O TEMPO {MAURO LOPES LEAL*}


O arcebispo da cidade de B., como de costume, abençoou a multidão de fieis, assinalando o fim da cerimônia. Recebeu, como de praxe, parabenizações pelas belas palavras de ânimo com as quais costumava adornar a sua homilia. Após alguns apertos de mão e uma dezena de fotos, retirou-se para descansar na imensa casa que ficava aos fundos da igreja. Estava exausto e havia dado orientações de que não queria mais ser importunado. Sua secretária, uma velhinha de uns sessenta anos, inclinou a cabeça.
O religioso, já no seu quarto, trocou de roupa, tomou um demorado banho. Enquanto se enxugava, refletia sobre a possibilidade de ainda jantar outra vez, mas o pernil não estava do seu agrado, o que rendeu momentos de aborrecimento para si horas antes. Odiava alimentar-se mal, pois seu humor tornava-se instável nesses momentos e, por vezes, até mesmo grosseiro para com as demais pessoas, algo que não era do seu agrado, mas culpava seu organismo por semelhante comportamento. Olhou no relógio, era quase meia noite. Achou melhor não comer nada, pois poderia ter pesadelos durante a noite, outra coisa que o aborrecia constantemente. Apreciava noites de sono calmas e revigorantes, principalmente as de chuva.
Ajoelhou-se, como de costume, diante de um ícone e começou a rezar. Enquanto repetia maquinalmente as orações, lembrou-se de que havia esquecido de mandar comprarem cigarros. Tinha dois na sua carteira, o que era quase desastroso, pois costumava acordar de madrugada para fumar, coisa que fazia duas ou três vezes durante a noite. “Ave-maria, cheia de graça...”. Escutou atrás de si uma forte respiração. Assustou-se e o ar faltou-lhe aos pulmões momentaneamente. Engoliu seco. Voltou-se abruptamente. A um canto do quarto, sentado em uma das três poltronas de couro, um idoso, vestido elegantemente, fitava-o com avidez. “Boa noite, senhor arcebispo”. Sua voz era grave, mas pausada, como se não tivesse pressa alguma em se expressar. Saudou o religioso com um gesto positivo de cabeça.
O religioso, com o olhar fixo no estranho que ocupava seu quarto, ergueu-se de forma impressionante, em um movimento brusco que não condizia com o seu avantajado porte físico e ventre protuberante. “O que queres? Dinheiro? Jóias?”. Sua voz, apesar de firme, traia-o com um leve tremor. O outro cruzou as pernas e exibiu um elegante par de sapatos pretos. Retirou do bolso um charuto, cheirou-o com parcimônia. “O que eu quero? Pergunta curiosa. Eu quero aquilo que é meu”.  Apanhou ao lado da poltrona uma magnífica pasta, abriu-a e retirou de dentro um papel bastante envelhecido. Agitou-o no ar.
“Isso é... é impossível! Algo deve estar errado. A data... há algum equívoco, certamente”. O estranho ancião sorriu. Passou, na vasta cabeleira grisalha, a cumprida mão, cujos dedos estavam adornados com anéis de ouro e prata. Acendeu seu charuto e deu duas baforadas, em seguida percorreu o quarto com o olhar. Fitou o teto, o chão de mármore, os quadros, a rica mobília. Chamou sua atenção o crucifixo de ouro acima da cabeceira da cama do arcebispo. Pigarreou, como se preparando para dizer alguma coisa, mas continuou em silêncio, olhando em torno, como que procurando algo que não saberia dizer com precisão. Em seus gestos havia nobreza e altivez autênticas, e nada em si parecia desnecessário, como se tudo em sua pessoa fosse imprescindível.
“A questão é o tempo, senhor arcebispo. O tempo é eterno inimigo do homem, não eu. Reflita comigo: ao serem concebidos, os homens iniciam uma interminável disputa contra o tempo, que por sua vez é inflexível, pois avança, poderoso, indiferente às colunas majestosas do Partenon ou aos traços sublimes e melancólicos da Pietá. É essa impiedosa postura do tempo, por assim dizer, que angustia o homem, este, por seu turno, torna-se, sem perceber, escravo desse tempo. Na luxuriante vida ou no remexer das latas de lixo, o homem vive, ou sobrevive, sob o estigma da finitude da existência. Sabendo que sua efetividade no mundo é breve, um sopro, ele quer desfrutar, ao máximo das potencialidades, tudo aquilo que é bom, belo ou prazeroso, não importa o que seja preciso fazer para alcançar semelhantes... doçuras. Há os que corrompem, os que matam, os que furtam, mas, pessoalmente, eis aqui um segredo meu que confesso com certo pudor, mas também ironia, prefiro aqueles que, em nome de um entidade superior, nutrem-se da fé alheia para a satisfação de desejos, digamos, particulares. Não estou aqui para julgar ninguém, o senhor bem sabe, na verdade incentivo esse desejo insaciável do homem em desfrutar daquilo que lhe é natural, o que me torna, em muitos casos, uma figura injustiçada. Sim, eis o termo exato, uma vez que, o senhor há de concordar comigo, nada sou além de um simples mensageiro. Se o homem não fosse um ser de veleidades exacerbadas e infindas, certamente eu não estaria aqui, minha existência seria nula”. O ancião parou para dar mais uma baforada em seu charuto, para em seguida repousá-lo com bastante calma em um cinzeiro próximo.
“Contudo, apesar de meu apreço ao homem, estou aqui na condição de executor, não, esse é um termo robusto demais. Digamos que sou um atravessador, uma espécie de barqueiro, um tipo singular de Caronte, bem mais alinhado”. Com gestos vivos, o ancião arrumou a gola da sobrecasaca. “Mas veja, o relógio na parede marca meia noite em ponto. Hoje, portanto, é 05 de janeiro de 1998. Logo, conforme este papel, deixe-me confirmar de novo, sim exato, conforme este documento, o senhor arcebispo deve acompanhar-me...”.
Diante daquelas palavras, o eclesiástico foi tomado por uma postura combativa. Armou-se com algum dos objetos religiosos que adornavam o seu quarto e apontou-o para o outro. “Espírito imundo” bradou com fúria “ordeno-te que retornes às abissais entranhas das quais surgistes!” Destemido, avançou. Em seu olhar havia uma espécie de esperança desesperada. Sabia que muita coisa estava sendo decidida ali, na sua alcova e que provavelmente a sua própria vida estava em jogo. Muitas coisas passavam pela sua mente, lembranças terríveis, mas não havia tempo para arrependimentos. Uma luta estava sendo travada e ele não podia esmorecer. Bradou outra vez as palavras anteriores, com mais ênfase e firmeza.
Ouviu-se uma forte e inumana gargalhada que ecoou por toda a casa. Os cães da vizinhança começaram a latir. No andar de baixo, ouviram-se rumores, talvez a velha secretária tenha acordado.
“Não me tome por um dos seus seguidores, homenzinho”. O ancião ergueu-se lentamente e só então percebeu-se o quanto ele era alto e corpulento. Com passos precisos, caminhou em direção ao arcebispo. Seu rosto ia desfigurando-se aos poucos, ao ponto de, após alguns instantes, tornar-se completamente horrendo. “O seu tempo, senhor arcebispo, extinguiu-se. Como eu sei disso? Eu sou o tempo!”. Uma grande sombra nasceu das costas do monstruoso ser e avançou sobre o religioso, adentrando-lhe pelas narinas, ouvidos, boca. O pobre homem debatia-se, sentindo um frio intenso invadir violentamente seu corpo. Um vazio extremo preenchia sua alma. Tentou ainda pronunciar alguma coisa, mas era impossível. Já não era mais senhor de si e tudo o que podia fazer era testemunhar a sua absoluta corrupção física e espiritual enquanto que, diante dos seus olhos, homens desesperançosos, mulheres desesperadas, crianças maltrapilhas, esqueléticas, enfermas, dançavam em um movimentar freneticamente convulsivo. Quem eram? O arcebispo sabia quem eram cada uma delas, reconheceu-as e, se não fosse a intensa dor que sentia, teria chorado. 

            A velha secretária bateu à porta do quarto. “Senhor arcebispo?”. Forçou-a. Chamou mais duas vezes e obteve como resposta um grito humano, intenso inicialmente, depois como que sumindo para regiões remotas. Procurando com dificuldades a chave certa em um molho grosso, a pobre mulher abriu, trêmula, a porta, para encontrar o quarto vazio e com um forte cheiro que lembrava cigarros, mas mais forte.

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* Mauro Lopes Leal

Natural de Belém do Pará, é graduado em Filosofia e Letras, especializando-se em Estudos Linguísticos e Análise literária pela UEPA, bem como o mestrado em Letras pela UFPA. Seus estudos acadêmicos abordam especificamente os autores russos, trabalhando a relação entre filosofia e literatura. 

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