um cadáver, frio, inerte, irreconhecível. Serei eu?


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* Mauro Lopes Leal

Natural de Belém do Pará, é graduado em Filosofia e Letras, especializando-se em Estudos Linguísticos e Análise literária pela UEPA, bem como o mestrado em Letras pela UFPA. Seus estudos acadêmicos abordam especificamente os autores russos, trabalhando a relação entre filosofia e literatura. 

O DESPERTAR {SAMANTHA DE SOUSA}


Um sono esquisito, quase acordada. Sofia sente algo arranhando sua barriga. Ainda sonolenta, leva a mão até a região e sente o sangue escorrendo. Antes que pudesse reagir, algo agarra-lhe pelas pernas e a arranca da cama. Garras invisíveis rasgam sua carne. Os braços, as pernas, o rosto, o corpo, tudo sangra. Sofia só consegue gritar e revirar-se de dor. Novamente algo a arrasta até a parede e na parede eleva seu corpo e a puxa até o teto que a absorve como se ela fosse um líquido. Uma poça de sangue se acumulara em sua cama, um rastro de sangue espalhava-se continuamente no chão, pela parede, desaparecendo no teto. Um vento leve entrava pela janela do quarto e movimentava a cortina. Sofia deixara a janela aberta, pois a noite estava tão quente que seria impossível dormir. 

O CLARINETISTA {GIROTTO BRITO}



“Envolve-te o crepúsculo gelado
Que vai soturno amortalhando as vidas
Ante o repouso em músicas gemidas
No fundo coração dilacerado.”
Trecho do poema “Velho”, de Cruz e Sousa.

É fato que a arte pode nos dar momentos de prazer extremos, cujo corpo se desliga do meio em uma espécie de hipnose consentida que nos leva a um orgasmo espiritual rápido e viciante. Esse sempre foi o poder da arte aos sentidos humanos e foi assim que sempre enxerguei os verdadeiros artistas: como produtores de sentimentos e sensações, agradáveis ou não. A arte, no entanto, pode ser bem mais que isso. Há quem diga que a música, por exemplo, nos seus delírios extremos, pode abrir os portões do céu e do inferno, assim como a literatura, a pintura e qualquer outra arte em seu apogeu. Digo isto, porque foi através da música que vivenciei na mocidade algo que por anos fiz questão de esquecer. Algo que ainda hoje relembro com certo temor e calafrio.
Foi numa das tantas aventuras de minha vida que fui morar na cidade de Bragança, no início da temporada chuvosa de 1936. Havia recebido uma carta de um amigo que há tempos não mantinha contato. Nela ele dizia estar morando numa bela e próspera cidade nas entranhas da Amazônia, onde as oportunidades eram muitas e, junto ao seu endereço, fez-me o convite para ir morar com ele. Desempregado e atolado em dívidas, achei conveniente aceitar o convite de Antônio.
Desembarquei no porto de Belém durante a madrugada e logo que amanheceu peguei o trem para Bragança. A capital era uma cidade imensa e encantadora, rodeada de água por todos os lados, com seus casarões coloniais, trilhos, bondes, zeppelins e uma paisagem das mais exóticas que já vira até ali, sem falar do trem que cortava a selva como uma tesoura a uma seda, ziguezagueando num espetáculo surreal. Não era bem aquilo que eu havia imaginado quando ainda estava em Santos.
Quatro vagões cheios de gente dos mais variados lugares. Algumas fileiras mais à frente havia um grupo de espanhóis tagarelando nervosamente, como se estivessem arrependidos do destino que estavam tomando. Logo atrás, um grupo de pessoas que carregavam grandes peneiros de farinha, todos amorenados e com aparência indígena. Dois senhores bem vestidos sentavam-se ao meu lado, do outro lado do corredor, e falavam de como poderiam ampliar o escoamento de alimentos com a construção de mais um ramal para a ferrovia. Pela janela, grandes árvores passavam continuamente, num cenário selvagem e atípico para mim. O barulho era intenso: o apito e o ronco da locomotiva, pessoas gritando ao conversar; Era ensurdecedor, mas ao mesmo tempo agradável para quem está experimentando pela primeira vez. Lembro bem quando abri a janela para observar melhor a paisagem e as centelhas da Maria Fumaça trazidas no ar entraram e marcaram minha vestimenta com pequenos sinais de queimadura. Foram cerca de dez horas de viagem até o destino. Na época, uma cidade em desenvolvimento por causa dos investimentos em produção agrícola, mas ainda um lugar esquecido do país.
Quando desci na estação, ainda antes do anoitecer, fiquei encantado com a cidade. Um clima tropical excepcionalmente agradável, bem ventilado e com uma estranha umidade no ar que fazia mesmo o sol das duas parecer ameno. A arquitetura da maioria das residências era portuguesa, algumas nitidamente espanholas, todas, no entanto, muito bonitas e excêntricas ao que eu estava acostumado a apreciar.
Diz-se que nos rostos belos é que se escondem as almas horrendas. Nos corpos angelicais é que moram os demônios. Mas não parecia ser o caso daquele lugar.
O endereço da carta me levou a uma pequena casa a cinco quarteirões da estação, uma construção antiga, de paredes cinzentas, úmidas e mofadas. Não sei definir que tipo de arquitetura era aquela, não era portuguesa, nem espanhola, mas clássica, de grandes portas e janelas com detalhes bem desenhados em suas molduras, embora bastante desgastadas pelo tempo. Do lado da porta a numeração conferia com o endereço que Antônio me enviou: Rua General Gurjão, 1099.
Bati várias vezes na porta e não fui atendido. Não havia ninguém em casa. Sentei do outro lado da rua, na sombra de uma grande castanheira e esperei. Deve estar no trabalho — pensei. Não demorou muito o sol já se punha e um velho apontou na esquina, caminhando rápido e aparentemente assustado com alguma coisa. Parou na frente da casa e começou a revirar os bolsos, então sacou um molho de chaves e abriu a grande porta que ringiu num som absurdamente agudo. Abordei-o antes que ele pudesse fechar a porta. O velho levou um susto ao me ver. Olhou para mim como quem tentava lembrar-se de algo, mas logo desviou o olhar.
— Não, aqui não mora nenhum Antônio.
— Mas o senhor conhece algum Antônio Miguel Souza Castro que more aqui nesta rua? Ele me deu esse endereço.
— Não, meu caro. Eu sempre morei nesse endereço. Desculpe-me, mas tenho que entrar. — respondeu o senhor de aparência nervosa e tomado de um furor sombrio que não pude entender.
Sem mais conversa ele bateu a porta e me deixou na rua sem saber o que fazer e para onde ir. Olhei ao redor, a rua mal iluminada se perdia na penumbra dos becos. Por alguma estranha razão as ruas estavam desertas, como se ali as pessoas temessem a escuridão. Não conhecia ninguém, nem mesmo a cidade, não sabia onde poderia encontrar uma pousada e não havia ninguém nas ruas a quem eu pudesse perguntar. Peguei minha mala e ia me dirigindo novamente à estação ferroviária para pernoitar por lá quando uma voz feminina e áspera chamou por mim.
— Ei, moço! Você não é daqui, é? Está procurando um lugar pra ficar?
— Sim, sim, senhora. Sabe onde posso encontrar uma pousada ou algo do tipo?
— Alugo quartos e tenho um aqui que você pode ficar, se quiser. Pelo menos até encontrar seu amigo.
Velha maldita, estava ouvindo minha conversa — pensei.
 — Agradeço, minha senhora. Eu estava mesmo procurando um lugar para pernoitar.
— Venha, então. Acompanhe-me.
O quarto em questão ficava ao lado da casa do velho, colado parede com parede. Era um quarto pequeno e úmido, com cheiro de mofo, uma cama, um armário e uma pequena escrivaninha. O banheiro ficava do lado de fora e era comum a todos os hóspedes, embora parecesse não haver outros hóspedes.
Tomei um banho e voltei para o quarto. Não demorou a senhora bateu na porta trazendo uma refeição e um copo d’água.
— Pode me chamar de Judite, senhor. Como devo chama-lo?
— Jonas, pode me chamar de Jonas.
— Jonas de quê?
— Jonas Xavier.
— Pois bem, trouxe seu jantar. Não se preocupe que não irei cobrar por ele. Já comeu Maniçoba alguma vez na as vida?
— Não, nunca.
— Então irá comer hoje. Deixarei aqui na escrivaninha. Tenha uma boa noite.
Dizendo isso, a senhora Judite, que aparentava cerca de quarenta anos, saiu do quarto e encostou a porta.
A tal Maniçoba era uma comida verde-escura, de cheiro forte e aparência nada amistosa. Relutei por algum tempo a experimentar, mas a fome era tamanha que tive que abandonar qualquer preconceito ou frescura. Terminei de comer, deitei na cama sob o mosquiteiro empoeirado e adormeci.
Ainda hoje não sei dizer se eu estava acordado ou se fora apenas um sonho obscuro e perturbador. Lembro apenas que acordei na madrugada com o som de um clarinete a tocar uma estranha de sedutora música. Algo como uma sonata, melancólica, de certa forma deprimente e em alguns momentos doentia. Fiquei ali, inerte, de ouvidos atentos na música que adentrava a escuridão daquele quarto úmido. Levantei lentamente e fui me aproximando da parede, o som foi ficando mais forte, até que minha orelha encostou-se à parede fria. Vinha de lá, exatamente da casa ao lado, da casa do velho.
Aquela estranha música me atormentava e minha inquietação se tornou ainda maior quando lembrei que Antônio também era clarinetista. Seria muita coincidência. Cada nota, cada refrão, cada pausa me dava calafrios. E como se já não fosse o bastante, de repente, num pequeno trecho, reconheço um velho adagio que Antônio sempre tocava em seus ensaios. Aquilo foi como uma estaca em meus ossos. Era ele! Só podia ser ele!
Vesti a calça com pressa, coloquei meus óculos e abri a porta para ir à casa ao lado. Num susto ainda maior, quase caí de costas ao ver ali, em meio à penumbra do luar da madrugada, Judite em pé à minha porta.
— Isso não são horas para andar por essas ruas, senhor Jonas.
Demorei alguns segundos para recuperar as forças, minhas mãos estavam geladas e trêmulas.
— Sei disso, senhora. Mas ouvi uma música que pareceu muito com o que meu amigo Antônio tocava e acredito que ele esteja na casa ao lado.
— Isso não é possível, senhor. Aqui ao lado mora o velho Tião e eu não escutei música alguma.
— Como assim? Estava tocando até agora a pouco!
— Não houve música nenhuma. Seu Tião é pescador, só sabe pescar, nunca tocou nenhum tipo de instrumento.
— A senhora deve estar enganada, eu...
— Sem mais, senhor. Cuido desta pensão e não permito que os hóspedes fiquem perambulando nas ruas pela madrugada. Se quiser continuar aqui trate de voltar para o seu quarto! — respondeu a mulher já com um tom alterado.
Não tive opção senão voltar para o quarto e me deitar. Naquela noite não ouvi mais nenhuma música.
No dia seguinte, procurei por toda a vizinhança qualquer sinal da existência de Antônio naquela cidade, mas ninguém jamais ouviu qualquer coisa sobre ele. Simplesmente não havia um clarinetista sequer por aquelas bandas. Fui também à Escola Monsenhor Mâncio Ribeiro, que diziam ser a melhor escola da cidade, onde, em carta, Antônio me prometeu o emprego, mas lá também ninguém o conhecia. Voltei para a pensão já no entardecer, quando o sol formava um bonito espetáculo no horizonte além do rio. Sentei no banquinho em baixo da castanheira e fiquei esperando o velho Tião aparecer.
Era impressionante como os habitantes da cidade temiam a noite. Durante o dia as pessoas se amontoavam nas calçadas transitando de um lugar para outro, aos montes, e conversavam nas esquinas, gritavam oferecendo produtos, carregavam os vagões do trem com frutas, verduras e quinquilharias. Mas quando a noite ia chegando todos misteriosamente se escondiam em suas casas. A rua estava novamente deserta e o último, além de mim, que vi caminhar pela calçada foi o velho Tião, que saiu de um beco com pressa, como quem deseja chegar logo em casa, ou como quem está sendo perseguido por alguém. De um salto apressei-me para alcançá-lo.
— Senhor! Senhor! Preciso falar.
O homem pareceu me ignorar a princípio, mas quando viu minha persistência virou-se e me encarou com olhar severo.
— Não tenho nada para falar com você!
— Desculpe-me, senhor, a intromissão. Como disse ontem, estou à procura de um amigo e, durante a madrugada, acabei ouvindo uma música que me pareceu ter sido tocada pelo próprio, aí da sua casa. Por isso peço encarecidamente que, se o conhece, diga-me onde posso encontrá-lo.
O velho olhou para os lados observando se não havia alguém além de nós e começou a revirar os bolsos à procura da chave.
— O senhor não vai me dizer nada?!
Quando disse isso, subitamente o velho agarrou-me o braço com uma força impensável para alguém daquela idade.
— Saia dessa cidade! Está me ouvindo? Esqueça aquela maldita carta e saia dessa cidade!
Com um empurrão ele me soltou e entrou em sua casa. Fiquei sem ação, ali, calado, observando a imensa porta de madeira fechada à minha frente. Como ele poderia saber da carta? Com certeza ele conheceu Antônio, não havia outra explicação.
Voltei para o quarto da pensão. Judite já me esperava com um olhar reprovativo e uma bandeja com o jantar e um copo d’água.
— Espero que tenha gostado da Maniçoba. Hoje trouxe Sopa de Turú para você experimentar. Tenha uma boa noite e lembre-se: nada de ficar saindo na madrugada, não é seguro. — disse e saiu encostando a porta atrás de si.
A sopa não era ruim, e o Turú, apesar da aparência nojenta e viscosa, típica de todo anelídeo, tinha um sabor peculiar e bom.
Naquela noite eu não quis dormir. Decidi esperar até que a música começasse — se é que iria começar. Talvez fosse loucura minha, ou um pesadelo — não sei bem —, apenas sentei, abri um livro e comecei a ler alguns poemas. O tempo já não contava mais. Perdi-me em versos, parágrafos, devaneios e ansiedade. A música não surgia, nenhuma melodia atravessava aquelas paredes centenárias. Ora ou outra as pálpebras se fechavam e num instante se abriam, o corpo estava cansado. Olhei para o relógio, lembro bem, estava parado. Não sei se por falta de corda ou se o próprio tempo havia se rendido ao cansaço. Lá fora um silêncio opressor, torturador, que fazia daquele cômodo um quarto-sepulcro, uma lápide para uma morte noturna e breve.
Despertei num susto. Havia cochilado. Lá estava ela, a inquietante melodia. Ainda baixinho, mas nítida aos meus ouvidos apurados. Levantei e encostei novamente o ouvido na parede. A mesma música, as mesmas notas, as mesmas pausas. Era Antônio! Só podia ser ele.
Não arrisquei sair pela porta da frente, Judite poderia estar lá como na noite anterior. Abri a janela dos fundos e saltei e, antes que eu pudesse me dar conta do que havia feito, já tinha pulado o muro e estava no quintal dos fundos da casa vizinha. Estava escuro, sem luar, sem vento. Uma noite quente e abafada. O quintal era sujo e cheio de entulho. Móveis velhos, livros rasgados, e objetos indistinguíveis se espalhavam no chão de terra batida. Aproximei-me da porta, a música parecia cada vez mais alta e intensa, como que se pudesse sentir minha aproximação, de tal modo que ao tocar a maçaneta as notas pareciam ser tocadas em um frenesi aterrorizante. Respirei fundo e girei a maçaneta. Estava destrancada! Surpreendentemente aberta.
Entrei no cômodo escuro e fui seguindo a música e uma fraca luz que parecia dançar ao som da melodia. Lá estava, de costas para mim, sentado numa cadeira. A luz vinha de uma lamparina sobre uma mesa de canto e o quarto, apesar da penumbra, podia se ver, possuía apenas uma cama, a cadeira e a mesinha.
O clarinete gritava sem parar aquela música agourenta e os dedos pareciam desumanamente flexíveis e ágeis. O suor escorria pelo seu pescoço e, até onde eu podia ver, por parte do rosto. Dei alguns passos na direção do velho para poder me explicar, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa a música subitamente cessou. Um silêncio cortante ganhou toda a casa por um insignificante período de tempo, quebrado então pelo tic-tac do meu relógio que estranhamente voltou a funcionar. Era três e quinze da madrugada. Pensei em voltar antes que fosse notado, mas já não era mais possível.
— Eu disse que era para ir embora dessa cidade — soou a voz fraca e rouca do velho sentado na cadeira.
— Desculpe-me, senhor, eu sei que não tenho o direito de invadir sua ca...
— Eu disse que era para ir embora! — interrompeu o velho com um grito aterrorizante — Não vês que estou tentando te livrar dessa maldição?!
— Que maldição? Só quero encontrar meu amigo e sei que o senhor sabe onde ele está. Achei que era ele tocando esse clarinete, mas vejo que me enganei. Só quero saber onde ele está.
— Você não entende — dizia num sussurro quase inaldível—. Se ficar aqui, se tornará como eu: um amaldiçoado! Um prisioneiro desta cidade de almas perdidas.
— Senhor, não sei do que está falan...
Antes que eu pudesse terminar minha frase, o velho Tião levou o instrumento aos lábios e começou a soprar. Uma nota atrás da outra e a melodia foi tomando novamente aquela forma sombria, frenética e assustadora. O velho olhou para mim e, para meu desespero, seu rosto foi tomando estranhas formas, desfigurando-se, remodelando horrivelmente cada traço, cada feição. Os cabelos grisalhos e compridos escureciam e diminuíam conforme os dedos se moviam sobre os orifícios do instrumento, as rugas se moveram elasticamente de modo que eu não as via mais, o contorno dos olhos clarearam e as retinas mudaram do preto para um castanho-esverdeado. À minha frente, com o clarinete nas mãos, não havia mais um velho e tísico pescador, mas o jovem e altivo clarinetista: Antônio!
Horrorizado com aquela metamorfose horrenda e inesperada, cambaleei para trás na escuridão, esbarrando na mesa da cozinha. Aquela música impressionante continuava e parecia romper meus tímpanos. Horrorizado, gritei, mas meus gritos eram abafados pelo som esmagador daquele instrumento.
Os olhos de Antônio pareciam vidrados, observavam o nada, como em hipnose ou possessão. Tateei no escuro tentando encontrar o rumo da saída, tropecei numa cadeira e caí. Por algum instante fiquei ali, estendido no chão, tonto. Quando recuperei os sentidos, vi o relógio à frente do meu rosto: novamente parado! Levantei num salto e corri sem pensar para onde. Pulei o muro e corri pelas ruas estreitas, becos, calçadas com paralelepípedos, ainda na escura madrugada, entre casarios cinzentos e silenciosos. O som da melodia foi ficando para trás, diminuindo a cada pernada. O horror foi tamanho que mesmo sem saber para onde estava correndo as pernas me levaram até a velha estação ferroviária.
No amanhecer do dia tomei o primeiro trem rumo à Belém e de lá voltei para minha cidade apenas com os documentos e o dinheiro que carregava nos bolsos.

♠ ♠

Eis as horríveis lembranças que trago comigo, de um amigo aprisionado nas entranhas de uma cidade amaldiçoada, de um corpo que só consegue voltar a si ao som daquela música infernal.

Ainda hoje, no entanto, penso como poderia tudo aquilo ter acontecido e tento entender o motivo de meu amigo ter me enviado aquela carta. Depois de tanto tempo começo a duvidar de minhas próprias convicções, de minha memória e até de minha lucidez. Talvez eu mesmo ainda estivesse lá, aprisionado, se Antônio não me dissesse a tempo que eu deveria ir embora. Talvez eu mesmo fosse hoje mais uma alma atormentada ao som daquele frenético clarinete. Malditas lembranças! Maldita melodia que não sai da minha cabeça!

MÚSICA DOS ANJOS {RAPHAEL SOARES}


Gravura de Gustave Doré

Seus pais queriam pôr-lhe o nome de Vitória, mas logo que nascera escolheram outro nome: Angélica. O nome não fora escolhido à toa, pois a menina era um belo e indefeso anjinho. A casa era pequena, um pequeno quarto com banheiro e uma sala que servia de cozinha, mas os pais teriam condição de criar sua filha e ampliar o lar aos poucos. Primeiro um quarto, depois uma cozinha.
Durante seus primeiros anos, a pequena Angélica fora criada com todo o cuidado, sempre bem limpa, vestida e afagada pelos pais. Em alguns momentos superprotegida, mas nada que a própria menina não quisesse. Angélica, como o anjo que era, vivia num verdadeiro Éden de tranquilidade, e pouco lhe faltava. Porém, calada, sempre desejara uma coisa: um irmãozinho que lhe fizesse companhia, que brincasse com ela, para que a vida fosse ainda mais perfeita; embora nunca tenha pedido aos pais, pedia ao “pai do céu”, como costumava chamar em suas orações, que lhe atendesse tal desejo pequenino.
Demorou vários anos, mas o desejo de Angélica fora atendido. Quando tinha doze anos veio a notícia de que teria um irmão mais novo, e era muita alegria para todos. Felizes comemorações e chás foram feitos para aguardar o novo morador daquela casa, que já não era mais tão pequena e poderia ter mais um visitante. Meses depois a confirmação de que seria um menino. Teriam de preparar um novo quarto para a menina, já que não é habitual que uma moça nessa idade compartilhe o quarto com um rapaz.
Os últimos meses de gravidez foram de uma grande tensão, tensão que a frágil menina sequer poderia imaginar, e por isso não pôde perceber. Nasceu o menino, e foi uma comoção geral, e toda a família chorou. Deram-lhe o nome de Augusto, e as coisas nunca mais seriam as mesmas desde então.
Angélica mudara para o novo quarto, nos fundos da casa. Devido a pressa em concluir a obra do quarto da menina, aproveitaram a paredes do lado e dos fundos, e o quarto ficou ligado à casa por um banheiro apenas. Como um apêndice à casa ficaram Angélica e seu quarto. Toda a sua vida fora e estava no centro daquele ambiente, e agora era relegada a um canto traseiro, enquanto o novo habitante tomava o seu lugar. A menina vira o irmão apenas uma vez, e não lhe foi permitido chegar muito perto. Não sabia o quê e o porquê, mas seu irmão era, de algum modo, muito diferente de si; engraçado, esquisito, dava medo. Não sabia.
A chegada do novo morador não afetara a vida de Angélica somente. A casa inteira estava mudada, mais sombria. Sempre que a menina se aproximava do centro da casa podia ouvir as inúmeras brigas entre os pais. Nunca vivera em um ambiente hostil como aquele, carregada de ofensas e acusações, e como sempre acontecia cada vez que se aproximava do coração da residência, pensou que era por sua culpa que tal se sucedia, então passou a se isolar cada vez mais em seu quarto, onde não ouvia sequer ruido de queixas, saindo apenas quando os pais iam com o irmão em uma das numerosas visitas ao médico. Quando estava na sala, só, era um silêncio, que nem de longe lembrava a abundância de sons da sua infância. Fora expulsa do Éden, e não era mais capaz de colher a alegria com as mãos.
Mas um segundo fato mudou a sua vida. Do silêncio do seu quarto, subitamente, ouviu longas notas de flauta, e logo depois uma canção. De onde viera? Viera acaso do céu? Sabia que não. Sabia que tal som vinha dos fundos de seu quarto. Talvez o vizinho fizera o mesmo que seus pais, construindo um cômodo colado ao muro. Não importava, aquela música parecia vir de instrumentos angelicais. A menina só queria que ela não parasse nunca. Porém, sobreveio o silêncio, e Angélica chorou.
Em pouco tempo a menina percebeu uma regularidade matemática que movia a música e seu executor, e a vida na casa era igualmente regular. No centro da casa as brigas e ofensas, o cuidado com o menino oculto e as idas ao hospital. No quarto da menina a música da flauta, entremeada de silêncio. Era aquela música sua única alegria, e sua maior tristeza, e nunca vira que ser, anjo ou demônio, tocava para ela.
Certo dia, Angélica tomou uma resolução. Os pais saíram e a música tocou, como era hábito. A menina saiu de casa sozinha e foi, pela primeira vez, à casa do vizinho de trás. Era uma casa verde e simples. Deu dois toques na campainha. Gritou de dentro uma voz anunciando que já atenderia, e logo um homem alto e jovem abriu a porta, com uma flauta em punho, perguntando com quem a jovem queria falar. A menina ficou alguns instantes em silêncio, congelada, enquanto o homem aguardava alguma reação.
Angélica desferiu três facadas no homem e correu.