ESTÁ ESCURO {RYNALDO PAPOY}


Egídio era filho único. Nasceu no Piauí em 1960 e em 1981 mudou-se para São Paulo como tantos nordestinos, em busca de uma vida melhor.
Trabalhador. Foi ser pedreiro e em 1982 voltou à escola. Depois foi trabalhar numa fábrica. Começou como faxineiro, depois ferramenteiro.
Em 1984 terminou o primeiro grau e pôde alugar uma casa melhor, perto do trabalho. Tinha dois quartos e uma sala bem espaçosa. Um quintal bom e uma árvore bonita. Aos poucos foi mobiliando a residência. Tv, aparelho de som, sofá, mesa, geladeira e fogão para as receitas que trouxera do Nordeste. Tinha até uma bicicleta. Adorava passear no domingo. Só faltava uma mulher. Logo, logo arranjaria uma.
A vida prosseguiu. Acordava por volta das 5h30m, ia trabalhar, descansava um pouco em casa, depois umas aulinhas (estava fazendo supletivo do segundo grau), um pouco de tv e dormir para o outro dia.
E foi num sábado que fez amizade com o vizinho da esquerda. Viu um garoto e um homem empurrando uma Brasília e foi ajudar. O homem que empurrava era o vizinho de duas casas ao lado. O garoto que empurrava era o filho e o do carro era o dono da casa. No domingo já foi jogar futebol com os novos amigos. Depois foram a um botequim e entornaram umas cervejas.
Dias depois Egídio ganhou um presente. A cadela do vizinho Mauro deu filhotes e o piauiense ganhou um cachorrinho. Um vira-latinha.
Assim Egídio levava a vida.
De noite começava a se preocupar. A rotina parecia ganhar formas nas paredes de sua casa. A arquitetura de seu lar estava ficando pesada. Olhava para os ângulos no teto, analisando cada sujeirinha. Nem as voltinhas de bicicleta aos domingos adquiria novos caminhos. Num daqueles domingos parou a bicicleta no mercado perto de casa e entrou em busca de algo prático para preparar no almoço. Egídio tinha a impressão de que aquelas prateleiras cheias estavam vazias. Nenhuma novidade em produtos. Catou uma lata aqui, um pote ali, pôs na cesta. Continuou olhando nas gôndolas até que seus olhos foram parar numa bunda. Algo bom parar comer, só não poderia comprar.
Levantou os olhos, foi passando pelas curvas bonitas e quando chegou nos cabelos a moça voltou-se para Egídio e achou o homem também. Ela tentou transmitir algo pelo olhar e Egídio respondia com cara de "gostei-de-tu" mas os dois continuaram suas compras. Egídio sentiu algo enchendo de sangue dentro de seu calção e já não sabia mais o que comprar, foi para casa com aquela morena em suas cabeças.
Quem sabe ela morasse ali? Passou a freqüentar mais aquelas bandas. Só comprava naquele mercado.
Mas só a reencontrou. Duas semanas depois, num açougue. Ficou na fila olhando, tarado, para aquele corpo incrível com cara de "ai-se-te-pego". Mais uma vez ela pareceu interessada por Egídio, muito mais do que antes.
E num sábado ele fez uma grande descoberta: ela trabalhava numa loja ali na avenida. Ele sabia que ela estava sentindo a mesma coisa e foi direto a ela. Entrou na loja. Já sabia o que comprar, envelopes.
— Oi. Eu queria uns envelopes.
— Quantos?
Os olhos dela estavam fixos nos de Egídio.
— Me vê aí uns... dez.
Ela virou para pegar e deixou à apreciação de Egídio aquelas nádegas. O homem não pôde conter um forte suspiro.
— Que mais?
— Deixe eu ver...
Passeou pela loja.
— Selos! — deu uma risadinha — Como é que eu vou mandar cartas sem selos?
— Quantos?
Agora ela o pegara. Mas servia para prosseguir um papo.
— É... Quantos selos será que precisa para mandar uma carta para o Piauí?
— Acho que bastante. Você é de lá?
A paquera estava consumada. Depois que a loja fechou ele voltou e foram tomar algo numa padaria ali perto. Conheceram-se e alegrados pelas cervejas a casa de Egídio os recebeu para uma boa trepada. Egídio era o novo namorado da moça chamada Cláudia, de Imperatriz do Maranhão, e Cláudia era sua primeira namorada em São Paulo.
Agora sim ele estava feliz.
Mas chegou o outono e ele se sentiu um pouco doente. Uma gripe. Foi ao médico, tomou uma injeção e no dia seguinte estava melhor.
O bem-estar foi passageiro. À noite, voltou a febre. Pediu ajuda a uns comprimidos e dormiu. De manhã mais febre. Foi direto ao hospital. Mais uma injeção forte e repousou. Na hora do jantar sua namorada foi visitá-lo, soube de seu estado e passou a noite com ele.
Foi o pior dia. Teve delírios, sonhava acordado. Achava que sua cama estava flutuando no ar. E o ar, pesadíssimo. Era como se estivesse dentro d´água.
Chegou a manhã. Cláudia lhe preparou o café, que não conseguiu tomar direito, e foi trabalhar, prometendo voltar na hora do almoço.
Nem quis saber de médico. Toda vez que ia, piorava. Achou melhor ficar em casa. Os vizinhos souberam de seu estado e começou a chover receitas de remédios. Mas Egídio estava saturado de receitas, afinal ele tinha nascido no Nordeste, região onde tudo é na base da cultura popular. Chamou um garoto na rua e pagou-o para comprar-lhe uma dúzia de limões. A base das receitas contra gripe.
Em dois dias as injeções e os limões o reergueram. Mas estranhamente o ar de sua casa continuava pesado.
Numa noite a rua não tinha energia. Silêncio e velas. Na hora de dormir, colocou uma vela num prato grande no quarto, tomando o cuidado para não ficar nada por perto que pudesse provocar um incêndio. Deitou na cama e ficou olhando a chama tremulante e hipnótica. A dança daquele foguinho prendeu a sua atenção por algum tempo e depois ele desviou o olhar para as sombras estranhas que a vela causava no quarto. Lembrou-se das notes de sua casa em Parnaíba, iluminadas por lamparinas e o medo das coisas que nunca via mas não deixava de temer.
Antes mesmo de pegar no sono a luz voltou. Levantou e apagou a vela. Surpreendeu-se com uma leve sensação de alívio dentro do peito. Sentiu medo do escuro.
Mas tratou de controlar-se. Só crianças têm medo do escuro...
Na noite seguinte, acordou assustado com um estranho barulho. Acendeu a luz e seguiu o barulho. A porta da cozinha que dava aos fundos do quintal estava sendo arranhada. Lembrou... era seu cãozinho. Abriu a porta e viu o animalzinho acordado e irrequieto, querendo alguma coisa. Jogou um prato de comida para o cachorro e encheu o outro pote com leite. Claro que ele foi direto ao leite. Egídio não esperou para ver se o cãozinho comeria a comida e fechou a porta.
Deitou na cama. Perdera completamente o sono. Ficou parado, com os olhos fechados, como se estivesse vendo o sono chegar e tomá-lo.
Abriu os olhos e passou pelo quarto. Voltou a fechar. Sentiu que estava ficando pesado de sono. Botou o corpo para o outro lado. Sentiu a orelha gelar e cobriu um pouco mais sua cabeça.
Abriu os olhos. Ficou deitado de costas. Olhava o teto. Colocou as mãos debaixo da cabeça. Tossiu. Virou para a esquerda, cobriu-se novamente e fechou os olhos.
Levantou da cama e acendeu a luz. Pôs os chinelo, apagou a luz e foi à sala. Ligou a TV e achou um filme.
Pela terceira vez, sentado no sofá defronte à TV, olhou atrás, para a escuridão. Havia algo com o escuro de sua casa ou com ele. Achou que era com ele. Depois suas dúvidas voltaram-se para o escuro.
Amanheceu, foi trabalhar e pensou.
— Ainda devo ter um pouco de febre.
Talvez por isso ficava imaginando coisas à noite.
Durante uma semana ficou preocupado com o escuro. Dormia com a luz do corredor acesa.
— Devo estar ficando louco.
Havia algo no escuro, ele tinha certeza. Era só apagar a luz e sentia aquela sombra se materializar. Era como o fundo de um olho.
Foi à igreja. Católico.
Por uns tempos ficou místico. Acendia velas, rezava, adquiria amuletos...
Mas nada lhe tirava a idéia de que a escuridão de sua casa estava viva. Nem Cláudia, sua namorada, que era constantemente convidada a dormir com ele, convencia-o de que era uma cisma.
O escuro o vigiava. O escuro o espreitava. E uma hora iria pegá-lo.
— Sim! Uma hora ele vai me pegar!
Sábado destes recebeu a visita de seu amigo Amaro. Conversaram, riram, chegou o jantar. E Egídio dava um jeito de segurar o amigo. Mas depois ele se foi. Tristeza. Era encarar o escuro novamente.
O escuro chegou com a noite de um filme de terror. O vento às vezes uivava, as folhas das árvores caindo.
E o cachorrinho ficou agitado com a chegada do temporal. Latia e arranhava a porta do fundo. Egídio abriu, ele entrou correndo e ficou pulando. Depois ganhou uma caixa de sapato.
— Tomara que você cresça logo, Chiquito.
Rezou, deitou... e dormiu.
5h30m. O relógio tocou. Trrrrrrrrrrrimmmmmmmm...
— Eu dormi! Obrigado, meu Deus, eu dormi! Quem tem sono, dorme!
Sentou-se na cama e alcançou um chinelo. Mas quando se levantou... algo estranho tinha acontecido: onde estava seu cãozinho? Sumira também a caixa. O susto deu lugar à dúvida. Talvez o brincalhão tivesse aprontado alguma.
Abriu a porta e viu a caixa. E viu também cocô. "Porcaria!". Na direção do banheiro viu pelos no chão. A porta estava fechada.
Colocou a mão na maçaneta e se preparou para o que iria ver. Respirou fundo e girou-a: Clec.
Foi empurrando devagarzinho... E um cheiro horrível foi chegando em seu nariz.
— Que nojeira... que nojeira...
A porta totalmente aberta: Egídio se afastava com o olhar fixo no chão e a boca aberta. Vomitou.
No chão do banheiro o cachorrinho estava completamente estraçalhado, parecia ter sido mastigado e cuspido. Só sobrara inteiro (ou quase) o rabo e a cabeça, sem os olhos.
No cérebro de Egídio só um pensamento: o escuro tinha feito sua primeira vítima.
Ele faltou ao trabalho e limpou o banheiro. Jogou água no piso e foi arrumar suas coisas. Dormiu num hotel. No outro dia foi falar com o dono da casa e arrumou outra. Chamou um caminhão e enquanto esperava, desmontava seus móveis. Chegou sua namorada Cláudia.
— Eu não consigo entender porque você quer sair daqui.
— Já falei, essa casa vai acabar me matando. Tem alguma coisa, sei lá.
A casa de dia era muito diferente. O Sol entrando. Que pena que o Sol não entrava à noite.
A porta da sala foi fechando sozinha.
— É o vento.
Foi até o fim.
— Que vento?
As batidas dos corações aumentaram. Egídio foi até a porta e não conseguiu abri-la.
— Vamos sair daqui.
Correram para o fundo. A outra porta também estava fechada.
Tudo fechado. Janelas fechadas. Cláudia agarrou-se a Egídio e começou a chorar.
— Calma, pelo menos está entrando o Sol.
Não durou muito tempo. Como se a noite tivesse caído de repente às duas horas da tarde, tudo ficou na mais plena escuridão. As luzes não funcionavam.
Um grito de mulher. Vidros estilhaçados.
Egídio conseguiu pular fora da casa por uma janela lateral. Estava sem a perna esquerda. Foi pulando feito o saci, com o sangue vazando como uma cachoeira e saiu à rua diante dos olhares horrorizados do povo, caindo na calçada e implorando por socorro.
Cláudia tinha morrido como o cachorrinho de Egídio. Os legistas disseram que ela morrera como se tivesse sido atacada por uns cinco tubarões, algo assim. E a perna de Egídio arrancada também por uma espécie de mordida.
O fato chegou aos jornais e à TV. Meses depois a casa foi demolida.
Egídio voltou ao local seis meses depois e ficou parado diante do terreno já cheio de capim, apoiado nas muletas.
Quando ia saindo, uma enorme garra formada por entulho e detritos apodrecidos irrompeu do matagal, agarrou Egídio e o puxou para baixo.
Conseguiu ler a pichação que havia num muro frente a sua antiga casa: "A certeza do anoitecer nos desencoraja a caminhar durante o dia".
(1989)




* Rynaldo Papoy nasceu em 30/12/1970 em São Paulo. Publicou um livro de poemas em 1993, “Suicídio Espiritual” e uma peça de teatro em 2003, “O Deserto”. Começou a escrever aos 13 anos e já escreveu contos, romances, peças de teatro, roteiros de filmes e histórias em quadrinhos. Também faz música e vídeos independentes.


O LABORATÓRIO {GIROTTO BRITO}


Depois de alguns meses desempregado, finalmente havia conseguido emprego num laboratório de ciências em uma escola próxima de onde morava. Era uma época difícil, o país estava em crise, a economia em recessão, não se podia desperdiçar oportunidades como aquela. Sem falar que o trabalho era relativamente simples, nada mais que manter os experimentos limpos e funcionando, e atender os visitantes que porventura aparecessem por lá. Dificilmente aparecia alguém, a não ser quando algum professor agendava hora para aula prática, mas ainda assim eram poucos que o faziam. Em geral, tive um pouco mais de trabalho apenas na primeira semana, quando tive que consertar vários equipamentos danificados, limpar as bancadas, catalogar as amostras de insetos, animais e plantas e fazer um inventário geral de tudo que havia dentro daquela sala.
Era uma sala grande, de aproximadamente cento e cinquenta metros quadrados, retangular e com um pequeno depósito anexo. Ao centro haviam três bancadas principais, cada uma com duas pias, uma em cada extremidade, e oito banquetas distribuídas quatro de cada lado. Nas laterais tinham armários com livros e muitos frascos de insetos, pequenos animais, fetos e modelos moleculares, além de dois manequins desmontáveis que ilustravam os órgãos humanos e o sistema circulatório. E nos fundos havia uma grande bancada onde ficavam os experimentos didáticos de física e armários em que se guardavam as vidrarias, logo ao lado do esqueleto humano, montado e exposto atrás de uma caixa de vidro para os visitantes. Minha mesa ficava junto à porta de entrada, de costas para a parede em que estava fixada a lousa branca.
Era um bom ambiente para se trabalhar, bem sossegado, e como boa parte do tempo eu ficava ocioso, aproveitava para ler ou estudar. Trabalhei naquele lugar durante três meses sem que qualquer problema de grau maior atrapalhasse minha rotina. No entanto, acreditem, num dia como vários outros, aconteceu algo além dos limites de qualquer imaginação. Algo que mudou minha vida e a forma como a enxergo. Antes, porém, preciso dizer que não sou louco, nem sofro de qualquer distúrbio psicológico, menos ainda sou adepto de crendices populares e posso afirmar com convicção que não foi delírio de uma mente sedenta por pregar uma peça no seu próprio dono. Foi tudo real, absolutamente real e assustador.
Era sexta-feira, ao anoitecer, e já me organizava para fechar o laboratório. Organizei os relatórios, guardei os materiais que estavam sobre a mesa e apaguei as luzes, quando lembrei que havia deixado a chave de casa dentro da gaveta da escrivaninha. Deixei a porta entreaberta e fui procurar pela chave. A sala não estava totalmente escura, mas numa penumbra causada pelas luzes enfraquecidas que entravam pela porta e janelas. Vasculhava os objetos na gaveta quando ouvi um som incomum. Vinha do armário na parede lateral. Um ruído, como daqueles produzidos por pequenos ratos, mas esse era diferente, pois jurava que era possível entendê-lo.
Aproximei-me do armário de forma lenta e silenciosa, para ter certeza de que o ruído realmente vinha de lá. Não havia dúvidas. Meu corpo reagiu num calafrio trêmulo e repentino, e os pelos se arrepiaram no momento em que toquei a maçaneta da porta do armário metálico. Girei-a vagarosamente e abri. Estavam todos lá, diversos frascos de vidro com insetos, peixes, anfíbios, répteis, fungos e algumas espécies de plantas, todos rigorosamente identificados por seus nomes populares, científicos, classes, filos, reinos, ordens, famílias e gêneros. Entre eles, um frasco maior se destacava. Dentro dele, o feto de uma criança: cabeça avantajada, coluna vertebral curvada e parcialmente translúcida, pernas e braços encolhidos e perfeitos; podia-se ver, mesmo na penumbra, os detalhes das pequenas mãos e pés, os dedos, os sinais de onde haveria de nascer as unhas; um corpo intacto que, por algum motivo não explicado na etiqueta do frasco, não se mantivera vivo.
Toquei o frasco e o girei. Para o meu horror, quando a face do feto se fez visível, pude enxergar os mínimos lábios que se moviam e produziam aquele ruído tenebroso. De repente, os pequenos e esbranquiçados dedos de suas mãos se dobraram e pude entender com clareza o que dizia o ruído:

. . . estou vivo . . .
. . . estou vivo . . .
. . . estou vivo . . .

Horrorizado, lancei-me para trás, caindo sobre as banquetas junto à bancada central. Ainda no chão, vi quando a criatura abriu seus pequenos olhos e tocou as mãozinhas no vidro, repetindo assustadoramente seu pedido de socorro. Numa reação quase que instintiva, agarrei uma das banquetas e comecei a golpear, alucinado, todo o armário, quebrando os frascos e, por fim, até a banqueta. Sem forças, distanciei devagar e, ofegante, fiquei observando o resultado do meu ataque de pânico. Pelo chão haviam cacos de vidro, tampas soltas, muito álcool derramado, insetos, animais, plantas e o feto, de bruços. O ruído finalmente cessara. Peguei minhas coisas, tranquei o laboratório e fui embora.

* * *

No dia seguinte, quando me ligaram, tentei justificar o que havia ocorrido contando toda a história, mas não acreditaram na minha versão. Segundo o que me disseram, não havia nenhum feto no chão do laboratório quando foram fazer a limpeza de toda aquela bagunça.


HOMEM CABEÇA {GIROTTO BRITO}



Nihil sub sole novi
tenebrae tantum 

Os limites são barreiras aos homens de sorte, àqueles cujas vidas abençoadas nunca lhes testaram os extremos da dor física e psicológica, nem mesmo lhes colocaram frete ao verdadeiro horror humano ou desumano. Quase todas essas pessoas, que vejo nas igrejas aos domingos, nas praças, nos bares, passeando pelo comércio, nas salas de aulas ou em tantos outros lugares, quase todos eles são homens e mulheres de sorte. Vestem-se, bem ou mal, com certa distinção e vivem suas vidas sem grandes transtornos. E, mesmo que ocasionalmente uma enfermidade ou violência venha a atingi-los, tudo logo se resolve bem, em vida ou em morte. Enquanto vivos, vivem bem; quando morrem, morrem bem. Dor, sofrimento, angústia, medo, crueldade, solidão, miséria e horror são experiências vivencialmente brandas a essas pessoas, mas que por falta de reais parâmetros acabam por acreditar que vivem o pior dos infernos. Eles não sabem o que é o inferno. Eu, no entanto, não sou um homem de sorte.
Talvez eu não seja a melhor pessoa para narrar essa história, mas o que posso fazer se sou o único que a conhece verdadeiramente? Pois bem, não peço aqui que acredite no que relatarei a seguir, apenas que considere a possibilidade de que possa ser verdade.
Eu tinha vinte e três anos quando tudo começou. Cursava o último ano do bacharelado em Direito e havia me mudado da casa dos meus pais, em Castanhal, para um pequeno quarto alugado no bairro do Marco, em Belém. Tinha uma rotina estabelecida que quase sempre seguia a risca: universidade – trabalho – casa. Nessa época, comecei a namorar uma garota do quarto semestre do curso de Psicologia, Elizabeth, e quando chegava o sábado era costume irmos aos bailes na Doca para dançar. Meus pais sempre ligavam, mas nunca foram me visitar no quarto onde passei a morar. Talvez por descaso com o filho primogênito, por preguiça ou por serem demasiadamente matutos e não gostarem da agitação das grandes cidades. O fato é que quando eu estava em casa, quase sempre ficava só, a não ser quando recebia a visita de minha querida Elizabeth.
Levava uma vida regrada e tranquila, dessas de homens de sorte. Tinha uma mulher a quem amava, um emprego que gostava e o suficiente para suprir  minhas irrisórias necessidades. O transcorrer dos meses, e as atribulações do fim do curso universitário, me afastaram dos bailes dos fins de semana, da namorada e do pouco convívio social. Mergulhei semanas em estudos dirigidos, leituras de artigos e traduções, de modo que quando percebi estava às três e vinte e três da madrugada sentado no chão com pilhas de livros e papéis ao meu redor, a garganta seca e o estômago vazio. Fome! Abri a geladeira e só tinha água. Lembrei que não saía de casa há alguns dias e não havia feito compras para o mês. Vou sair agora, deve ter algum lugar aberto — pensei. Numa capital como Belém sempre há lojas que funcionam dia e noite. Vesti uma bermuda velha e razoavelmente limpa e desci para a rua.
Havia alguma coisa estranha naquela madrugada. A rua, que sempre fora bem iluminada, exibia-se erma e sombria, numa penumbra de fazer gelar os ossos. Um silêncio anormal para uma cidade com tantos carros, mesmo naquele horário. Dobrei na segunda esquina, entrando num beco ainda mais amedrontador. Juro que teria voltado para casa se a fome não fosse tão grande. O beco foi ficando cada vez mais estreito e escuro, e meus passos ecoavam solitários sob a lua encoberta por nuvens cinzentas. Percebi vultos nas vidraças das janelas, como se me observassem. Eu sabia que o fim do beco dava acesso à avenida e lá certamente encontraria o que comer, mas minhas pernas já se tornavam trêmulas e meu peito ardia com o pulsar violento do coração amedrontado. Outros vultos nas janelas.
Antes que minhas pernas vacilassem e me lançassem ao chão, duas luzes amarelas se acenderam no fim do tortuoso beco e o silêncio ameaçador deu lugar ao ronco estrondoso de um motor. Pneus cantaram, e a máquina luminosa veio em minha direção, tão rápida quando um corcel alado. Eu, desesperado, lancei-me cambaleante numa corrida em fuga. Dos dois lados apenas paredes e grades. No beco estreito a única saída era a esquina de onde eu viera. Corri alucinadamente, sem olhar para trás, quando senti uma forte pancada, e tudo se apagou.

•••

Elizabeth saía do banheiro apenas de toalha, vinha em minha direção e se lançava em mim. Eu tinha medo que seus pais voltassem. Haviam ido não sei onde, mas isso não importava. A toalha úmida escorregava pelo seu corpo molhado, seus seios tão firmes e arredondados como frondosas maçãs argentinas. Meus lábios se perdiam em suas curvas, deslizando suavemente do dorso à vulva, como esquiadores nas montanhas de gelo. Mãos que sabiam onde e quando tocar. Tocavam-me sedentas por retribuição e nossos corpos deslizavam um sobre o outro em movimentos síncronos, periódicos. Molhávamos de suor e gozo, no apogeu do prazer carnal, divino. 

•••

Conceber o horror de minhas sensações é, presumo, completamente impossível. Não há, ainda nestes tempos, palavras ou expressões que possam descrever com exatidão o que aconteceu comigo.
Permaneci imóvel, sem dizer nada. A visão foi lentamente voltando ao normal e percebi que Elizabeth não estava ali, fora tudo um sonho. Um belo e oportuno sonho. Tentei olhar ao redor, mas só enxerguei até onde meus globos oculares podiam girar. Minha cabeça estava presa, assim como minhas pernas, meus braços e todo o meu tronco. Só os olhos podiam mover-se, e o que a visão alcançava era um forro escuro de madeira polida, uma lâmpada incandescente, que irradiava uma luz amarelada e oscilante, e quatro quadros retangulares, posicionados cada um em uma parede.
Eu já não tinha nenhuma noção de tempo nem localização. Lembrei-me do carro que me atropelara, mas surpreendentemente não sentia dor alguma, apenas um sentimento agonizante de quem quer mover os músculos e não consegue. Minha respiração foi ficando cada vez mais ofegante, e pude sentir gotas de suor escorrer em minha testa.
Tudo era obscuridade. Quando nos encontramos em situações como essa a dor parte de onde menos esperamos: a imaginação. A aflição provocada pelo desconhecido gera no corpo sintomas absolutamente inesperados e, no meu caso, o primeiro sintoma foi a náusea. Num ataque súbito de pânico, comecei a vomitar os restos de comida de dias atrás — tempo que, naquele momento, não saberia contar — sobre meu próprio rosto. A massa fétida regurgitada entrou pelas minhas narinas, sufocando-me, e provocando violentas tossidas. Quando a tosse cessou, fiquei ali, imóvel, sentindo aquele enjoativo odor do vômito seco espalhado em minha face, enojando-me de mim mesmo.
Permaneci por muito tempo sozinho naquele cômodo mal iluminado. De modo que já havia urinado e defecado diversas vezes nas calças. O mau cheiro tomara conta de todo o cômodo e, quando sentia ânsia, o máximo que conseguia expelir era saliva. Já não sentia fome, apenas sede. A luz oscilante por vezes me dava sono e adormecia por tempos que não sei dizer. Aliás, tempo se tornou uma grandeza sem sentido para mim desde então.
Perdi as contas de quantas vezes rezei por uma solução. Orei para todos os Deuses que já me foram apresentados. Orações decoradas ou por mim criadas. Nada. Não veio resposta, nem solução. Nietzsche estava certo: Deus está morto! Ou não gosta de mim.
Quando acordei, certa vez, enxerguei frascos de soro pendurados num suporte acima de mim. Não apenas sono, mas também algum tipo de alimento líquido que descia por um tubo até — pelo que deduzi — meu pescoço. Acreditei, por algum tempo, que estava sendo tratado pelo atropelamento. Crença que logo ruiu. Pela primeira vez avistei alguém além de mim naquele quarto. Um homem de cabelos grisalhos e despenteados, óculos arredondado sobre um nariz grande e pontudo, rosto gordo com rugas e uma verruga no lado esquerdo do queixo. Vestia um jaleco velho e sujo, como aqueles de açougueiros, mas visivelmente mais rebuscado. Andava de um lado ao outro do cômodo, empurrando alguma coisa metálica cujo som parecia com o daqueles carrinhos de supermercado. Trouxe então uma luminária e acendeu sobre meu tórax. Tentei falar, dizer-lhe alguma coisa, mas minhas cordas vocais pareciam rompidas e não emitia som algum.
Ele ajeitou o foco da luminária e pegou algum instrumento. Senti meu corpo suar e meu coração palpitava alucinadamente. De súbito, meus olhos se arregalaram, tamanha a dor que penetrou meus nervos. O homem, como seu bisturi na mão, cortava-me o abdômen sem qualquer anestesia. Eu podia sentir o fio da lâmina abrir minha carne enquanto o sangue esguichava sobre meu peito. Cada corte era como uma estaca nos ossos, de modo que vivi a dor no seu estado mais extremo, o horror, a escuridão.

•••

Sorri como um menino e vi seu sorriso retribuir o meu. Dentes claros e alinhados, não como os meus, amarelados. Suas mãos eram suaves como um lençol de seda. Deu-me um abraço apertado, roçando seu corpo nu ao meu, mordendo minha orelha levemente e sussurrando palavras de amor ao meu ouvido. Elizabeth sabia como despertar minha libido.

•••

Vou tentar, dentro das minhas limitações de narrador, descrever o horror blasfemo e a inacreditável repulsa pelo que vi quando acordei. O cômodo estava, então, fortemente iluminado. Na boca, o sabor do sangue. No lugar dos quatro quadros havia espelhos, um em cada parede, nos quais pude enxergar a horrenda figura de mim mesmo.
Fizeram de mim uma obra de arte macabra, uma monstruosidade além do que é humanamente concebível. Arrancaram-me os membros: braços, pernas, pênis. Do meu tórax, restaram apenas os órgãos vitais: coração, fígado, pulmão, rins, intestinos. Todos conectados e pendurados em suportes metálicos ao redor de minha cabeça.
Minha imagem refletida no espelho era — e ainda é — extremamente perturbadora, uma blasfêmia colossal, inominável. Tornei-me um monstro, e só não me lancei à loucura, pois sei o quão mais monstruoso é o homem que me deixou assim, nem vivo nem morto, um ser horrendo e imóvel.
Acreditem ou não, eu conheci os extremos da dor física e psicológica. Os limites que são barreiras aos homens de sorte. Eu, no entanto, não sou um homem de sorte. Mas tive sorte por ter tido Elizabeth.

A VISITA {SAMANTHA DE SOUSA}

Henry Füssli

Não havia adormecido ainda, quando sentiu que alguma coisa se arrastava sobre a cama. Era uma coisa pesada ao ponto de estremecer o colchão. Tentou mover-se para verificar o que era aquilo, mas não conseguiu movimentar um único dedo. À medida em que a coisa se aproximava dela, seu coração batia tão forte que doía no peito. A respiração estava pesada. A voz não saía. Sentiu, então, que algo a tocava, deslizando dos cabelos até as partes íntimas. Precisava sair daquilo, seja lá o que fosse. Quanto tempo já durava? Meia hora? Toda a madrugada? Um minuto? O tempo congelou-se. Quando uma leve iluminação invadiu o quarto, sentiu-se libertar, o corpo moveu-se bruscamente e toda ela tremia. Não havia mais ninguém no quarto.

A EXECUÇÃO {MAURO LOPES LEAL}



A execução havia sido marcada para às 8 da manhã, a ocorrer no mesmo lugar de sempre: a sala da verdade. Não, esse não é o seu nome verdadeiro. Nós, guardas, a apelidamos dessa forma. É nela que os criminosos mais repulsivos e detestáveis choram, esperneiam como criança, imploram ensandecidos, fenecem. Pedem que lhes dêem uma segunda chance, que não vão mais matar, torturar, dizem que se regeneraram, que reconheceram que foram homens maus e que tudo o que precisavam era de uma nova oportunidade para provar sua inocência. Esse era sempre o mesmo discurso. Mudou apenas uma vez, no ano de 19.., na cidade de B.
            Não é um caso que gosto de relembrar, mas foi um acontecimento que marcou a todos e principalmente a mim, que tive uma participação mais ativa do que os demais.  Não sou um bom contador de história, sou apenas um guarda de penitenciaria que exerce a mesma função há mais de vinte anos. Agora estou com os cabelos parcialmente grisalhos, a visão não está como antes, mas na época do ocorrido, há dezesseis anos, eu era um rapaz vigoroso, de porte atlético, o que de certa forma salvou minha vida na ocasião. Por necessidade de preservação de identidade, omitirei alguns nomes, modificarei outros, pois havia pessoas, gente de elevada posição social envolvida e eu tenho filhos, esposa, família.
            Falei que seria uma execução logo no início da minha narrativa, mas preciso corrigir-me: na verdade era um assassinato e que deveria se cometido por nós, guardas. Mas estou avançando muito depressa. Desculpem-me, como disse antes, sou apenas um simples guarda, treinado para cumprir com as minhas obrigações.
            Creio que devo falar primeiramente do homem a ser “executado”. Seu nome era Alex S. D., mais conhecido como o Carniceiro de B., título que lhe era absolutamente justificável: gostava de assassinar mulheres. Os modos como procedia eram os mais desumanos possíveis. Retirava a pele de determinadas partes da vítima, ainda vivas, e fazia peças, como se fossem roupas. Luvas, chapéus, máscaras... o sujeito era realmente bizarro.
            O número de vítimas chegou a vinte e seis. Donas de casa, estudantes, profissionais, não havia um padrão, poderia ser qualquer uma. Escolhia-as mais na parte da noite, quando voltavam da escola, da igreja ou do trabalho. A abordagem era sempre a mesma: que rua é esta? Como faço para chegar na estação seis? Agarrava-as e conduzia-as ao seu velho fusca vermelho. Seguia para alguma velha casa abandonada, previamente preparada para o seu ritual de tortura e morte.
            Foi descoberto e preso após uma das vítimas conseguir escapar. Condenado, fixou-se sua pena em vinte e três anos, pois somente dois corpos foram encontrados na casa de Alex. Os advogados de defesa justificaram, ou tentaram, os crimes com atestados psiquiátricos. Bradaram que Alex era mais uma vítima do que algoz. Não sei, não posso me pronunciar sobre nada disso, pois desconheço os mistérios da mente humana. Tudo o que sei é que muitos assassinos confessos, quando em liberdade, praticam as maiores barbaridades possíveis, mas na condição de cativos, perpetram pinturas de paisagens, organizam coro e até aprendem a dançar tango. Não sei. Apenas acho que, em sociedade, tornam a matar novamente sem qualquer piedade.
            O caso de Alex seria o de mais um simples assassino com problemas psiquiátricos se ele não tivesse matado uma mulher em especial: a esposa do desembargador R., bastante conhecido na região. Devo observar que, independente de ser esposa ou não deste ou daquele indivíduo, para mim todas foram vítimas similares: mulheres que perderam a vida nas mãos de um louco. Mas em nossa sociedade superficial e desigual, cujos valores exaltam a posição social e o acúmulo de riqueza, assassinar uma mulher como aquela é algo que merece uma dupla condenação, algo por debaixo dos panos, secreto, muito secreto.
            Não são novas as matérias sobre detentos que aparecem mortos, enforcados em suas celas. Trata-se o caso, geralmente, como suicídio, mas sabemos que em muitos desses casos a coisa não foi bem assim. Com Alex não seria diferente.
            Em uma certa manhã, dois advogados representando o desembargador chegaram ao presídio, queriam falar com o diretor. Não os vi, mas me contaram. Nos presídios tudo é compartilhado, nada fica em segredo. Entretanto, nada sai de lá. As informações ficam confinadas aos muros da prisão. Se hoje estou escrevendo tal memória é mais por necessidade, desejo de compartilhar algo que carrego e que nunca soube assimilar de forma adequada.
            A conversa entre os três homens durou pouco, talvez menos de meia hora. De imediato não estranhamos nada de diferente, muitos advogados frequentam a prisão para assuntos particulares com os seus inúmeros clientes. Somente no dia seguinte soubemos de forma mais clara quem eram de fato aqueles dois senhores e o que queriam. O diretor da prisão chamou-me para uma conversa em sua sala. Quando cheguei, já havia mais dois guardas. Um era meu amigo, S., o outro conhecia de vista.
            Depois de uma introdução truncada, nervosa e com rodeios, o diretor disse que certos detentos de nossa unidade cometeram crimes que são considerados moralmente mortificantes, portanto, deveriam receber uma punição adicional, por assim dizer. Nós, os guardas, não falávamos nada, mas sabíamos para onde a conversa seguiria. Eu, que até então nunca havia me envolvido em tais situações, tive, obrigatoriamente, que fazer parte. Sim, a minha hora tinha que chegar também. Não se podia recusar uma coisa daquelas, apenas jurar ao mandatário que tudo seria praticado de forma rápida e sigilosa, sem possibilidades de suspeitas maiores.
            “Na quarta-feira próxima, às 8 em ponto, quero que vocês conduzam o prisioneiro Alex S. D. à sala da verdade.” Eu fiquei nervoso. Era a minha primeira execução. Meu colega já havia participado de três. O outro apenas uma.  
            Naquela noite não consegui dormir com tranquilidade costumeira. Tive pesadelos nos quais era perseguido por um homem, vestido de branco. Trazia nas mãos uma grande adaga. Eu tentava fugir, mas minhas pernas não se moviam. Eu despertava, ofegante. E quando voltava a dormir, o pesadelo também retornava, o mesmo.
              No dia seguinte, meu amigo, S., perguntou quanto nos seria oferecido. “Vão nos dar dinheiro por isso?” perguntei ingenuamente. Não fazia a menor ideia de que algum valor pecuniário era dado aos guardas que faziam parte de tal procedimento. “Claro, seu tolo. Acha que fazemos isso de graça? É preciso algum para que fiquemos calmos, tranqüilos e satisfeitos. Acho que vai ser uns quatrocentos. Querem muito o cara apagado, entende? Ah, a vingança!” Naquele dia descobri um lado sádico do meu amigo, sádico e mercenário. Mas com o tempo, com outras execuções, vi que aquilo era normal e que muitos guardas desejavam ardentemente serem escolhidos para participarem desta ou daquela execução, tudo por causa do dinheiro. “Tomara que chegue logo quarta!”
            Na terça-feira eu não me sentia nada bem. Um enjôo, uma falta de apetite me abatiam. Sabia que tais sintomas eram por causa da execução, mas não podia fazer nada. Pensei em fingir uma doença qualquer, um mal súbito, mas não acreditariam, diriam que acovardei-me, seria menosprezado pelos demais guardas, que viam aquelas mortes apenas como formas extras de renda. Ainda nesse dia, fui encarregado de vigiar o corredor no qual o prisioneiro Alex encontrava-se. Senti um leve tremor no corpo. Eu o veria antes da execução, algo que eu queria ter evitado mais do que qualquer coisa.
            Às 18 horas fui render o outro guarda, que me repassou as armas. A tarefa básica de um guarda, um bom guarda, era fazer todo o trajeto do corredor por completo. Eu me considerava um excelente guarda, mas naquele início de noite resolvi ficar parado, apenas movimentando-me de um lado para o outro não mais que quatro ou cinco passos, para a esquerda e para a direita. Mas para meu azar, um superior passou pelo lugar e estranhou minha postura. “Está bem? Sente-se bem?” perguntou-me o oficial. Respondi que sim, que tudo estava normal. Fiz continência e segui o trajeto costumeiro. A sela de Alex era a de número 230. A terceira da direita para a esquerda no corredor. Tive que passar em frente. Ele estava acordado, lendo um livro. Por uma força irresistível, olhei para ele e para meu tormento, encontrei o seu olhar em mim.
            Prossegui em meu percurso, jurando a mim mesmo de que não mais olharia para aquele homem, magro, de cabelo cortado à moda militar. Mas na quarta vez em que passei pela sua cela, ela me chamou. Um frio percorreu minha espinha dorsal. “Ei, guarda F., venha aqui, ouça-me. Não se faça de surdo. Estou sussurrando mas sei que pode me ouvir.” Por um motivo que até hoje desconheço, parei minha ronda em frente à grade da cela 230. “O que você quer, prisioneiro D.?”, perguntei, tentando dar à minha voz um tom imperativo e furioso, mas falhei drasticamente. Eu gaguejava. Alex riu e perguntou: “Será amanhã mesmo?” Outra vez fiquei estático. “Será amanhã o quê, prisioneiro S.?”, “Ah, não se faça de bobo, você sabe, a minha execução!” Fingi que não ouvi e reiniciei minha ronda. Mas sempre que passava pela cela 230, Alex que chamava, falava frase soltas. “Não se preocupe, guarda F., não tenha receio. Saiba que amanhã eu não morrerei.” Repetiu isto uma três vezes ainda durante minha ronda.
            Depois de algumas horas fui rendido pelo outro guarda. Corri para o meu dormitório e tentei dormir, mas sem sucesso. Como ele poderia saber da própria execução? Teria alguém dito a ele? Alguma coisa vazou entre os prisioneiros? Isso era impossível. Apenas os guardas e o mandatário sabiam da execução. Esta, quando ocorria, só vinha ao conhecimento dos demais guardas no dia seguinte, quando o corpo era achado na cela. Como ele poderia saber?
            Às cinco da manhã pulei da cama. Estava nervoso. A noite sem sono não significou nada para mim, pois estava elétrico, nervoso. Vesti-me com o esmero habitual. Olhei-me no espelho do banheiro: “Hoje você irá matar o seu primeiro homem!” Era uma ideia bastante delicada, um tanto desprezível, mas uma realidade inquestionável. Salvo alguma situação absurda que pudesse acontecer, nada iria defender aquele homem da morte naquele dia. No refeitório, como combinado, encontrei meu amigo e o outro guarda. Seguimos em direção ao banheiro, pois a sala da verdade ficava atrás. Lá, encontramos não apenas o diretor da penitenciária, mas também o próprio desembargador. Apertou-nos a mão e pediu um bom trabalho. “Se houver, hã, dor adicional, vocês receberão um, hã, um abono, meu senhores”, falou com voz grave. A notícia não poderia ter sido melhor para os meus colegas. “Vamos fazer aquele sujeito sangrar como um porco!”, disse S. assim que saímos para buscar o prisioneiro.
            Encontramos Alex ajoelhado, rezando. Quando nos viu, sorriu. “Vocês são homens extraordinários”, disse com voz pausada. Ao algemá-lo, percebi sangue nas pontas dos seus dedos. “Hoje é um grande dia, senhores. Hoje é a data da libertação!”. “Cale-se, seu maluco!”, bradou meu colega enquanto fechava a cela e o empurrava para frente. “Siga”. Eu, que já estava nervoso, ficava cada vez mais. Pensei que não suportaria aquela situação por mais tempo. Matar era uma coisa. Torturar e matar era outra. Teria estômago para isso? Certamente seria exigido de mim alguns golpes, ou seja, eu teria também que sujar ainda mais as minhas mãos.
            Durante o trajeto encontramos com dois guardas. Olharam-no inicialmente com surpresa, mas depois adivinharam o que ia acontecer, e sorriram. “Divirtam-se!”, disse um deles. “Esse é o princípio”, respondeu meu amigo.
            Na sala da verdade, encontramos o outro guarda em pé e os dois outros homens sentados em duas cadeiras, providenciadas pelo primeiro quando saímos. Mal entramos no local e o desembargador avançou sobre o prisioneiro, esmurrando-o na boca. “Seu idiota! Sua sandice desmesurada me custou milhares de reais, sabia? Sem falar na possibilidade de uma candidatura que seria apoiada pelo meu sogro!” Desferiu mais três golpes, todos no estômago de Alex, que gemeu e depois sorriu. “Desculpe se atrapalhei seus sonhos de grandeza, doutor!”.
            Então era isso. Não era vingança. Nada daquilo era motivado pelo amor de um marido diante da perda da esposa. A questão era apenas financeira, como o é sempre. “Comecem”, ordenou o diretor, em tom seco. Meu amigo, mais afoito, iniciou a tortura com tapas e prossegui com murros. Eu tirei a parte de cima do meu uniforme, coisa que foi seguida pelo outro guarda. Este, armando-se com um canivete, cortou a costa do prisioneiro em três partes diferentes. Um grosso sangue começou a escorrer. “Muito bem, senhores!” dizia o desembargador, que parecia cada vez mais satisfeito com o avanço e a crueldade crescente da tortura. Os gritos de Alex agradavam-no de modo surpreendente. Gritos estes que não saiam jamais da sala, estrategicamente situada em um desnível em relação ao presídio, o que impedia qualquer som de sair dali e alcançar outros cômodos. Por isso ela havia sido escolhida para tais situações.
            “Bata na cabeça, a cabeça!”, pedia o desembargador. E como um maestro da morte, indicava o local a ser flagelado. “Agora na orelha, corte um pouco da orelha. Isso mesmo, assim!” Após meia hora de agressões, Alex desmaiou. O desembargador mostrou-se desapontado. “Está morto? Já?” O diretor explicou que não, que havia apenas desmaiado. Ele mesmo apanhou um balde com água gelada e despejou sobre a cabeça de Alex, que despertou abruptamente. “Ah, oi, amigos, estou de volta. Como estão todos?” perguntou, com a boca inchada e sangrando, faltando alguns dentes da frente.
            “Agora é sua vez, F. preciso me recuperar”, disse meu amigo, apanhando uma toalha para enxugar o rosto. Antes disso, estendeu-me uma barra de ferro. “Quebre as pernas deles”, pediu o desembargador. Hesitante, apanhei o instrumento e me posicionei, trêmulo, diante de Alex, que percebeu minha angústia. “Ora, vamos, guarda F., hoje é só mais um dia de trabalho. Não se preocupe, companheiro, ficarei bem. Hoje mesmo estarei livre”. Para tentar diminuir minha angústia, tentei lembrar das mulheres mortas, da forma como elas foram atacadas e mutiladas. Pensei em cada uma delas enquanto erguia a barra de ferro e desferia dezenas de golpes nas pernas de Alex, que gemia e chorava.
            O desembargador ergueu-se com ar resoluto. “Agora chega, tenho uma reunião daqui a meia hora. Vou tentar amenizar o prejuízo que esse louco me provocou. Podem matá-lo”. Todos olharam para mim. Eu, que estava perto de Alex e portava a barra de ferro, deveria executar o prisioneiro. “Eu...”. tentei balbuciar algo. “Vamos, guarda, não tenho o dia inteiro”, rosnou o desembargador. O diretor olhou-me de forma severa. Atrás deles os dois guardas acenavam para que eu desse o último golpe.
            Respirei fundo e ergui a barra. Antes, sussurrei: “Perdoe-me, Alex”. O prisioneiro sorriu precariamente. “Eu não acredito em perdão, guarda F”. E desferi o golpe derradeiro. Sua cabeça abriu em duas partes. Fui cumprimentado pela precisão e força do golpe. O desembargador, satisfeito, puxou um maço de cédulas do bolso. “Quinhentos a mais para cada um pelo excelente serviço!” Todos, com exceção de mim, estavam exultantes.
            Depois que os dois homens saíram, limpamos, como pudemos o corpo. Foi nesse momento que percebi que no peito do morto haviam algumas inscrições, feitas com algum objeto cortante. Deduzi que o sangue na ponta dos seus dedos eram decorrentes de tais ferimentos. A cabeça foi costurada precariamente. Carregamos o cadáver para a cela 230 e, com uma corda, o enforcamos. Claro que qualquer um poderia perceber que Alex não havia se enforcado, mas um legista do presídio, previamente esclarecido sobre a questão, iria atestar suicídio por enforcamento. O corpo seria liberado em alguns dias e pronto. Geralmente os piores assassinos não possuíam família, o que facilitava bastante a incontestabilidade de nossa história. Deixamos Alex na cela e saímos. Alguma sentinela, assim que percebesse a situação daria o alerta e tudo ocorreria como planejado.
            Contudo, ao fim de meia hora, nada de excepcional ocorreu. Tudo estava tranqüilo. Eu, a quem foi concedido um dia de folga pelos meus serviços prestados, estranhava que nada de anormal houvesse ocorrido até então no presídio. Foi então que soaram o alarme. Fuga de prisioneiro. Tornei a vestir-me, dessa vez de modo grosseiro. Uma fuga de detentos era algo de extrema gravidade. Todos poderiam estar em perigo se um dos prisioneiros pudesse abrir a demais salas.
            Corri para o setor das celas. Um grupo de guardas examinava a cela 230. Imaginei que fosse aquilo, mas geralmente nesses casos não era acionado o alarme de fuga. “O que está acontecendo?” perguntei a um dos sentinelas. “O prisioneiro Alex fugiu, guarda F.!” Abrindo caminho entre os guardas, constatei, não sem extremo temor, que Alex havia desaparecido. “O corpo. Onde estará o corpo?” perguntei-me mentalmente.
            As buscas prosseguiram durante todo o dia. Nada foi encontrado. Decepção para todos. S., que encontrou comigo em um dos corredores, perguntou-me em sussurro sobre o corpo. “F., sumiste com o cadáver?” Ignorei-o e segui em direção à cela 230. Examinei cada milímetro e nada. De incomum apenas a bíblia que Alex lia todos os dias. Contudo, não era um bíblia comum. As letras eram desconhecidas e em muitas páginas, manchadas de sangue, reconheci os símbolos que foram feitos no corpo de Alex. Guardei o livro e saí da cela, completamente febril, um tanto delirante.
            Levaram-me ao ambulatório. Fui medicado. Recomendaram-me repouso e melhor alimentação. “Em resumo, vá para casa, guarda F.”, disse o médico com ar paternal. No ônibus, tentei relaxar. Queria evitar pensar nos acontecimentos do dia. Neguei a morte de Alex como minha culpa e dei-me confortavelmente a desculpa de que alguém havia sumido com o corpo, coisa rara no presídio, mas não impossível. Entretanto, para minha mais aterrorizante surpresa, em uma das paradas do ônibus vi Alex S. D. atravessando a rua. “Não pode ser, é impossível!”, gritei. Meu brado chamou a atenção de todos no coletivo, inclusive de Alex, que me viu e acenou para mim, lançando-me um olhar abissal. Ainda falou algo que não consegui compreender, pois o ônibus prosseguiu viagem como se nada tivesse acontecido.