O MANÍACO DO CEREJA {GIROTTO BRITO}

Poster do filme "Maniac", de Elijah Wood.

Naquela noite de domingo a cidade virou um alvoroço só. Na rádio, televisão, internet e mensagens de celular, corria a notícia da captura do homem que aterrorizava o bairro do Cereja há quase onze meses. A polícia relutava em divulgar o nome e a população ansiosamente aguardava para saber quem era o sujeito capaz de tais atrocidades. Em frente à delegacia, uma multidão revoltada se aglomerava e ameaçava invadir as dependências e fazer justiça com as próprias mãos, enquanto um pequeno grupo de policiais tentava acalmar os ânimos até que reforços da cidade vizinha chegassem.
Foram sete vítimas: mulheres jovens que andavam sozinhas à noite. Todas brutalmente violentadas e estranguladas. Os corpos foram encontrados às margens de um córrego, numa área de preservação próxima ao centro da cidade e, por isso, todos imaginavam que os ataques aconteciam num beco ali próximo conhecido por “beco do mete-medo”. Curiosamente, o nome do beco se dava por causa de um antigo morador apelidado por “Mete-medo”, não pelos recentes ataques do maníaco.

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Eu sabia que essa hora chegaria. Agora estão todos querendo minha cabeça, mas digo que valeu a pena. Digo para mim mesmo... Ah, como eu me diverti! Como foram todas tão delicadas. Aqueles lábios trêmulos, gemidos, posições forçadas e o cheiro... como são cheirosas quando estão na flor da idade. Não me arrependo de nada. E por que haveria de me arrepender? Todas elas gemeram gostoso antes de morrerem. Sentiram o gozo divino ainda em vida. Que me matem esses canalhas. Eles não entendem, mesmo. Não sabem o que é prazer de verdade. Eu sei! Ah, como sei. Mesmo aqui, atrás das grades, sou homem livre, enquanto eles, lá fora, continuam presos em seus uniformes, noticiários, pudores e regras morais. Bando de hipócritas nojentos! Culpam-me por um pouco de prazer, mas quantos eles já mataram também por prazer? Sonegadores de impostos, corruptos, aliciadores..., um bando de porcos imundos cujos olhos só são capazes de enxergar a sujeita alheia. Ahhh, não me sai da cabeça o cheiro daquela morena... mesmo morta ainda exalava um perfume de flores. Flores frias, mortas, mas divinamente belas.

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— Delegado, os homens estão passando sufoco lá fora. Se o batalhão de Capanema demorar a chegar esse povo vai entrar na marra.
— Já liguei para o Sargento Moreira, eles já estão quase aqui. Vamos enrolar esse pessoal mais um pouco. E o meliante?
— Está lá, deitado no chão da cela com um sorriso imenso na cara, como se nada estivesse acontecendo. Só pode ser louco, delegado. Só pode ser louco.
— Não, não creio. Loucos não tratam corpos com tamanho zelo como esse homem fez. Estuprava, estrangulava, depois maquiava a vítima e enfeitava com flores para que estivesse bonita a quem a encontrasse. Isso não é loucura, talvez psicopatia.
— Sei não, sargento. Pra mim é doido de pedra. Ah, finalmente estão chegando!

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Já era quase meia noite quando uma equipe do esquadrão de choque chegou à delegacia. Sob ordens do Sargento Moreira, o batalhão não puxou conversa com ninguém. Sem qualquer diplomacia, os soldados foram dispersando a multidão com balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio. Foram quinze minutos de pânico, choradeira e correria até que a rua ficasse quase vazia. Quando tudo se aquietou, reuniram-se delegado, sargento, representante do judiciário e três jornalistas para decidirem se mantinham o estuprador na penitenciária da cidade ou enviavam para Belém, e como sua identidade seria revelada.
A discussão foi acalorada. Os jornalistas sedentos pela identificação do indivíduo, o delegado querendo enviá-lo para Belém a fim de se livrar do problema e o sargento argumentando que as penitenciárias de Belém e Americano encontravam-se muitíssimo abarrotadas. Quando achavam que já tinham decidido por manter o criminoso na cidade entra na sala um casal de representantes do Departamento de Direitos Humanos e recomeça a discussão em torno do destino do preso que, sossegadamente, escutava a conversa de uma cela logo ao lado da sala de reuniões.

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Prefiro sinceramente que me deixem aqui nesta cidade. Já estou acostumado com esse cheiro de maresia que está impregnado até na mais solitária das celas. E aqui estarei perto de minhas amadas. Quem sabe a maresia não traga de surpresa o cheiro de uma delas? Sei que saberia reconhecer cada uma por seus estonteantes odores. Sim, eu sei. São inigualáveis. E tal como os bons jardineiros identificam as flores com olhos fechados, assim também eu as identificaria. Mas estão mortas, e a morte leva consigo almas e odores, substituindo-os por uma podridão sem fim. Queria eu ter o dom de Jean-Baptiste Grenouille e poder guardar o perfume de minhas paixões em fracos, para senti-los enquanto eu ainda estivesse vivo.

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— Vocês só podem estar de brincadeira. Querem que eu consiga uma cela individual para esse sujeito?
— Sim, delegado. Como determina a lei. Segundo fomos informados, o acusado possui dois cursos de nível superior e um mestrado em biologia, isso é o suficiente para assegurar seu direito à cela especial.
— Eu conheço muito bem a lei, senhora sei lá o seu nome. Mas, em primeiro lugar, ele não é um “acusado”. O Indivíduo foi pego em flagrante, sobre o cadáver, e confessou abertamente não só esse como outros seis assassinatos. Em segundo lugar, o nível de frieza e crueldade adotado por ele é tamanho que faz qualquer outro preso da penitenciária desta cidade parecer uma criança inocente. E em terceiro lugar, nós não temos cela especial! Se quiser uma, terão que remanejar outros quinze presos para outra cela já cheia, causando superlotação.
— Estamos esperando pela identificação do sujeito — interrompeu um dos jornalistas —. A população quer saber quem é esse assassino estudado.
— Esperem! Só vamos divulgar a identidade dele quando estiver em segurança.
— Companheiros, eu como sargento tenho uma proposta a fazer.
— Então diga, sargento. O que tens a sugerir? — disse o representante do judiciário.
— Bem, deixamo-lo aqui mesmo na delegacia, pois temos uma cela onde ele pode ficar só, mas mandamos divulgar na imprensa que o mesmo foi encaminhado para a penitenciária de Americano. O amigo do judiciário agiliza o processo de julgamento dele para que não permaneça mais de duas semanas por aqui e, enquanto isso, mantemos alguns homens de plantão para garantir sua segurança, caso a informação vaze e haja alguma tentativa de vingança.
— Hummm. Todos estão de acordo? — perguntou o delegado.

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Já era madrugada e nas casas, nas ruas, nas praças e nos bares, grupos de pessoas esperavam, com seus aparelhos de rádio ou TV ligados, a notícia tão aguardada sobre quem era o misterioso “Maníaco do Cereja”, como foi chamado quando ainda estava solto. Embora fosse uma cidade com pouco mais de sessenta mil habitantes, mantinha aquele ar de cidade do interior onde muita gente se conhece, conhecem as famílias uns dos outros e seus graus de parentesco. Assim, todos imaginavam que, quando divulgado, o assassino fosse alguém conhecido. E era.

PELO HORÁRIO DE BRASÍLIA SÃO UMA E VINTE E TRÊS DA MADRUGADA E TRAZEMOS COM EXCLUSIVIDADE NOTÍCIAS SOBRE O MANÍACO DO CEREJA. A DELEGACIA DE POLÍCIA CIVIL DE BRAGANÇA ACABA DE DIVULGAR A IDENTIFICAÇÃO DO HOMEM QUE ESTUPROU E MATOU SETE MULHERES NOS ÚLTIMOS ONZE MESES. PROFESSOR UNIVERSITÁRIO ATUANTE NA CIDADE HÁ 11 ANOS, SOLTEIRO, TRINTA E SETE ANOS, NASCIDO NA CIDADE DE TEÓFILO OTONI, MINAS GERAIS, TARCÍSIO XAVIER DE MOREIRA MATOS FOI TRANSFERIDO HÁ ALGUNS MINUTOS PARA A PENITENCIÁRIA DE AMERICANO. EM BREVE VOLTAREMOS COM MAIS INFORMAÇÕES.

A ansiedade que estava corroendo a população deu lugar a uma quase completa confusão. De repente, com exceção dos alunos e funcionários da universidade que conheciam o professor Moreira, todos começaram a se perguntar quem era o sujeito e como poderiam não conhecer alguém que morava na cidade há onze anos.
Moreira sempre foi muito caseiro, dedicado ao trabalho e aos estudos, e saía de casa geralmente para trabalhar ou comprar alguma coisa. Não tinha amigos e conversava com os colegas de trabalho e alunos apenas o essencial. Era um homem recluso e isso era tudo o que sabiam sobre ele.

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Acham que podem pôr medo em mim. Pôr medo em quem conhece as raízes do medo como a palma da mão. Eles não sabem o que é ter medo, não fazem absolutamente nenhuma ideia do que é o medo em sua essência. Nunca viram os vasos sanguíneos dos olhos se dilatarem frente ao horror, nem mesmo sentiram aquele gélido suor misturado ao calafrio ao sentir a ponta da lâmina da faca deslizar pelo dorso trêmulo. São uns maricas! Se eu esfregasse meu membro em suas caras se borrariam todos. Mas elas foram Deusas. Fizeram-me sentir medo como ninguém jamais foi capaz de fazer.

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— Acho que por essa noite tudo já foi resolvido, Delegado. Já dei ordens para quatro soldados ficarem de guarda até nove na manhã, quando outros quatro vêm para o revezamento.
— Ok, sargento. Com a notícia de que o Moreira foi encaminhado para Americano acho difícil que haja algum tipo de retaliação. Mas é sempre bom prevenir. Obrigado pelo apoio.
— Por nada.

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 Antes do alvorecer, uma chuva fina começou a cair sobre a cidade. Dos becos escuros e esquinas mal iluminadas começaram a sair pessoas armadas com fações, paus e foices. Dezenas, talvez uma centena. O soldado da guarita foi o primeiro perceber a aproximação da multidão e correu para dentro da delegacia trancando a porta e avisando os demais soldados de plantão. O delegado já não estava mais lá.
Do lado de fora um barulho assustador aumentava a cada minuto. Grades eram arrancadas, vidraças apedrejadas e, como um enxame, arrombaram a porta e iam destruindo tudo pelos corredores da delegacia. No hall que dá acesso às celas, encontraram a barreira com seis policiais armados gritando para que recuassem.

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Então, vieram cobrar a dívida. Imaginei que a estratégia do sargento não ia dar certo. Provavelmente fora algum dos jornalistas, o mais silencioso. Um deles era parente de um dos meus amores e não ia guardar segredo. Trouxe os seus para vingarem a sua. Talvez a loira, ou a morena dos cabelos lisos e pernas roliças. Quem sabe a mulata, a primeira. Não importa, o máximo que podem fazer é me mandarem para junto delas.
Como eu disse, todos esses que me julgam, que saíram de suas casas na madrugada para aplicarem a mim um sentença, são tão culpados como eu. Sim, matarão os policiais para chegarem aqui e entrarão por essas grades e me mutilarão até a morte. E vos digo em pensamento: vingarão suas mulheres pelos crimes que eu cometi, mas quem vingará a mim pelo crime que estão para cometer?

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PELO HORÁRIO DE BRASÍLIA SÃO OITO HORAS E QUINZE DA MANHÃ E TRAZEMOS COM EXCLUSIVIDADE NOTÍCIAS SOBRE O CASO DO “MANÍACO DO CEREJA”. A ASSESSORIA DE IMPRENSA DA POLÍCIA CIVIL ACABA DE INFORMAR QUE, DURANTE A MADRUGADA, CERCA DE CEM PESSOAS PORTANDO ARMAS BRANCAS E BARRAS DE MADEIRA INVADIRAM A DELEGACIA, POIS TIVERAM ACESSO À INFORMAÇÃO DE QUE O MANÍACO TARCÍSIO XAVIER DE MOREIRA MATOS AINDA SE ENCONTRAVA LÁ. O PRÉDIO FOI COMPLETAMENTE DEPREDADO E HOUVE CONFLITO COM OS SOLDADOS DE PLANTÃO, RESULTANDO EM QUINZE MORTES: TRÊS POLICIAIS, ONZE CIVIS E O MANÍACO DO CEREJA, CUJO CORPO FOI COMPLETAMENTE MUTILADO E ESPALHADO PELAS RUAS DA CIDADE COMO UM SUPOSTO ATO DE AVISO À POSSÍVEIS OUTROS CRIMINOSOS. EM BREVE VOLTAREMOS COM MAIS INFORMAÇÕES, FIQUEM AGORA COM O PROGRAMA “BOM DIA BRAGANÇA”.

HISTÓRIA DE PENSÃO {RAPHAEL SOARES}


Gravura de Gustave Doré

Não tenho muitas lembranças de Altamira, quando estive lá por alguns meses no ano de 2009 prestando um serviço para a Norte Energia. Desembarquei na cidade no final do ano, em uma das mais cansativas e duras viagens terrestres que já fiz na vida, saindo de Marabá. Um frisson se instalara em decorrência da possível construção da usina, e uns diziam que Altamira se tornaria a Nova Belém, expectativa essa que, para o azar dos moradores e de todos os que foram viver na cidade em busca de um futuro de riquezas, nunca se concretizou. Foi para mim, de fato, decepcionante perceber que a maior cidade do mundo (ou o que eu achava ser na época, já que acabara de cair duas posições nesse ranking) era tão simples, e de certo modo tão descuidada. Ouvi dizer, um dia desses, que melhorara pouco em comparação com o grande aumento populacional que teve nesses últimos anos.
Instalei-me imediatamente em uma pensão simples, em que funcionava um bar e restaurante na parte de baixo na frente, com os quartos nos fundos e no segundo andar. Apesar do bar, o ambiente era relativamente tranquilo, sem muito barulho; de resto, ficaria apenas uma semana, de fato, na cidade, pois logo em seguida partiria pelo rio Xingu. Durante essa semana uma coisa me chamou muita atenção, que foi a onipresença de uma pessoa, minha principal lembrança de toda essa aventura, nessa pensão: um senhor, aparentando seus 80 anos, que estava lá logo quando o estabelecimento abria para beber um pouco e saia só quando fechava. Não falava com ninguém, ninguém se aproximava, nem criava qualquer confusão durante a semana inteira.
Após terminar o que havia ido fazer, retornei a Altamira e ainda o vi. Perguntei ao dono da pensão, um senhor aparentando seus 50 anos, quem era aquele homem que estava lá presente sempre. A resposta foi curta e simples: um homem triste e trágico, que faz o mesmo sempre desde que abri a pensão, se quiser saber a história dele vá e pergunte para ele. Foi o que fiz.
Por um tempo relutei se contaria essa história em primeira ou terceira pessoa, não sendo eu um literato nem capaz de memorizar plenamente todo o grosso da narrativa. Optei em escrever em primeira pessoa, pelo caráter sentimental e trágico dessa história, porém já alertando aos leitores que nem está embelezada pelo estilo nem é a transcrição fiel do que ouvi do homem, o que me seria completamente impossível hoje, exceto se o tivesse em minha frente para ditar-me as palavras. Também por questões éticas vou manter seu nome em sigilo, chamando-o apenas pela letra J.
Quando me aproximei dele, não fui recebido com rispidez como sua aparência e a resposta do dono da pensão me fizeram supor. Ele foi tranquilo e educado.
 – De onde vens, rapaz? – perguntou.
 – De Marabá. – respondi.
– Hum. O que vieste fazer aqui? Estudar na universidade, tentar ganhar dinheiro?
– Vim prestar um serviço, para a usina que vão construir.
E essa foi praticamente toda a nossa conversa. Ele soltou um “hum, que bom” e voltou a beber como se eu nunca tivesse falado com ele. Tentei perguntar o porquê de ele estar sempre lá, todos os dias, o dia inteiro. Por um tempo achei que ele não iria me responder, e quando eu estava próximo de ir embora o velho terminou o copo e perguntou se não queria ouvir sua história. Acenei com a cabeça e o homem narrou-me a história que segue:


A HISTÓRIA DO VELHO MAIS OU MENOS COMO ME FOI NARRADA
Meu nome é J. e nasci em fevereiro de 1949 em São Luís. Embora seja natural do Maranhão, vim para o Pará muito pequeno, de modo que nada lembro de nada que se refira a minha cidade natal. Meu pai também não gostava de falar do passado; o pouco que soube é que fora um homem de algumas posses em São Luís: uma boa casa e um comércio, mas por problemas com a família vendeu tudo e partiu para Belém com os quatro filhos e a irmã mais nova. Meus irmãos eram três, o mais velho seguido de duas mulheres, e eu era o filho mais novo.
Passamos poucos anos em Belém, dois ou três, quando, em 1955 meu pai novamente vendeu tudo o que conquistara e comprou algumas terras aqui em Altamira, porém extremamente longe do centro urbano. Lembro muito vagamente desse primeiro momento da infância, em que vivíamos despreocupados, correndo pelos campos enquanto meu pai vivia a trabalhar, arar e cuidar dos poucos animais que possuía. E trabalhava muito, e sabia melhor do que ninguém produzir riquezas a partir do seu esforço e sua inteligência rústica. Rapidamente víamos, em meio às brincadeiras e correrias, subitamente nosso mundo se expandir, a fazenda ficar cada vez maior, cada vez com mais animais e mais pessoas trabalhando ao nosso redor e nossa vida ficando cada vez mais confortável.
Ninguém da minha família nunca foi muito interessada em política. Não é como hoje, que todos falam de tudo, mas nem se importam com as implicações da política em suas próprias vidas e muito menos têm a empatia de se importar com as implicações práticas na vida do outro. Para nós era isso o que importava, e por isso a ausência de qualquer preocupação com os rumos políticos do Brasil. Antigamente, e principalmente no esquecimento em que sempre vivemos, nada que acontecia para o sul nos importava, simplesmente porque nada nos afetava. Os políticos nos ignoravam, e nós ignorávamos os políticos, e tentávamos viver sem nem nos dar conta de que eles existiam e de que nos deviam auxílio. Tudo isso mudou em 1964, quando meu pai soube da eleição (na medida em que a instauração de um presidente após um golpe contra outro pode ser chamada de eleição) de Castelo Branco.
Acredito que Castelo Branco foi o primeiro nome político que eu e meus irmãos ouvimos em casa desde sempre. Nosso pai ao saber que o militar era o novo presidente ficou eufórico de felicidade. Lembro muito bem de seu rosto quando comentava que “finalmente as coisas mudariam”, e que “o Brasil estava livre da ameaça comunista”. Não sabia de onde vinha tanto ânimo por causa de uma notícia como essa, não imaginava como um único homem tão distante poderia mudar a vida de todos no outro lado do mundo (do mundo-Brasil), e nem tinha a mínima ideia do que seria uma “ameaça comunista”, de modo que imediatamente dei pouca importância para o acontecimento e para o nome. Meu pai, no entanto, estava seguro de que as coisas mudariam.
E mudaram.
No ano seguinte meu pai conseguiu um grande montante de dinheiro, e aplicou imediatamente em suas terras, crescendo como nunca: ampliou a fazenda em uma proporção, para mim, na época, gigantesca e nos vimos subitamente cercados de inúmeros empregados.
Meu pai não era um homem ruim. Tratávamos bem todos os que trabalhavam em nossas terras. Todos moravam nos terrenos do pai, em instalações descentes. Não eram humilhados, eram bem alimentados e meu pai permitia que as crianças vivessem por lá. As crianças estudavam o básico também, com professores vindos de fora, como nós, pois vivíamos longe de qualquer possibilidade de uma escola regular. Muitas crianças e jovens decidiam trabalhar com o pai logo que tivessem condições para o trabalho, para ajudar seus próprios pais e deixar o meu ainda mais próspero. Na época isso era tudo o que conseguia apreender daquela realidade que começava a ver surgir diante dos meus olhos, e não me dava conta de que, apesar do tratamento humano que todos dávamos aos empregados havia um grande abismo que nos separava desses outros seres humanos. Havia uma discrepância agressiva no nosso nível para o deles, nas nossas posses para a deles, e nos nossos deveres para com os deles. Os empregados iam para a fazenda escapar da pobreza e da fome, e talvez prosperar, porém iam ao trabalho e, apesar de não passarem fome, receberem um abrigo (que não era próprio, mas nosso), serem vestidos e bem tratados, eram indiretamente reféns de tudo aquilo. O que recebiam não dava para pagar seu alimento, suas roupas, as ferramentas de trabalho e a moradia que lhes eram emprestadas, de modo que viviam em dívida branca com meu pai. Eram livres para partir, mas aonde iriam? Para a fome, a miséria, o relento? O regime de meu pai é hoje chamado de trabalho escravo, mas na época era simplesmente o trabalho. Num mundo completamente feudal como o do interior de Altamira da década de 60 não havia espaço para a noção de dignidade do trabalho ou escravidão, apenas a do trabalho. E com tudo isso, e com as poucas opções de escolha desses pobres homens, meu pai era uma das melhores, pois havia nele um pingo de dignidade que faltava a muitos dos seus (os que não eram os pobres). Meu pai não era um homem ruim.
Em meio a esse crescimento, meu pai pensou e planejou o futuro dos filhos. Seu primogênito, meu irmão, aprenderia com ele a cuidar da fazenda, e eu iria para o sul estudar, pois ele queria também um filho advogado. Com o tempo arrumaria maridos para as minhas irmãs, pois elas não deveriam nem cuidar da fazenda, nem estudar com outros rapazes, de modo que lhes restava a administração de um lar. Minha tia já não morava mais conosco desde que chegamos a Altamira, pois casara em Belém com um chefe de embarcação.
Estudei durante vários anos com ótimos professores, vindos de Belém, e alguns de meus amigos da fazenda, os filhos dos trabalhadores, me faziam companhia nos estudos, embora via-os gradativamente entrando no trabalho rural, enquanto meu destino seria estudar em São Paulo, para onde fui em 1973.
A vida na cidade grande foi uma grande revolução na minha vida e na minha cabeça. Tudo que havia visto, vivido e pensado até então tornava-se insustentável naquele mundo, que era de uma complexidade aterradora em “crise” e “milagres”. A presença dos militares era marcante na cidade, mas era ainda maior dentro das universidades, que talvez eram maior ameaça.
Nos meus primeiros meses na universidade sofri uma grande conversão. Se para meu pai e para nossa vida na fazenda o presidente da República (seria república?) era um anjo da guarda intercedendo por nós, lá virara o anticristo. A “ameaça comunista” tornara-se simplesmente esperança. Não vale a pena explicar detalhadamente os motivos da minha conversão, basta apenas dizer que foi o reflexo da minha experiência naquele lugar. Para nós, era a única alternativa para termos um mundo justo (diferente do mundo da fazenda, da cidade na época e mesmo o mundo de hoje), e nós e todos os outros teríamos de pagar o preço que fosse pela justiça.
Porém as coisas não eram simples. Não éramos organizados, ao contrário de nosso inimigo. Uns dentre nós preferiam a guerrilha para combater os militares e a propriedade privada, outros a construção de um exército efetivo para revirar o país em um caos construtivo, e outros (entre os quais me incluía) a conscientização do povo, que veria como nosso ideal era o único reto e justo, e faria o governo cair, embora a maior parte de nós apenas discutia entre si sem qualquer tipo de ação efetiva. Por outro lado, o exército era um exército coeso e possuía instruções muito claras e efetivas contra qualquer um de nossos planos. Muitos morreram, desapareceram, foram presos, deportados e nossa eficiência era reduzida a pequenos focos sem forças. Por outro lado, o presidente Médici, apesar de brutal, era muito popular entre as pessoas que mais precisavam de nós, e que nos odiavam ou nos viam com desconfiança. Éramos mártires, desejando apenas o melhor para os outros seres à custa de nossa própria segurança, e éramos perseguidos e desprezados. Apenas queríamos o melhor para todos, e hoje em dia penso que muitos governos totalitários e brutais pensavam exatamente como nós; talvez mesmo os militares.
Ficávamos cada vez mais fracos. Até o fim do ano os militares acabaram com praticamente todas as guerrilhas urbanas e rurais, abalando profundamente o movimento como um todo. Para nós era uma era de terror e medo, e para boa parte da população que compartilhava nossos temores éramos a causa.
A instabilidade e medo agravaram-se em mim em um nível impossível de suportar quando alguns dos meus amigos de universidade foram capturados no início de 1974. Sabíamos o que lhes aconteceria, e sabíamos todos que os militares capturariam todos nós. Não tive escolha. Com medo, fugi.
Fiquei um mês inteiro no Rio de Janeiro (durante o período em que Ernesto Geisel assumira a presidência), e de lá parti para Belém. Durante toda a viagem fui acompanhado pelo medo. Todos os dias sonhava que os militares me alcançavam, capturando-me gritando ódio. “Porco comunista! Vamos lhe ensinar uma lição que nunca mais vais esquecer!”. Sonhava com as torturas longas, o terror psicológico. E o pior de tudo, sonhava em sobreviver a tudo isso, e acordava, e sonhava novamente.
Chegando em Belém fui para a casa da minha tia, mas não imaginava o que me aguardava. Ao me ver minha tia atirou-se em mim chorando, e congelou em seguida. 
– O que aconteceu, minha tia? – perguntei.
– Ah, meu filho, não sabes o que eles fizeram?
– Quem? Os militares?
– Não, os bandidos.
– Que bandidos?
– Ah, meu filho. Teu pai e teus irmãos estão mortos. Mataram eles.
Para mim isso fora um tremendo choque. Meu pai sempre foi um homem forte, saudável. Para mim ele viveria para sempre. Também não era um homem despreparado. Para sobreviver no ambiente onde fizera dinheiro sempre investia muito em segurança própria para si e para os filhos. Não era possível sobreviver em Altamira, onde conflitos agrários e assassinatos por tais razões eram (e ainda são) comuns, e meu pai sabia muito bem tudo o que precisava para sobreviver: armas e homens para operá-las.
Apenas depois do choque pude conversar melhor com minha tia sobre o ocorrido. Mataram todos. Minhas irmãs mortas, meu irmão. Meu pai, empregados. A plantação queimada, animais mortos.
******
Os dois últimos parágrafos foram os mais difíceis. O narrador, nesse ponto já chorava, mal articulava os sons. Após a narrativa que me apresentou disse que eu já poderia ir embora, que a história já havia acabado e que não tinha mais nada a falar. Nesse dia J. saiu mais cedo da pensão.
Peço desculpa aos leitores pelas minhas eventuais infidelidades para com um narrador que, para mim, foi impressionante. Algumas alterações são obvias, pelo apelo visual (as hesitações e repetições removidas, por exemplo, bem como a escrita dos anos integralmente ao invés do “sessenta e quatro” dito pelo narrador), mas outras menos óbvias. Espero que quem me leia possa aproveitar dessa narrativa, como uma experiência vivida e uma reflexão emotiva sobre a mesma. A veracidade do que foi registrado não pode ser comprovada, pois baseia-se na pura autoridade de J., que é apenas mais um homem bêbado, amargurado e sem importância no mundo, mas o leitor não pode me culpar de desonestidade: tentei sempre, quando não fui traído pela memória, registrar tudo aquilo que me foi dito, se não no estilo, o que me é impossível depois de tanto tempo, ao menos no conteúdo narrativo.

SAMARA



SAMARA

***

Gostava do fígado mais que tudo. Não que os outros órgãos, as outras partes do corpo, fossem ruins. Gostava de chupar as grossas veias do coração, sim, mordicar o tecido esponjoso dos pulmões; mas o fígado, ah! o fígado... Tinha um sabor especial. Talvez fosse a consistência quase pastosa, a cor, talvez. O certo é que saboreava cada pedaço. Era como se por meio daquele órgão pudesse sentir todos os sentimentos do seu dono, todas as suas mais íntimas preocupações, seus segredos, seus medos, ah! como saboreava o medo. Por isso o fígado era sempre a última parte, um doce especial mantido longe dos olhos ávidos das crianças enxeridas, ou dos vermes da terra. Se pudesse o deixaria intacto. Mas sabia que assim ele acabaria estragando... Tinha medo disso. Medo de perder a melhor parte. Então o comia. Saboreava, melhor dizendo, imersa num estágio catatônico de puro êxtase.
Às vezes até gozava.

***

Espia o homem amarrado à cama. A boca dele vedada com supercola. Os olhos, arregalados, são a mais nítida expressão do terror. Ele respira acelerado, o peito subindo-descendo-subindo-descendo convulsivamente. Está vivo, pelo menos. Isso quase soa confortável. Soaria, se a situação envolvesse lutar pela vida, quando agarra-se a qualquer resquício de esperança. Mas não agora. Não quando se sabe que a morte é a certeza. Ele sabe que vai morrer. Mas não ainda, pelo menos. Esperança? Não. Ele sabe que não morrerá antes que ela devore parte do seu corpo. A primeira parte foi o pênis, cortado assim que ele ejaculou pela terceira vez. Ela lambia o sangue e o esperma enquanto ele se contorcia no chão de dor... Até que apagou. Quando acordou estava amarrado àquela cama, a boca completamente vedada. Ao pensar nisso, ele se contorce na tentativa inútil de escapar. Não vai escapar. Sabe disso. Sabe porque já fez as mesmas tentativas milhares de vezes antes. Sabe porque aquele cheiro forte de desinfetante quer, inutilmente, esconder o cheiro putrefato de decomposição que entranha pelas narinas. Sim, são cadáveres. Sabe disso. Sabe porque os ganchos na parede do outro lado estão sujos de sangue negro ressequido. E não eram peças de boi que estavam penduradas ali, tinha certeza. Quase podia imaginar-se ali, ainda vivo, agonizando, um enorme gancho o suspendendo pela clavícula...
Ela aproximou-se.

***

O pai dizia que ela era doente, porque, quando menina, gostava de caçar passarinhos no quintal pra depois despedaça-los nos dentes e come-los crus, o sangue escorrendo pelos cantos da boca... Não lembra exatamente a sensação de ter aquelas frágeis criaturas se debatendo inutilmente na suas mãos sujas. Mas recorda do líquido quente que jorrava das suas entranhas. Não entendia como uma coisa, assim, tão boa, poderia ser algo ruim, ou porque ela seria doente por isso... Até que um dia, já quase adolescente, enquanto o pai mais uma vez saia do banheiro fechando o zíper da calça e a deixando encolhida num canto, tremendo e dolorida, deu-se conta de que era realmente doente. Doente pelo fato de maltratar animais indefesos, que nunca lhes fizeram mal... Mas foi também nesse dia que se curou. Foi nesse dia que experimentou pela primeira vez a carne humana. E não gostou. A carne do pai era dura, ressequida; o fígado, então, era a pior parte; exalava um forte fedor de álcool, muito provavelmente o órgão perdera há muito a capacidade de desintoxicação. Talvez por isso mesmo nutria esse gosto estranho pelo órgão...

***

Ele estremeceu.
Onde aquele mostro estava escondido? Não notara. Por Deus sequer imaginava uma coisa dessas.
Como?
Ela trazia uma pequena faca. Um sorriso estranho nos lábios fechados. Os cabelos não estavam mais transados. Havia sangue ao redor da boca dela.
— E aí, benzinho? — disse.
Ele se remexeu.
Oi, coração! — ela respondeu por ele, tentando imitar uma voz masculina, mas a voz estridente dela dava um teor bizarro.
— Tá tudo bem, amor?
Tá sim! — e riu. Gargalhou.
Era louca, ele tinha certeza. Assim como tinha certeza que não poderiam ouvi-la. Ninguém poderia ouvi-la. Não ouvira outro som que não fosse a voz estridente dela! Era provável que estivessem no porão da casa, ou num quarto-cozinha-sala do terror, ou sabe-se lá onde. O certo é que o mundo parecia não existir mais...
— Sabe o que nós vamos fazer hoje, amorzinho?
[a quantos dias estava ali? nem lembrava mais...]
Não, meu amor
— Brincar! Você quer brincar comigo?
Ela riu.
Ele riu pela boca dela:
Quero!
Aproximou-se do rosto dele. Ele respirava acelerado. Pela primeira vez pôde olhar novamente no fundo dos olhos dela, completamente negros. Não dissera que a escuridão daqueles olhos tinham um mistério a ser explorado? Por um momento ele viu o negro da íris se expandindo pela parte branca dos olhos, como raízes crescendo em selvageria... As raízes romperam os olhos e se derramaram pela face dela... Até que os olhos dele se arregalaram. Piscou. Ela sorria, um sorriso sangrento, os olhos negros, a mão empurrando a faca pelo flanco esquerdo dele, lentamente...
— Você gostou de me foder, amor?
Ah, amor, gostei sim, você é uma vadiazinha
— Não me chame de vadia! — e a faca entrou mais fundo. Ele se contorceu. Ela sorriu. — Tá melhor assim?
Tá sim...
E a escuridão veio. A dor foi embora.

***

            Lembrava vagamente do som de um piano (ou talvez fosse um toca-discos).
Não, não tinham piano, nem toca-discos, nada. Ouvia do quintal. A vizinha que morava ali, uma professora há muito aposentada, tocava (ou ouvia).
E ela ouvia, atentamente, as melodias, cada nota...
É a melhor lembrança que tem daquela época. O som... As tardes... O cheiro de café. Naquela época ainda tomavam café às tardes. A mãe ainda não havia partido com o irmão menor.

***

Ele acorda, mas os olhos estão por demais pesados para abri-los. Permanece assim. A respiração lenta, doida. No silêncio uma torneira pinga. O pingar é lento, como se cada gota lutasse para se manter presa à torneira. O som é pesado, o líquido parece grosso. E está em algum lugar ao longe
pinga ploc-ploc-plo...oc
tão perto, está tão perto... Ele pode sentir. Sim, sentir, não apenas ouvir. Ele sente os pingos, sente a torneira.
Abre os olhos.
No chão uma poça de sangue vai aumentando a cada gota de sangue que se esvai. Uma tira de carne desaparecera dali.
Chora. Mas não vai adiantar, sabe disso.  
Para de chorar. Apura os ouvidos. Conhece aquele som, as melodias. Chopin?
Ela abre a porta. O celular na mão toca a sinfonia. Ele arregala os olhos, antecipa o pior. É o pior, sabe disso; o olhar vago dela diz que é o fim. Ele fecha os olhos. Só deseja que seja rápido. Mas o pensamento que vai ser devorado o aflige...
O som é interrompido bruscamente. Ele levanta a cabeça. Ela colocou fones de ouvido. Feito uma boneca sem expressão sai pela cômodo como se estivesse valsando, os braços abertos abraçam um ser imaginário. O demônio, ele pensa. Ela não ouve ele se debatendo. Não ouve nada. Vai até a parede oposta. Confere se um dos ganchos está bem seguro, chega a se pendurar num deles. Não cede. Está firme. Aguenta. Para por um momento como se avaliasse as opções. Vai até a mesa e pega uma grande faca de açougueiro — o cabo, antes branco, agora é rubro e negro, onde o sangue há muito coagulou. Vira-se para ele. Sorri.

***
[Dois meses depois.]

O homem checa o relógio. 20h:40min.  Passa as mãos nos olhos. Afrouxa a gravata. Precisa de ar. Precisa de um cigarro, de uma cerveja gelada. Precisa foder. Batem à porta:
— Doutor — a secretária mete a cara pela abertura — a reunião amanhã com o presidente do sindicato vai ser às nove, mas não poderei vir, tenho uma consulta, algum problema?
Ele avalia a secretária. Pondera dizer a ela que não haveria problema, contanto que ela o aliviasse ali mesmo, em cima da mesa, o escritório já não estava vazio mesmo? Olha pela janela.  A avenida em frente estava surpreendentemente pouco movimentada.
— Doutor?
— Ah, sim, claro; pode deixar. Obrigado, Dani, pode ir. Boa noite.
Ela se despede e vai embora.
Custava ter jogado o charme de sempre? Não funcionara das outras vezes?
Apaga as luzes e desce.
Precisava relaxar. A esposa não era uma opção. Precisava de uma coisa... diferente.
Atravessa a rua, destrava o carro, entra. Liga o veículo e abaixa o vidro. Do outro lado, na parada de ônibus, uma moça solitária espera por um coletivo. Ele pondera. Sorri. Aproxima-se.
— Boa noite, senhorita, aceita uma carona? É perigoso esperar ônibus por aqui uma hora dessas, ainda mais sozinha...
Ela tira os fones de ouvido e sorri acanhada. Avalia as opções. Levanta-se e entra no caro timidamente.
— Alberto — ele diz estendendo a mão.
— Samara... — ela responde, tímida.
— Muito prazer, Samara; o que você estava ouvindo, posso saber?
Ela sorri, dessa vez um sorriso completo:
— Chopin.



RELATOS {SAMANTHA DE SOUSA}


Se há lugares cheios de fascínio e com um vasto imaginário sobre fatos sobrenaturais, estes lugares certamente estão nas regiões mais afastadas das grandes cidades. Estou me referindo a cidades interioranas, o Brasil está cheio delas e de suas lendas e superstições. Os relatos que apresentarei a seguir são baseados nas vivências dos meus pais, histórias que eles contavam nas reuniões familiares, principalmente quando insistíamos em fica acordados até tarde ou quando faltava energia... ah, aquelas horas a luz de vela ouvindo histórias de assombrações serão inesquecíveis, até porque devo a elas inúmeros pesadelos e insônia, mas eram fantásticas! Meus pais passaram a maior parte da vida no interior do Nordeste, minha mãe no Maranhão e meu pai no Piauí, e presenciaram ou ouviram das estórias de família muitas coisas estranhas. Forçarei um pouco a memória para lembrar-me de algumas desses acontecimentos. Não divaguemos mais, pois. Há muito o que se falar por aqui!

Relato 1: A visagem no meio do caminho

Isto aconteceu com um tio meu, na verdade. Quem conta esta história é meu pai. Diz ele que isto se passou num lugarejo chamado Lagoa do Gato, quando seu tio voltava da roça a cavalo. Naquela região era comum que as casas e plantios fossem bem distanciados, o que obrigava seus moradores a cruzarem longos caminhos desertos até chegarem a seus destinos. Como era um caminho rotineiro, meu tio pouco se preocupava com os perigos da região, mas certo dia ele passou por um dos episódios mais sombrios de sua vida. Meu pai conta que este tio demorara a chegar em casa, e quando chegara estava mais branco que o leite, o homem mal conseguia se manter em pé, tampouco falar. A família ficou sem entender o que havia acontecido até ele recobrar as força e narrar sua experiência. Tal qual fazia todos os dias, ele cavalgava de noite rumo a sua casa, mas no meio do caminho surgiu uma aparição, a princípio ele não se incomodou com aquilo, parecia mais uma “toiça” de folhas e galhos despencados de uma árvore, seu cavalo, entretanto, travou no mesmo instante. Ele tentava fazer o cavalo andar, mas o animal só andava para trás e relinchava, foi então que meu tio começou a perceber que havia mesmo uma força estranha, pois o pavor também tomou conta dele. O vulto às vezes parecia se mover, e por alguns momentos pensou ter visto olhos brilhando na criatura. Depois de muito insistir com o cavalo, meu tio deu-lhe dois chutes na barriga e o bicho correu desenfreado, atravessando o caminho da visagem, o cavalo não parou de correr até chegar em casa e nem precisara ser guiado, parecia já saber exatamente par onde ir.

Relato 2: Alma pagã, alma penada

Minha mãe conta que ela mesma presenciara este fato. Quando criança, não recordo se em Zé Doca ou em Caxias, minha mãe, seus irmãos e minha avó moraram numa casinha bem isolada das demais. No caminho entre a cidade e a casa, passavam por um cemitério, minha mãe relata que todas as vezes que passavam por lá era possível ouvir o choro de uma criança. Certo dia, em companhia de uma outra moradora da região, minha mãe e minha avó passavam próximo ao tal cemitério e a mulher lhes explicou o que havia acontecido: tratava-se de uma alma penada, uma criança que morrera pagã. A mulher falou ainda que para que aquela alma tivesse descanso e parasse de atormentar o mundo dos vivos, era necessário batizá-la. Assim o fizeram. Minha avó e a mulher organizaram o material para o ritual, água benta, velas, orações e outros artifícios religiosos. Durante o ritual, o choro parecia ficar cada vez mais alto, mas fora enfraquecendo até desaparecer. Batizaram a criança. Depois disso, minha mãe conta que nunca mais ouviram o choro do bebê.

Relato 3: Papai?

Meu avô materno certamente é a figura mais misteriosa da família, tanto porque ninguém mais sabe dele desde há muito tempo (eu nem cheguei a conhecê-lo), quanto por causa das diversas histórias assombrosas que rondam sua existência. Minha mãe conta que ele era um homem muito ruim e que raramente tinham paz quando ele estava por perto, e ao mesmo tempo em que ele tinha muita sorte para juntar pequenas fortunas, a família estava sempre na miséria, pois ele perdia tudo numa velocidade assustadora. Certa vez meu avô construiu sozinho  e em pouquíssimos dias uma casa imensa, ele se isolara na construção e só apareceu quando a terminou, contudo, logo a vendeu e desapareceu novamente, abandonando a família como já era típico. Mas vamos ao primeiro relato sobre o meu avô! Este, minha mãe mesma vivenciou. Ela conta que, quando criança, vira meu avô transmutado em demônio. Ela dormia e sentiu, de repente, a sensação incômoda de que alguém olhava para ela. Quando abriu os olhos, viu seu pai apoiado no punho da rede olhando para ela, seus olhos, entretanto, não eram humanos, mais pareciam olhos de mosca-varejeira, eram gigantes e bizarros. Quando ele percebeu que ela acordara, afastara-se da rede rapidamente. Minha mãe chamou por ele, mas ele desapareceu no outro cômodo.

Relato 4: Nas mãos do Diabo

Este relato é novamente sobre meu avô, é, sem dúvida, o que mais me assustava. Minha mãe conta que meu avô era perseguido pelo Diabo e que, pelo menos em dois momentos, a criatura se manifestou para ele. Na primeira vez, foi quase um pesadelo, ele dormia na rede e acordou gritando: “Sai daqui, Satanás!” Ele deu um morro tão violento na parede que sua mão passou dias inchada. A segunda vez foi mais aterrorizante, tanto para ele, quanto para quem presenciara a situação. Ele dormia na cama e alguma coisa começou a puxá-lo, ele era arrastado para debaixo da cama e por mais que puxassem para fora, uma força parecia sugá-lo, ele dizia que era o próprio diabo o levando para o inferno. Os filhos conseguiram retirá-lo de lá, todos muito assustados. Muitos ouros acontecimentos bizarros se passaram nesta família e, entre muitas idas e vindas, meu avô desapareceu, até hoje não sabemos se ainda vive.

Relato 5: Samantha?

Esta é a última história e é a mais recente também. Aconteceu já em Paragominas, lugar onde passei minha infância, mas aconteceu já na minha juventude e foi um episódio que se repetiu duas vezes. Minha mãe conta que vira uma garota idêntica a mim, mas não era simplesmente uma sósia e, certamente, era nem era humana. A primeira vez que aconteceu foi dentro de casa, minha mãe me vira saindo do banheiro e jogando a roupa suja na máquina de lavar, chamou por mim e eu respondi, eu estava no banheiro ainda e nem havia passado perto da máquina. A segunda vez foi na rua. Ela tinha o costume de me esperar chegar da faculdade, ela ficava no portão e quando me vira descendo a rua, entrou, contudo, não era eu quem descia a rua. Eu só chegaria algumas horas depois. Era impossível ter confundido outra pessoa comigo, pois além das minhas características peculiares – eu era muito magra, tinha cabelos longos e quase brancos de tão loiros – a garota que ela vira estava vestida exatamente igual a mim, era a mesma roupa que eu usava naquele dia. Eu podia até duvidar dessa história, mas para piorar, a criatura apareceu em uma fotografia minha: eu fotografei de costas o comprimento do meu cabelo, então vermelhos, e uma fisionomia esbranquiçada apareceu no primeiro plano da foto, os contornos formavam exatamente meu rosto. A fotografia, infelizmente, desapareceu nem sei como e até hoje não sabemos como explicar aquilo!
***

São tantos os mistérios que rondam minha família, que pode até assustar pertencer a ela! Hoje eu não tenho mais medo deles, conto-os com certo ar de divertimento. E digo mais, não sigo religião alguma, nem sustento fé em divindades, mas que há muitos mistérios entre o céu e a Terra, disso eu não duvido!

ZONA MORTA I {SAMANTHA DE SOUSA}


Acordaram numa casa estranha. Olharam-se, não se conheciam nem se reconheciam. Tentaram falar, mas não havia voz. Estavam mudos. A casa cheirava a mofo. Era velha, escura e suja. Teias de aranha pendiam por todo o telhado e paredes. O assoalho rangia a cada movimento, parecia que nunca fora pisado antes, e os únicos passos naquele carpete de poeira eram os seus, nem ao menos havia sinal de como entraram lá, os únicos passos eram aqueles onde estavam. As frestas entre as tábuas das paredes deixavam entrever: escurecia. O lá fora era morno e alaranjado. Tentaram abrir a porta, mas não havia porta, nem janela. Era uma grande caixa de madeira. Os olhos olhavam desesperados. Como? Perguntavam. Precisavam acordar, pois nada daquilo poderia acontecer na vida real. Um deles se jogou contra a parede, talvez conseguisse derrubar uma das tábuas, mas eram tão sólidas quanto concreto. O outro procurava alguma saída secreta em vão, conseguia apenas emaranhar-se nas teias de aranha. Aranhas andavam por seu corpo, ele as esmagava, mas elas não morriam, corriam e desapareciam entre o chão e a parede. Um grito fazia doer a garganta, mas não saía. Sentia-se sufocar, como se o ar lhes fugisse dos pulmões. Caiu de joelhos, rogava mudo a um deus que lhe libertasse do pesadelo, o primeiro soldado a abandonar a guerra. O que sobrevivia de pé descobria móveis velhos entre a poeira, era-lhe tão familiar. No álbum perdido na gaveta: pai, mãe, irmã e ele, que também era o outro. Via-o morto, sufocado em seu próprio silêncio. As mãos perdem o significado, solta o álbum e as fotografias se espelham pelo chão. Também morreria, e logo. Escureceu e as paredes pareciam se estreitar. Queria desistir, mas não sabia como, não tinha um deus, não saberia se ajoelhar. Olha ao redor, tudo é sombra e vulto, as fotografias se apagaram, o corpo apodreceu, seus passos desapareceram. Pelas frestas da parede podia ver: lá fora, um menino catava estrelas numa poça d'água.

A CRIATURA {GIROTTO BRITO}



“Ânsia das horas místicas e aflitas,
De horas amargas das intermináveis
Cogitações e agruras insondáveis
De febres tredas, trágicas, malditas.”
Trecho do poema “Ocasos”, de Cruz e Souza.


Naquela época, vivia dias tristes e solitários. Morava num cubículo numa dessas vielas da cidade velha, no segundo piso de um casarão antigo perto da Praça da Sé. Era um cômodo apenas, muito abafado, de paredes mofadas e teto baixo. Além da cama e uma carcomida escrivaninha abarrotada de livros, a porta de entrada e uma janela, nada mais. Lá morei por treze meses, os mais difíceis e atormentadores meses de minha vida.
Na segunda semana após minha chegada, adoeci. A princípio um leve resfriado, febre, coriza e muita dor de cabeça. Depois vieram a tosse seca, a falta de ar, o cansaço e uma súbita falta de apetite que me fazia definhar um tanto a cada dia. Tuberculose, foi o que me disseram.
O temor da enfermidade me levou a um estado depressivo, talvez crônico. Isolei-me naquele quarto de subúrbio por meses, bebendo água da torneira e comendo — quando raramente vinha a fome — enlatados de carne e feijão que havia estocado. Do corpo se apossara uma fraqueza infinita e eu dormia, dormia muito, dormia o dia inteiro. Era nas madrugadas que um pouco de disposição me invadia a alma e trazia resquício de ânimo para me levantar. Nos livros já nem mais tocava. Quando acordado eu apenas sentava na beirada da cama, de frente para a janela, e ficava observando os movimentos noturnos nos becos, até onde a vista alcançava. Era o que eu fazia nas madrugadas, sentava, tossia, escarrava e observa os bêbados, cachorros, bandidos e prostitutas.
Certa noite, vi um gato caminhando pelos telhados dos velhos casarões. Um gato branco, de cauda grande e volumosa como um espanador. Foi pulando de uma casa à outra até chegar bem próximo da minha janela. Era um maravilhoso felino, de olhos claros e brilhantes, e uma pelagem de tamanha brancura que parecia iluminar a noite mais que a própria lua cheia. Por um instante ele ficou ali, parado, me observando, e eu a ele. Havia algo de especial naqueles olhos, algo de anormal. Eram terrivelmente penetrantes, mas causavam uma sensação bastante agradável. Coloquei um pouco de carne enlatada no batente da janela e esperei que ele viesse, mas não veio. Depois de ameaçar algumas vezes uma aproximação, o felino saltou para outros telhados e foi embora.
Depois dessa noite, passei a ter sonhos cada vez mais estranhos e sombrios. Pesadelos que me fazia acordar banhado em suor e num estado alucinado que ainda hoje não sei ao certo se tinha alguma relação com a visita inesperada daquele felino de olhos enigmáticos ou se foi apenas efeito das febres tão comuns da doença.
Semanas se passaram e a doença me deixara ainda mais fraco, tísico e taciturno. Alimentava-me muito pouco e, mesmo quando acordado, já não sentia mais vontade de levantar. Sentia que a morte estava próxima e um terror anômalo me provocava terríveis pesadelos e suores noturnos. A cama, os lençóis, minhas roupas, ..., tudo fedia. Eu definhava como um indigente num quartinho esquecido do mundo que eu ignorava. Ninguém, absolutamente ninguém em todas aquelas semanas, bateu em minha porta para saber como eu estava. Eu não estava bem. Talvez já estivesse morto e não tenha sido capaz de perceber.
Não, eu não estava morto. Estava ainda bem vivo. Vivo o suficiente para presenciar a cena mais horrenda e tenebrosa de minha vida medíocre.
Numa daquelas noites, acordei acometido por um súbito ataque de tosse e falta de ar. Tonteei, senti vontade de vomitar e ainda com a visão embaçada pude ver claramente o magnífico felino sentado no batente da janela. Ele me olhava e não desviava o olhar. Apoiei-me na cabeceira da cama e fechei os olhos por alguns segundos. Abri-os. Ele ainda estava lá, com seus olhos fixos e penetrantes, como se quisesse agora minha aproximação.
Peguei o copo com água de cima da escrivaninha e dei alguns goles. A tonteira diminuiu e busquei forças do âmago tuberculoso para um arraste até a extremidade oposta da cama, onde ficava a janela. Meus músculos relutavam em obedecer meus comandos, tamanha fraqueza. Mas eu cheguei. Sentei na beirada da cama e olhei de bem perto a beleza esplendorosa daquele animal. Para outras pessoas, talvez, poderia ser apenas um gato qualquer, mas não para mim que vivia há meses trancado naquele muquifo. Ele era vida. Era beleza. Era arte. Era, talvez, presságio.
Admirei-o por pouco tempo até perceber o que o felino tentava me dizer. Ele não estava ali por acaso e, creio eu, não era um animal qualquer. Seria um espírito mensageiro, um emissário a anunciar, por onde suas patas tocassem, que algo terrível estava por vir. E veio.
Quando meus olhos se desviaram daquela brancura majestosa, vi, lá em baixo, no beco mal iluminado, uma estranha e amedrontadora criatura. Vagava pela rua, dardejante, sob a luz pálida da lua minguante. Não era homem, não era bicho, não era nada! Nada que se parecesse com qualquer coisa que eu já havia visto. Sobre si, uma longa e esfarrapada túnica cobria malmente seu corpo forte e horrivelmente deformado, arrastando no chão a cada passo. De repente um frio inexplicável foi adentrando o quarto e o felino, aos saltos, desapareceu na noite.
A coisa se arrastava na calçada, silenciosamente, em direção à esquina. Da outra rua, pude ver, vinha pelo menos uma dúzia de homens, alguns bêbados, de encontro à criatura. Meu corpo estremeceu ao imaginar o encontro deles com aquilo em alguns segundos. Pensei em gritar para avisá-los, mas não tinha forças para isso. Aproximei-me da janela. Meus dentes roçavam uns nos outros nervosamente e, como jamais imaginei que pudesse existir tamanha monstruosidade, presenciei aquilo acontecer.
Quando viram a criatura na calçada, todos corajosamente se armaram para capturá-la. Avançaram com paus, pedras, punhos e facas, mas não valeram de nada. A coisa arrancou-lhes os corações com uma guinada e num segundo estavam os homens caídos ao chão com os peitos abertos. Para onde foi tal criatura não sei ao certo, sumiu na penumbra dos becos desertos. Sob o céu noturno enluarado, a rua tornou-se rubra: ensanguentada. Fiquei atônito, pasmo, abismado, aterrorizado. Quando amanheceu o dia, caí num sono profundo — quase mortal—, com pesadelos esparsos que se mesclavam à cena do horror noturno.
Nas noites que se seguiram, permaneci acordado, sob forte insônia, mas não me aproximei novamente daquela janela. E toda vez que me deitava em noites enluaradas, no batente da janela o gato branco me esperava, com seus olhos galácticos que me lembravam do palpitar dos corações pela calçada, e de repente uma brisa gélida tomava conta do ar anunciando a presença daquela criatura indesejada.