O LABORATÓRIO {GIROTTO BRITO}


Depois de alguns meses desempregado, finalmente havia conseguido emprego num laboratório de ciências em uma escola próxima de onde morava. Era uma época difícil, o país estava em crise, a economia em recessão, não se podia desperdiçar oportunidades como aquela. Sem falar que o trabalho era relativamente simples, nada mais que manter os experimentos limpos e funcionando, e atender os visitantes que porventura aparecessem por lá. Dificilmente aparecia alguém, a não ser quando algum professor agendava hora para aula prática, mas ainda assim eram poucos que o faziam. Em geral, tive um pouco mais de trabalho apenas na primeira semana, quando tive que consertar vários equipamentos danificados, limpar as bancadas, catalogar as amostras de insetos, animais e plantas e fazer um inventário geral de tudo que havia dentro daquela sala.
Era uma sala grande, de aproximadamente cento e cinquenta metros quadrados, retangular e com um pequeno depósito anexo. Ao centro haviam três bancadas principais, cada uma com duas pias, uma em cada extremidade, e oito banquetas distribuídas quatro de cada lado. Nas laterais tinham armários com livros e muitos frascos de insetos, pequenos animais, fetos e modelos moleculares, além de dois manequins desmontáveis que ilustravam os órgãos humanos e o sistema circulatório. E nos fundos havia uma grande bancada onde ficavam os experimentos didáticos de física e armários em que se guardavam as vidrarias, logo ao lado do esqueleto humano, montado e exposto atrás de uma caixa de vidro para os visitantes. Minha mesa ficava junto à porta de entrada, de costas para a parede em que estava fixada a lousa branca.
Era um bom ambiente para se trabalhar, bem sossegado, e como boa parte do tempo eu ficava ocioso, aproveitava para ler ou estudar. Trabalhei naquele lugar durante três meses sem que qualquer problema de grau maior atrapalhasse minha rotina. No entanto, acreditem, num dia como vários outros, aconteceu algo além dos limites de qualquer imaginação. Algo que mudou minha vida e a forma como a enxergo. Antes, porém, preciso dizer que não sou louco, nem sofro de qualquer distúrbio psicológico, menos ainda sou adepto de crendices populares e posso afirmar com convicção que não foi delírio de uma mente sedenta por pregar uma peça no seu próprio dono. Foi tudo real, absolutamente real e assustador.
Era sexta-feira, ao anoitecer, e já me organizava para fechar o laboratório. Organizei os relatórios, guardei os materiais que estavam sobre a mesa e apaguei as luzes, quando lembrei que havia deixado a chave de casa dentro da gaveta da escrivaninha. Deixei a porta entreaberta e fui procurar pela chave. A sala não estava totalmente escura, mas numa penumbra causada pelas luzes enfraquecidas que entravam pela porta e janelas. Vasculhava os objetos na gaveta quando ouvi um som incomum. Vinha do armário na parede lateral. Um ruído, como daqueles produzidos por pequenos ratos, mas esse era diferente, pois jurava que era possível entendê-lo.
Aproximei-me do armário de forma lenta e silenciosa, para ter certeza de que o ruído realmente vinha de lá. Não havia dúvidas. Meu corpo reagiu num calafrio trêmulo e repentino, e os pelos se arrepiaram no momento em que toquei a maçaneta da porta do armário metálico. Girei-a vagarosamente e abri. Estavam todos lá, diversos frascos de vidro com insetos, peixes, anfíbios, répteis, fungos e algumas espécies de plantas, todos rigorosamente identificados por seus nomes populares, científicos, classes, filos, reinos, ordens, famílias e gêneros. Entre eles, um frasco maior se destacava. Dentro dele, o feto de uma criança: cabeça avantajada, coluna vertebral curvada e parcialmente translúcida, pernas e braços encolhidos e perfeitos; podia-se ver, mesmo na penumbra, os detalhes das pequenas mãos e pés, os dedos, os sinais de onde haveria de nascer as unhas; um corpo intacto que, por algum motivo não explicado na etiqueta do frasco, não se mantivera vivo.
Toquei o frasco e o girei. Para o meu horror, quando a face do feto se fez visível, pude enxergar os mínimos lábios que se moviam e produziam aquele ruído tenebroso. De repente, os pequenos e esbranquiçados dedos de suas mãos se dobraram e pude entender com clareza o que dizia o ruído:

. . . estou vivo . . .
. . . estou vivo . . .
. . . estou vivo . . .

Horrorizado, lancei-me para trás, caindo sobre as banquetas junto à bancada central. Ainda no chão, vi quando a criatura abriu seus pequenos olhos e tocou as mãozinhas no vidro, repetindo assustadoramente seu pedido de socorro. Numa reação quase que instintiva, agarrei uma das banquetas e comecei a golpear, alucinado, todo o armário, quebrando os frascos e, por fim, até a banqueta. Sem forças, distanciei devagar e, ofegante, fiquei observando o resultado do meu ataque de pânico. Pelo chão haviam cacos de vidro, tampas soltas, muito álcool derramado, insetos, animais, plantas e o feto, de bruços. O ruído finalmente cessara. Peguei minhas coisas, tranquei o laboratório e fui embora.

* * *

No dia seguinte, quando me ligaram, tentei justificar o que havia ocorrido contando toda a história, mas não acreditaram na minha versão. Segundo o que me disseram, não havia nenhum feto no chão do laboratório quando foram fazer a limpeza de toda aquela bagunça.


HOMEM CABEÇA {GIROTTO BRITO}



Nihil sub sole novi
tenebrae tantum 

Os limites são barreiras aos homens de sorte, àqueles cujas vidas abençoadas nunca lhes testaram os extremos da dor física e psicológica, nem mesmo lhes colocaram frete ao verdadeiro horror humano ou desumano. Quase todas essas pessoas, que vejo nas igrejas aos domingos, nas praças, nos bares, passeando pelo comércio, nas salas de aulas ou em tantos outros lugares, quase todos eles são homens e mulheres de sorte. Vestem-se, bem ou mal, com certa distinção e vivem suas vidas sem grandes transtornos. E, mesmo que ocasionalmente uma enfermidade ou violência venha a atingi-los, tudo logo se resolve bem, em vida ou em morte. Enquanto vivos, vivem bem; quando morrem, morrem bem. Dor, sofrimento, angústia, medo, crueldade, solidão, miséria e horror são experiências vivencialmente brandas a essas pessoas, mas que por falta de reais parâmetros acabam por acreditar que vivem o pior dos infernos. Eles não sabem o que é o inferno. Eu, no entanto, não sou um homem de sorte.
Talvez eu não seja a melhor pessoa para narrar essa história, mas o que posso fazer se sou o único que a conhece verdadeiramente? Pois bem, não peço aqui que acredite no que relatarei a seguir, apenas que considere a possibilidade de que possa ser verdade.
Eu tinha vinte e três anos quando tudo começou. Cursava o último ano do bacharelado em Direito e havia me mudado da casa dos meus pais, em Castanhal, para um pequeno quarto alugado no bairro do Marco, em Belém. Tinha uma rotina estabelecida que quase sempre seguia a risca: universidade – trabalho – casa. Nessa época, comecei a namorar uma garota do quarto semestre do curso de Psicologia, Elizabeth, e quando chegava o sábado era costume irmos aos bailes na Doca para dançar. Meus pais sempre ligavam, mas nunca foram me visitar no quarto onde passei a morar. Talvez por descaso com o filho primogênito, por preguiça ou por serem demasiadamente matutos e não gostarem da agitação das grandes cidades. O fato é que quando eu estava em casa, quase sempre ficava só, a não ser quando recebia a visita de minha querida Elizabeth.
Levava uma vida regrada e tranquila, dessas de homens de sorte. Tinha uma mulher a quem amava, um emprego que gostava e o suficiente para suprir  minhas irrisórias necessidades. O transcorrer dos meses, e as atribulações do fim do curso universitário, me afastaram dos bailes dos fins de semana, da namorada e do pouco convívio social. Mergulhei semanas em estudos dirigidos, leituras de artigos e traduções, de modo que quando percebi estava às três e vinte e três da madrugada sentado no chão com pilhas de livros e papéis ao meu redor, a garganta seca e o estômago vazio. Fome! Abri a geladeira e só tinha água. Lembrei que não saía de casa há alguns dias e não havia feito compras para o mês. Vou sair agora, deve ter algum lugar aberto — pensei. Numa capital como Belém sempre há lojas que funcionam dia e noite. Vesti uma bermuda velha e razoavelmente limpa e desci para a rua.
Havia alguma coisa estranha naquela madrugada. A rua, que sempre fora bem iluminada, exibia-se erma e sombria, numa penumbra de fazer gelar os ossos. Um silêncio anormal para uma cidade com tantos carros, mesmo naquele horário. Dobrei na segunda esquina, entrando num beco ainda mais amedrontador. Juro que teria voltado para casa se a fome não fosse tão grande. O beco foi ficando cada vez mais estreito e escuro, e meus passos ecoavam solitários sob a lua encoberta por nuvens cinzentas. Percebi vultos nas vidraças das janelas, como se me observassem. Eu sabia que o fim do beco dava acesso à avenida e lá certamente encontraria o que comer, mas minhas pernas já se tornavam trêmulas e meu peito ardia com o pulsar violento do coração amedrontado. Outros vultos nas janelas.
Antes que minhas pernas vacilassem e me lançassem ao chão, duas luzes amarelas se acenderam no fim do tortuoso beco e o silêncio ameaçador deu lugar ao ronco estrondoso de um motor. Pneus cantaram, e a máquina luminosa veio em minha direção, tão rápida quando um corcel alado. Eu, desesperado, lancei-me cambaleante numa corrida em fuga. Dos dois lados apenas paredes e grades. No beco estreito a única saída era a esquina de onde eu viera. Corri alucinadamente, sem olhar para trás, quando senti uma forte pancada, e tudo se apagou.

•••

Elizabeth saía do banheiro apenas de toalha, vinha em minha direção e se lançava em mim. Eu tinha medo que seus pais voltassem. Haviam ido não sei onde, mas isso não importava. A toalha úmida escorregava pelo seu corpo molhado, seus seios tão firmes e arredondados como frondosas maçãs argentinas. Meus lábios se perdiam em suas curvas, deslizando suavemente do dorso à vulva, como esquiadores nas montanhas de gelo. Mãos que sabiam onde e quando tocar. Tocavam-me sedentas por retribuição e nossos corpos deslizavam um sobre o outro em movimentos síncronos, periódicos. Molhávamos de suor e gozo, no apogeu do prazer carnal, divino. 

•••

Conceber o horror de minhas sensações é, presumo, completamente impossível. Não há, ainda nestes tempos, palavras ou expressões que possam descrever com exatidão o que aconteceu comigo.
Permaneci imóvel, sem dizer nada. A visão foi lentamente voltando ao normal e percebi que Elizabeth não estava ali, fora tudo um sonho. Um belo e oportuno sonho. Tentei olhar ao redor, mas só enxerguei até onde meus globos oculares podiam girar. Minha cabeça estava presa, assim como minhas pernas, meus braços e todo o meu tronco. Só os olhos podiam mover-se, e o que a visão alcançava era um forro escuro de madeira polida, uma lâmpada incandescente, que irradiava uma luz amarelada e oscilante, e quatro quadros retangulares, posicionados cada um em uma parede.
Eu já não tinha nenhuma noção de tempo nem localização. Lembrei-me do carro que me atropelara, mas surpreendentemente não sentia dor alguma, apenas um sentimento agonizante de quem quer mover os músculos e não consegue. Minha respiração foi ficando cada vez mais ofegante, e pude sentir gotas de suor escorrer em minha testa.
Tudo era obscuridade. Quando nos encontramos em situações como essa a dor parte de onde menos esperamos: a imaginação. A aflição provocada pelo desconhecido gera no corpo sintomas absolutamente inesperados e, no meu caso, o primeiro sintoma foi a náusea. Num ataque súbito de pânico, comecei a vomitar os restos de comida de dias atrás — tempo que, naquele momento, não saberia contar — sobre meu próprio rosto. A massa fétida regurgitada entrou pelas minhas narinas, sufocando-me, e provocando violentas tossidas. Quando a tosse cessou, fiquei ali, imóvel, sentindo aquele enjoativo odor do vômito seco espalhado em minha face, enojando-me de mim mesmo.
Permaneci por muito tempo sozinho naquele cômodo mal iluminado. De modo que já havia urinado e defecado diversas vezes nas calças. O mau cheiro tomara conta de todo o cômodo e, quando sentia ânsia, o máximo que conseguia expelir era saliva. Já não sentia fome, apenas sede. A luz oscilante por vezes me dava sono e adormecia por tempos que não sei dizer. Aliás, tempo se tornou uma grandeza sem sentido para mim desde então.
Perdi as contas de quantas vezes rezei por uma solução. Orei para todos os Deuses que já me foram apresentados. Orações decoradas ou por mim criadas. Nada. Não veio resposta, nem solução. Nietzsche estava certo: Deus está morto! Ou não gosta de mim.
Quando acordei, certa vez, enxerguei frascos de soro pendurados num suporte acima de mim. Não apenas sono, mas também algum tipo de alimento líquido que descia por um tubo até — pelo que deduzi — meu pescoço. Acreditei, por algum tempo, que estava sendo tratado pelo atropelamento. Crença que logo ruiu. Pela primeira vez avistei alguém além de mim naquele quarto. Um homem de cabelos grisalhos e despenteados, óculos arredondado sobre um nariz grande e pontudo, rosto gordo com rugas e uma verruga no lado esquerdo do queixo. Vestia um jaleco velho e sujo, como aqueles de açougueiros, mas visivelmente mais rebuscado. Andava de um lado ao outro do cômodo, empurrando alguma coisa metálica cujo som parecia com o daqueles carrinhos de supermercado. Trouxe então uma luminária e acendeu sobre meu tórax. Tentei falar, dizer-lhe alguma coisa, mas minhas cordas vocais pareciam rompidas e não emitia som algum.
Ele ajeitou o foco da luminária e pegou algum instrumento. Senti meu corpo suar e meu coração palpitava alucinadamente. De súbito, meus olhos se arregalaram, tamanha a dor que penetrou meus nervos. O homem, como seu bisturi na mão, cortava-me o abdômen sem qualquer anestesia. Eu podia sentir o fio da lâmina abrir minha carne enquanto o sangue esguichava sobre meu peito. Cada corte era como uma estaca nos ossos, de modo que vivi a dor no seu estado mais extremo, o horror, a escuridão.

•••

Sorri como um menino e vi seu sorriso retribuir o meu. Dentes claros e alinhados, não como os meus, amarelados. Suas mãos eram suaves como um lençol de seda. Deu-me um abraço apertado, roçando seu corpo nu ao meu, mordendo minha orelha levemente e sussurrando palavras de amor ao meu ouvido. Elizabeth sabia como despertar minha libido.

•••

Vou tentar, dentro das minhas limitações de narrador, descrever o horror blasfemo e a inacreditável repulsa pelo que vi quando acordei. O cômodo estava, então, fortemente iluminado. Na boca, o sabor do sangue. No lugar dos quatro quadros havia espelhos, um em cada parede, nos quais pude enxergar a horrenda figura de mim mesmo.
Fizeram de mim uma obra de arte macabra, uma monstruosidade além do que é humanamente concebível. Arrancaram-me os membros: braços, pernas, pênis. Do meu tórax, restaram apenas os órgãos vitais: coração, fígado, pulmão, rins, intestinos. Todos conectados e pendurados em suportes metálicos ao redor de minha cabeça.
Minha imagem refletida no espelho era — e ainda é — extremamente perturbadora, uma blasfêmia colossal, inominável. Tornei-me um monstro, e só não me lancei à loucura, pois sei o quão mais monstruoso é o homem que me deixou assim, nem vivo nem morto, um ser horrendo e imóvel.
Acreditem ou não, eu conheci os extremos da dor física e psicológica. Os limites que são barreiras aos homens de sorte. Eu, no entanto, não sou um homem de sorte. Mas tive sorte por ter tido Elizabeth.

A VISITA {SAMANTHA DE SOUSA}

Henry Füssli

Não havia adormecido ainda, quando sentiu que alguma coisa se arrastava sobre a cama. Era uma coisa pesada ao ponto de estremecer o colchão. Tentou mover-se para verificar o que era aquilo, mas não conseguiu movimentar um único dedo. À medida em que a coisa se aproximava dela, seu coração batia tão forte que doía no peito. A respiração estava pesada. A voz não saía. Sentiu, então, que algo a tocava, deslizando dos cabelos até as partes íntimas. Precisava sair daquilo, seja lá o que fosse. Quanto tempo já durava? Meia hora? Toda a madrugada? Um minuto? O tempo congelou-se. Quando uma leve iluminação invadiu o quarto, sentiu-se libertar, o corpo moveu-se bruscamente e toda ela tremia. Não havia mais ninguém no quarto.

A EXECUÇÃO {MAURO LOPES LEAL}



A execução havia sido marcada para às 8 da manhã, a ocorrer no mesmo lugar de sempre: a sala da verdade. Não, esse não é o seu nome verdadeiro. Nós, guardas, a apelidamos dessa forma. É nela que os criminosos mais repulsivos e detestáveis choram, esperneiam como criança, imploram ensandecidos, fenecem. Pedem que lhes dêem uma segunda chance, que não vão mais matar, torturar, dizem que se regeneraram, que reconheceram que foram homens maus e que tudo o que precisavam era de uma nova oportunidade para provar sua inocência. Esse era sempre o mesmo discurso. Mudou apenas uma vez, no ano de 19.., na cidade de B.
            Não é um caso que gosto de relembrar, mas foi um acontecimento que marcou a todos e principalmente a mim, que tive uma participação mais ativa do que os demais.  Não sou um bom contador de história, sou apenas um guarda de penitenciaria que exerce a mesma função há mais de vinte anos. Agora estou com os cabelos parcialmente grisalhos, a visão não está como antes, mas na época do ocorrido, há dezesseis anos, eu era um rapaz vigoroso, de porte atlético, o que de certa forma salvou minha vida na ocasião. Por necessidade de preservação de identidade, omitirei alguns nomes, modificarei outros, pois havia pessoas, gente de elevada posição social envolvida e eu tenho filhos, esposa, família.
            Falei que seria uma execução logo no início da minha narrativa, mas preciso corrigir-me: na verdade era um assassinato e que deveria se cometido por nós, guardas. Mas estou avançando muito depressa. Desculpem-me, como disse antes, sou apenas um simples guarda, treinado para cumprir com as minhas obrigações.
            Creio que devo falar primeiramente do homem a ser “executado”. Seu nome era Alex S. D., mais conhecido como o Carniceiro de B., título que lhe era absolutamente justificável: gostava de assassinar mulheres. Os modos como procedia eram os mais desumanos possíveis. Retirava a pele de determinadas partes da vítima, ainda vivas, e fazia peças, como se fossem roupas. Luvas, chapéus, máscaras... o sujeito era realmente bizarro.
            O número de vítimas chegou a vinte e seis. Donas de casa, estudantes, profissionais, não havia um padrão, poderia ser qualquer uma. Escolhia-as mais na parte da noite, quando voltavam da escola, da igreja ou do trabalho. A abordagem era sempre a mesma: que rua é esta? Como faço para chegar na estação seis? Agarrava-as e conduzia-as ao seu velho fusca vermelho. Seguia para alguma velha casa abandonada, previamente preparada para o seu ritual de tortura e morte.
            Foi descoberto e preso após uma das vítimas conseguir escapar. Condenado, fixou-se sua pena em vinte e três anos, pois somente dois corpos foram encontrados na casa de Alex. Os advogados de defesa justificaram, ou tentaram, os crimes com atestados psiquiátricos. Bradaram que Alex era mais uma vítima do que algoz. Não sei, não posso me pronunciar sobre nada disso, pois desconheço os mistérios da mente humana. Tudo o que sei é que muitos assassinos confessos, quando em liberdade, praticam as maiores barbaridades possíveis, mas na condição de cativos, perpetram pinturas de paisagens, organizam coro e até aprendem a dançar tango. Não sei. Apenas acho que, em sociedade, tornam a matar novamente sem qualquer piedade.
            O caso de Alex seria o de mais um simples assassino com problemas psiquiátricos se ele não tivesse matado uma mulher em especial: a esposa do desembargador R., bastante conhecido na região. Devo observar que, independente de ser esposa ou não deste ou daquele indivíduo, para mim todas foram vítimas similares: mulheres que perderam a vida nas mãos de um louco. Mas em nossa sociedade superficial e desigual, cujos valores exaltam a posição social e o acúmulo de riqueza, assassinar uma mulher como aquela é algo que merece uma dupla condenação, algo por debaixo dos panos, secreto, muito secreto.
            Não são novas as matérias sobre detentos que aparecem mortos, enforcados em suas celas. Trata-se o caso, geralmente, como suicídio, mas sabemos que em muitos desses casos a coisa não foi bem assim. Com Alex não seria diferente.
            Em uma certa manhã, dois advogados representando o desembargador chegaram ao presídio, queriam falar com o diretor. Não os vi, mas me contaram. Nos presídios tudo é compartilhado, nada fica em segredo. Entretanto, nada sai de lá. As informações ficam confinadas aos muros da prisão. Se hoje estou escrevendo tal memória é mais por necessidade, desejo de compartilhar algo que carrego e que nunca soube assimilar de forma adequada.
            A conversa entre os três homens durou pouco, talvez menos de meia hora. De imediato não estranhamos nada de diferente, muitos advogados frequentam a prisão para assuntos particulares com os seus inúmeros clientes. Somente no dia seguinte soubemos de forma mais clara quem eram de fato aqueles dois senhores e o que queriam. O diretor da prisão chamou-me para uma conversa em sua sala. Quando cheguei, já havia mais dois guardas. Um era meu amigo, S., o outro conhecia de vista.
            Depois de uma introdução truncada, nervosa e com rodeios, o diretor disse que certos detentos de nossa unidade cometeram crimes que são considerados moralmente mortificantes, portanto, deveriam receber uma punição adicional, por assim dizer. Nós, os guardas, não falávamos nada, mas sabíamos para onde a conversa seguiria. Eu, que até então nunca havia me envolvido em tais situações, tive, obrigatoriamente, que fazer parte. Sim, a minha hora tinha que chegar também. Não se podia recusar uma coisa daquelas, apenas jurar ao mandatário que tudo seria praticado de forma rápida e sigilosa, sem possibilidades de suspeitas maiores.
            “Na quarta-feira próxima, às 8 em ponto, quero que vocês conduzam o prisioneiro Alex S. D. à sala da verdade.” Eu fiquei nervoso. Era a minha primeira execução. Meu colega já havia participado de três. O outro apenas uma.  
            Naquela noite não consegui dormir com tranquilidade costumeira. Tive pesadelos nos quais era perseguido por um homem, vestido de branco. Trazia nas mãos uma grande adaga. Eu tentava fugir, mas minhas pernas não se moviam. Eu despertava, ofegante. E quando voltava a dormir, o pesadelo também retornava, o mesmo.
              No dia seguinte, meu amigo, S., perguntou quanto nos seria oferecido. “Vão nos dar dinheiro por isso?” perguntei ingenuamente. Não fazia a menor ideia de que algum valor pecuniário era dado aos guardas que faziam parte de tal procedimento. “Claro, seu tolo. Acha que fazemos isso de graça? É preciso algum para que fiquemos calmos, tranqüilos e satisfeitos. Acho que vai ser uns quatrocentos. Querem muito o cara apagado, entende? Ah, a vingança!” Naquele dia descobri um lado sádico do meu amigo, sádico e mercenário. Mas com o tempo, com outras execuções, vi que aquilo era normal e que muitos guardas desejavam ardentemente serem escolhidos para participarem desta ou daquela execução, tudo por causa do dinheiro. “Tomara que chegue logo quarta!”
            Na terça-feira eu não me sentia nada bem. Um enjôo, uma falta de apetite me abatiam. Sabia que tais sintomas eram por causa da execução, mas não podia fazer nada. Pensei em fingir uma doença qualquer, um mal súbito, mas não acreditariam, diriam que acovardei-me, seria menosprezado pelos demais guardas, que viam aquelas mortes apenas como formas extras de renda. Ainda nesse dia, fui encarregado de vigiar o corredor no qual o prisioneiro Alex encontrava-se. Senti um leve tremor no corpo. Eu o veria antes da execução, algo que eu queria ter evitado mais do que qualquer coisa.
            Às 18 horas fui render o outro guarda, que me repassou as armas. A tarefa básica de um guarda, um bom guarda, era fazer todo o trajeto do corredor por completo. Eu me considerava um excelente guarda, mas naquele início de noite resolvi ficar parado, apenas movimentando-me de um lado para o outro não mais que quatro ou cinco passos, para a esquerda e para a direita. Mas para meu azar, um superior passou pelo lugar e estranhou minha postura. “Está bem? Sente-se bem?” perguntou-me o oficial. Respondi que sim, que tudo estava normal. Fiz continência e segui o trajeto costumeiro. A sela de Alex era a de número 230. A terceira da direita para a esquerda no corredor. Tive que passar em frente. Ele estava acordado, lendo um livro. Por uma força irresistível, olhei para ele e para meu tormento, encontrei o seu olhar em mim.
            Prossegui em meu percurso, jurando a mim mesmo de que não mais olharia para aquele homem, magro, de cabelo cortado à moda militar. Mas na quarta vez em que passei pela sua cela, ela me chamou. Um frio percorreu minha espinha dorsal. “Ei, guarda F., venha aqui, ouça-me. Não se faça de surdo. Estou sussurrando mas sei que pode me ouvir.” Por um motivo que até hoje desconheço, parei minha ronda em frente à grade da cela 230. “O que você quer, prisioneiro D.?”, perguntei, tentando dar à minha voz um tom imperativo e furioso, mas falhei drasticamente. Eu gaguejava. Alex riu e perguntou: “Será amanhã mesmo?” Outra vez fiquei estático. “Será amanhã o quê, prisioneiro S.?”, “Ah, não se faça de bobo, você sabe, a minha execução!” Fingi que não ouvi e reiniciei minha ronda. Mas sempre que passava pela cela 230, Alex que chamava, falava frase soltas. “Não se preocupe, guarda F., não tenha receio. Saiba que amanhã eu não morrerei.” Repetiu isto uma três vezes ainda durante minha ronda.
            Depois de algumas horas fui rendido pelo outro guarda. Corri para o meu dormitório e tentei dormir, mas sem sucesso. Como ele poderia saber da própria execução? Teria alguém dito a ele? Alguma coisa vazou entre os prisioneiros? Isso era impossível. Apenas os guardas e o mandatário sabiam da execução. Esta, quando ocorria, só vinha ao conhecimento dos demais guardas no dia seguinte, quando o corpo era achado na cela. Como ele poderia saber?
            Às cinco da manhã pulei da cama. Estava nervoso. A noite sem sono não significou nada para mim, pois estava elétrico, nervoso. Vesti-me com o esmero habitual. Olhei-me no espelho do banheiro: “Hoje você irá matar o seu primeiro homem!” Era uma ideia bastante delicada, um tanto desprezível, mas uma realidade inquestionável. Salvo alguma situação absurda que pudesse acontecer, nada iria defender aquele homem da morte naquele dia. No refeitório, como combinado, encontrei meu amigo e o outro guarda. Seguimos em direção ao banheiro, pois a sala da verdade ficava atrás. Lá, encontramos não apenas o diretor da penitenciária, mas também o próprio desembargador. Apertou-nos a mão e pediu um bom trabalho. “Se houver, hã, dor adicional, vocês receberão um, hã, um abono, meu senhores”, falou com voz grave. A notícia não poderia ter sido melhor para os meus colegas. “Vamos fazer aquele sujeito sangrar como um porco!”, disse S. assim que saímos para buscar o prisioneiro.
            Encontramos Alex ajoelhado, rezando. Quando nos viu, sorriu. “Vocês são homens extraordinários”, disse com voz pausada. Ao algemá-lo, percebi sangue nas pontas dos seus dedos. “Hoje é um grande dia, senhores. Hoje é a data da libertação!”. “Cale-se, seu maluco!”, bradou meu colega enquanto fechava a cela e o empurrava para frente. “Siga”. Eu, que já estava nervoso, ficava cada vez mais. Pensei que não suportaria aquela situação por mais tempo. Matar era uma coisa. Torturar e matar era outra. Teria estômago para isso? Certamente seria exigido de mim alguns golpes, ou seja, eu teria também que sujar ainda mais as minhas mãos.
            Durante o trajeto encontramos com dois guardas. Olharam-no inicialmente com surpresa, mas depois adivinharam o que ia acontecer, e sorriram. “Divirtam-se!”, disse um deles. “Esse é o princípio”, respondeu meu amigo.
            Na sala da verdade, encontramos o outro guarda em pé e os dois outros homens sentados em duas cadeiras, providenciadas pelo primeiro quando saímos. Mal entramos no local e o desembargador avançou sobre o prisioneiro, esmurrando-o na boca. “Seu idiota! Sua sandice desmesurada me custou milhares de reais, sabia? Sem falar na possibilidade de uma candidatura que seria apoiada pelo meu sogro!” Desferiu mais três golpes, todos no estômago de Alex, que gemeu e depois sorriu. “Desculpe se atrapalhei seus sonhos de grandeza, doutor!”.
            Então era isso. Não era vingança. Nada daquilo era motivado pelo amor de um marido diante da perda da esposa. A questão era apenas financeira, como o é sempre. “Comecem”, ordenou o diretor, em tom seco. Meu amigo, mais afoito, iniciou a tortura com tapas e prossegui com murros. Eu tirei a parte de cima do meu uniforme, coisa que foi seguida pelo outro guarda. Este, armando-se com um canivete, cortou a costa do prisioneiro em três partes diferentes. Um grosso sangue começou a escorrer. “Muito bem, senhores!” dizia o desembargador, que parecia cada vez mais satisfeito com o avanço e a crueldade crescente da tortura. Os gritos de Alex agradavam-no de modo surpreendente. Gritos estes que não saiam jamais da sala, estrategicamente situada em um desnível em relação ao presídio, o que impedia qualquer som de sair dali e alcançar outros cômodos. Por isso ela havia sido escolhida para tais situações.
            “Bata na cabeça, a cabeça!”, pedia o desembargador. E como um maestro da morte, indicava o local a ser flagelado. “Agora na orelha, corte um pouco da orelha. Isso mesmo, assim!” Após meia hora de agressões, Alex desmaiou. O desembargador mostrou-se desapontado. “Está morto? Já?” O diretor explicou que não, que havia apenas desmaiado. Ele mesmo apanhou um balde com água gelada e despejou sobre a cabeça de Alex, que despertou abruptamente. “Ah, oi, amigos, estou de volta. Como estão todos?” perguntou, com a boca inchada e sangrando, faltando alguns dentes da frente.
            “Agora é sua vez, F. preciso me recuperar”, disse meu amigo, apanhando uma toalha para enxugar o rosto. Antes disso, estendeu-me uma barra de ferro. “Quebre as pernas deles”, pediu o desembargador. Hesitante, apanhei o instrumento e me posicionei, trêmulo, diante de Alex, que percebeu minha angústia. “Ora, vamos, guarda F., hoje é só mais um dia de trabalho. Não se preocupe, companheiro, ficarei bem. Hoje mesmo estarei livre”. Para tentar diminuir minha angústia, tentei lembrar das mulheres mortas, da forma como elas foram atacadas e mutiladas. Pensei em cada uma delas enquanto erguia a barra de ferro e desferia dezenas de golpes nas pernas de Alex, que gemia e chorava.
            O desembargador ergueu-se com ar resoluto. “Agora chega, tenho uma reunião daqui a meia hora. Vou tentar amenizar o prejuízo que esse louco me provocou. Podem matá-lo”. Todos olharam para mim. Eu, que estava perto de Alex e portava a barra de ferro, deveria executar o prisioneiro. “Eu...”. tentei balbuciar algo. “Vamos, guarda, não tenho o dia inteiro”, rosnou o desembargador. O diretor olhou-me de forma severa. Atrás deles os dois guardas acenavam para que eu desse o último golpe.
            Respirei fundo e ergui a barra. Antes, sussurrei: “Perdoe-me, Alex”. O prisioneiro sorriu precariamente. “Eu não acredito em perdão, guarda F”. E desferi o golpe derradeiro. Sua cabeça abriu em duas partes. Fui cumprimentado pela precisão e força do golpe. O desembargador, satisfeito, puxou um maço de cédulas do bolso. “Quinhentos a mais para cada um pelo excelente serviço!” Todos, com exceção de mim, estavam exultantes.
            Depois que os dois homens saíram, limpamos, como pudemos o corpo. Foi nesse momento que percebi que no peito do morto haviam algumas inscrições, feitas com algum objeto cortante. Deduzi que o sangue na ponta dos seus dedos eram decorrentes de tais ferimentos. A cabeça foi costurada precariamente. Carregamos o cadáver para a cela 230 e, com uma corda, o enforcamos. Claro que qualquer um poderia perceber que Alex não havia se enforcado, mas um legista do presídio, previamente esclarecido sobre a questão, iria atestar suicídio por enforcamento. O corpo seria liberado em alguns dias e pronto. Geralmente os piores assassinos não possuíam família, o que facilitava bastante a incontestabilidade de nossa história. Deixamos Alex na cela e saímos. Alguma sentinela, assim que percebesse a situação daria o alerta e tudo ocorreria como planejado.
            Contudo, ao fim de meia hora, nada de excepcional ocorreu. Tudo estava tranqüilo. Eu, a quem foi concedido um dia de folga pelos meus serviços prestados, estranhava que nada de anormal houvesse ocorrido até então no presídio. Foi então que soaram o alarme. Fuga de prisioneiro. Tornei a vestir-me, dessa vez de modo grosseiro. Uma fuga de detentos era algo de extrema gravidade. Todos poderiam estar em perigo se um dos prisioneiros pudesse abrir a demais salas.
            Corri para o setor das celas. Um grupo de guardas examinava a cela 230. Imaginei que fosse aquilo, mas geralmente nesses casos não era acionado o alarme de fuga. “O que está acontecendo?” perguntei a um dos sentinelas. “O prisioneiro Alex fugiu, guarda F.!” Abrindo caminho entre os guardas, constatei, não sem extremo temor, que Alex havia desaparecido. “O corpo. Onde estará o corpo?” perguntei-me mentalmente.
            As buscas prosseguiram durante todo o dia. Nada foi encontrado. Decepção para todos. S., que encontrou comigo em um dos corredores, perguntou-me em sussurro sobre o corpo. “F., sumiste com o cadáver?” Ignorei-o e segui em direção à cela 230. Examinei cada milímetro e nada. De incomum apenas a bíblia que Alex lia todos os dias. Contudo, não era um bíblia comum. As letras eram desconhecidas e em muitas páginas, manchadas de sangue, reconheci os símbolos que foram feitos no corpo de Alex. Guardei o livro e saí da cela, completamente febril, um tanto delirante.
            Levaram-me ao ambulatório. Fui medicado. Recomendaram-me repouso e melhor alimentação. “Em resumo, vá para casa, guarda F.”, disse o médico com ar paternal. No ônibus, tentei relaxar. Queria evitar pensar nos acontecimentos do dia. Neguei a morte de Alex como minha culpa e dei-me confortavelmente a desculpa de que alguém havia sumido com o corpo, coisa rara no presídio, mas não impossível. Entretanto, para minha mais aterrorizante surpresa, em uma das paradas do ônibus vi Alex S. D. atravessando a rua. “Não pode ser, é impossível!”, gritei. Meu brado chamou a atenção de todos no coletivo, inclusive de Alex, que me viu e acenou para mim, lançando-me um olhar abissal. Ainda falou algo que não consegui compreender, pois o ônibus prosseguiu viagem como se nada tivesse acontecido.  

            

MULHER, VINHO E UMA VOLTA NO INFERNO {Por Felipe Cosmo}




A noite ia alta, a lua esmaecia no céu carregado. Estávamos sós no apartamento dela. Ela me olhava como se perscrutasse minha alma untada em desejo. Meu corpo todo tremia com a vontade mal contida de beijar-lhe os lábios rubros umedecidos pelo vinho rose que ela bebericava vagarosamente.
Respirei fundo enquanto contemplava aqueles olhos tão verdes como esmeraldas. Eu ruborizava ante a tentativa vã de não olhar tão fixamente para seu decote que denunciava um par de seios alvos deliciosos.
Por fim, cedi à timidez e voltei-me para olhar a cidade que se descortinava em frente à varanda. Minha taça agora quase vazia lutava para se manter em minha mão trêmula e banhada em suor.
— Qual o problema? — perguntou ela com sua voz tão suave como a harpa de Davi.
— Nada não. — respondi eu, mudando a taça de mão. — É que achei esta vista maravilhosa.
— Você prefere a vista a mim?
— De jeito nenhum.
Ela então me puxou de volta à sala e de lá fui arrastado até o quarto dela. Seu perfume era puro feromônio e me deixava ébrio de desejo.
O quarto era amplo e decorado com muitos espelhos. Mas a verdade é que não dei muita atenção aos detalhes. O vinho tinha deixado minha visão um pouco turva e eu sentia taquicardia devido à languidez de seus beijos e carícias.
Ela me jogou na cama de supetão, era uma cama tão macia como só a alcova das ninfas deve ser. Com apenas alguns movimentos de seus dedos ela desfez-se do vestido e então a beleza de seu corpo nu fez meus olhos ofuscarem. A pele tão branca e macia contrastava com seu púbis cheio e escuro.
Aquilo não podia estar acontecendo. Acho que era um sonho. Algumas horas atrás eu não era ninguém e ninguém me conhecia. E agora eu me via diante de Deus. Tirei minha roupa como pude e ela então veio pra cima de mim e selamos nossos corpos com os fluidos da libido. Transamos loucamente como dois depravados. Fogos de artifício jorravam de nossos corpos, estrelas inteiras nasciam e morriam em nosso sexo.
Até que eu mesmo morri. Juro por deus que morri. Cheguei a ver meu corpo estirado na cama, inerte e frio. Então vi um clarão tão forte que me cegou. Era ela novamente, sempre tão brilhante e cheia de luz. Ela disse:
— Agora vou levá-lo a uma jornada que você jamais sonhou nem nos seus maiores devaneios.
Ela deu meia volta e se afastou. Eu nem cheguei a pensar em nada quando meu corpo foi atraído em sua direção, como se houvesse um campo eletromagnético em volta daquela mulher. Eu nem mesmo sentia meus pés se moverem. Levitávamos os dois. Não existia gravidade nem matéria. Nossos corpos eram energia pura atravessando o éter.
Até que chegamos a um templo que tinha um pórtico imenso onde havia colunas dóricas iguais ao Partenon. Por fora tudo parecia muito amplo, mas por dentro havia apenas um corredor estreito por onde seguimos. Era escuro, mas eu conseguia entrever catacumbas com estranhos mosaicos e arabescos. Não havia sons de qualquer tipo. Foi a primeira vez que me dei conta do quanto é opressivo o silêncio absoluto.
Finalmente chegamos a um salão enorme e de repente tudo ficou iluminado como o dia, mesmo não havendo qualquer fonte de luz aparente. No meio do salão uma estranha figura dançava velozmente. Ela se contorcia e revirava num ritmo febril. Seu corpo era magro e tinha a pele bem escura e longos cabelos crespos. Possuía forma e curvas femininas. Os seios eram firmes e os quadris largos, porém, à medida que me aproximava, percebi que seu rosto e seu sexo eram masculinos. Era uma espécie de divindade mitológica africana. O silêncio opressivo de outrora dera lugar a sons sincopados de tambor, como uma música tribal.
Quando a divindade africana nos viu, eu percebi que seus olhos eram vermelhos como fogo. Ela parou imediatamente de dançar e veio em nossa direção, quando ela falou os tambores silenciaram. Tinha uma voz gutural e falou nos seguintes termos:
— O que faz aqui e por que trouxeste um ser impuro à minha morada?
— Não é mais sua morada — respondeu minha companheira. E sacando um pequeno punhal de aço reluzente, atravessou o peito da hermafrodita. Não pude ver o que se passou depois, visto que no instante seguinte estávamos no corredor por onde entráramos minutos antes.
Subimos uma escada com estreitos degraus. Não sei quanto tempo se passou, mas subimos muito, era uma escada imensa. No entanto, por algum motivo não fiquei cansado, nem mesmo ofegante. Então chegamos a uma masmorra escura e sombria onde existia apenas uma cela, suas grades eram de ouro maciço e lá dentro havia um imenso macaco acorrentado pelos tornozelos com correntes de ferro. Quando nos viu, o macaco ficou agitado e se mexia de um lado para o outro até onde as correntes permitiam.
Minha companheira abriu a cela com uma chave também feita de ouro (esses objetos pareciam simplesmente se materializar em suas mãos). Com a mesma chave ela libertou o macaco das correntes que o oprimiam. Ele pulou em seus braços e ela o tirou da cela carregando-o em seu colo como um bebê. Antes de sairmos da masmorra eu a peguei pelo braço e finalmente perguntei:
— Por que estamos fazendo tudo isso? Onde estamos? E o que significam todas essas coisa?
Ela olhou-me com aqueles olhos de esmeralda e respondeu com uma voz tão maviosa quanto os sons de um saltério:
— Entendo que sua mente esteja turva como a noite. Suas perguntas serão respondidas no seu devido tempo, mas agora precisamos sair daqui.
Descemos a escada e saímos do templo. De repente nos vimos levitando acima de um mar revolto com tempestades e trovões ameaçadores no céu noturno. Nada se via no horizonte, apenas água e nuvens carregadas.
Então um túnel de luz surgiu à nossa frente e seguimos por ele. Num piscar de olhos a paisagem mudou. Não sei dizer onde estávamos, mas parecia ser um deserto em chamas. Labaredas lambiam nossos pés, mas não sentíamos dor. Uma fumaça negra no céu tornava tudo escuro e cobria os raios de sol. Podíamos apenas vislumbrar a claridade por trás do breu.
À nossa volta, pessoas destroçadas gemiam num lamento de dor lancinante. Tudo ao redor era tormento. Percebi que estávamos acima de uma pilha de corpos carbonizados. Em alguns lugares era possível ver membros dilacerados e corpos putrefatos banhados em sangue. Eu sentia um forte odor de carniça. No céu coberto de fumaça voavam animais imensos e mitológicos que sibilavam ininterruptamente.
Subitamente, cortando o céu em chamas e montados em cavalos alados, surgiram seres luminosos que pareciam arcanjos. Eram sete ao todo e todos eles empunhavam lanças de luz dourada. Um deles se aproximou de minha companheira e atravessou-lhe o corpo com sua lança. O macaco que momentos antes havia se desvencilhado de seus braços transformou-se num dragão de vinte pés de altura, em sua cabeça um diadema reluzia e saía fogo de suas narinas e boca. Os arcanjos sobrevoavam ao redor dele e tentavam espetá-lo com suas lanças.

Depois disso não vi mais nada. Um torpor apoderou-se de minha mente e minha visão ficou embaçada até que apaguei. Acordei com a luz do sol socando meu rosto. Tentei levantar, mas minha cabeça doía. Minhas roupas estavam puídas e eu segurava uma garrafa de Duelo na mão. Atrás de mim ouvi risadas histéricas de mulheres. Virei-me para olhar e vi três rameiras que gargalhavam à entrada do cabaré.




                                                           ***


Felipe Cosmo Graduando do curso de Cinema e Audiovisual. Nasceu em Belém do Pará, em 1988. Viciado em Literatura e Cinema. Escreveu e dirigiu três curtas-metragens, entre eles “Trágico Inverossímil” e “Garota da Beira do Rio”, além de escrever poesia e contos

PASSEIO NOTURNO





É com muito receio com que venho tomar de um lápis e algumas folhas de papel em branco para tentar descrever uma grande tragédia que aconteceu comigo há muito tempo... Não sei se terei condições físicas e emocionais para isso. Meus dedos já não seguram com firmeza o lápis e a idade avançada faz com que minhas mãos tremam constantemente, ainda mais quando volto a pensar nesse assunto. Digo pensar, por que nunca falei dele pra ninguém, sempre tive medo. Agora mesmo não sei se estou agindo certo ao fazer isso. Toda vez que penso no que aconteceu passo noites em claro assustado com pesadelos, ainda hoje depois de tanto tempo. Sempre tenho a estranha sensação de estar sendo vigiado, e de vez em quando pareço ver aqueles mesmo olhos a me observarem da escuridão imensa da noite na hora de dormir. Talvez seja só uma impressão infantil, ou uma peça pregada pelo inconsciente. O certo é que não sou louco, a insanidade certamente ainda não bateu à minha porta, não sei até quando...
Lembro-me perfeitamente daquela noite. Era uma noite escura e sem estrelas, aquela. Uma enorme lua cheia ofuscava-se por traz de densas nuvens negras, e estava tão frio que uma fina camada de neblina subia do rio, indo espalhar-se rente ao cais.
Poucas pessoas haviam se aventurado a sair de casa naquela noite de quinta-feira. Eu, talvez por intervenção do destino ou por mera falta de sorte, fui um desses infelizes aventureiros. Não que fosse dado a passeios noturnos, pouco saia desacompanhado de casa. Limitava-me a ler romances policiais durante as noites frias, como aquela, e em retratar naturezas mortas em telas, muitas das quais ainda hoje decoram as paredes de minha sala de estar, sem falar nas tantas que atravessaram o oceano e foram parar nas mãos de amantes da boa e genuína obra de arte. Às vezes, durante o verão, quando um belo sol despertava o dia, convidava uns amigos e íamos pescar num rio de águas tranquilas, próximo à entrada de nossa pequena cidade. Raríssimas vezes fazíamos isso nos dias de inverno. Eram sempre dias monótonos e tristes; as coisas viviam encharcadas e a prevenção contra um resfriado impedia-me de fazer certas coisas fora de casa num dia ruim, e até hoje não consigo entender por qual motivo deixei esposa e filhos em casa e saí, sozinho, naquela noite, a vagar sem rumo pelas ruas da cidade.
Quando percebi já havia chegado na praça, do outro lado da cidade, em frente a uma igreja centenária manchada por infiltrações na fachada. Não sei como, mas sentia como se algo estivesse prestes a acontecer.
Andei até o trapiche e pedi uma cerveja. Encostei-me à amurada do cais, de costas para o rio e de frente para a praça, os braços cruzados, a cerveja na mão. Fiquei ali, esperando sem saber exatamente o que por mais de uma hora. Já passava das onze horas e a praça esvaziava-se muito rápido de seus poucos visitantes. Um menino corria atrás de um gato branco listrado de cinza e com uma mancha preta ao redor do olho esquerdo. O gato parou e ficou me olhando por um longo tempo, fitando-me com os olhos semicerrados, depois foi embora. Três homens bebericavam cerveja num barzinho próximo enquanto conversavam animadamente, e um casal de namorados se abraçava num banco à minha frente sob a luz amarelada de um poste. Fiquei a observar o casal por trás das grossas lentes dos meus óculos. A moça, uma morena de cabelos longos e encaracolados, olhos negros sob finas sobrancelhas perfeitamente modeladas ao seu singular e delicado rosto, os lábios levemente avermelhados. O rapaz tinha uma boa aparência, modos distintos e vestia-se da forma mais elegante já vista, demonstrava ser uma pessoa a quem dinheiro não faltava. Olhou-me com um ar de desconfiança quando a moça fez um sinal com a cabeça de que eu estava observando-os. Percebi e mudei a direção do olhar. Coloquei as mãos nos bolsos laterais da minha calça e saí caminhando vagarosamente do meu posto. Já havia bebido seis cervejas. No meio do caminho olhei novamente para trás, mas o banco estava vazio e não havia nem sinal do casal.
Contornei o lado esquerdo da praça e parei sob uma árvore, sentando em um banco de concreto. O vento frio que vinha do rio congelava-me as entranhas, e não seria surpresa se em pouco tempo desabasse um tremendo aguaceiro daquele negro céu.
            Esse foi, sem sombra de dúvida, o único pressagio, dentro os tantos que me vieram inconciliáveis à mente, que induziu-me a repensar aquele passeio nada proveitoso, levantar daquele banco e tomar o caminho de volta para casa. Levantei-me, mais ainda assim hesitante se deveria ou não prosseguir. Queria outra cerveja... Comprei e tomei o caminho de casa.
            O ponteiro do meu relógio de pulso marcava quinze para a meia noite. O horário e o clima melancólico da cidade já quase de toda adormecida e mal iluminada enchiam-me de receio, e me fizeram apressar ainda mais os passos. Não que eu tivesse medo, medo mesmo talvez não fosse. Neste mundo pouquíssimas coisas faziam-me experimentar esse sentimento tão infantil, e o sobrenatural e aterrorizante que, como ouvia falar, chegava com a noite, não era uma delas. Na verdade nunca fui demasiado crente em fenômenos sobrenaturais do tipo que existiam para aterrorizar as pessoas. Quando criança, meu avô sempre contava as mais horripilantes histórias de visagens, feiticeiras e lobisomens; eu ouvia tudo, muito atento, e quando ia dormir ficava imaginando todas aquelas figuras espreitando da escuridão noturna para dentro do único lugar da nossa casa que adormecia com as luzes acesas, o meu quarto. Às vezes não conseguia pregar o olho. Cada som no exterior, mínimo que fosse, fazia meu coração disparar e o meu rosto suar desesperadamente. O tempo passou, e o que eu ouvia assustado passei a ouvir sério; não mais acreditava nessas bobagens, mas procurava julgá-las, sempre apontado as “falhas” das histórias, mentiras descaradas, absurdas mesmo. Não sei porquê, mas naquele instante em que voltava para casa comecei a relembrar de muitas dessas histórias: fantasmas, feiticeiras, lobisomens, sempre associados com as madrugadas e cemitérios sombrios; e como que para completar a minha total infelicidade e responder aos meus pensamentos, via surgir, na esquina seguinte, o cemitério da cidade.           
Fitei-o atônito. Nem havia notado a rua em que estava andando, pareceu-me que havia sido levado por ali por alguma coisa incomum e não pelo mero acaso, e a simples ideia de passar pela frente dele àquela hora veio-me como um choque, refreando-me por instantes.
Queria voltar (e até hoje me pergunto por que não voltei) e contornar pela outra rua, no entanto o orgulho de ser tido como uma pessoa de coragem convenceu-me a seguir em frente, mesmo a contragosto. Então engoli em seco e segui.
O portão de ferro com as grades corroídas estava parcialmente aberto, e na medida em que o vento forçava-o, as dobradiças rangiam num som estridente e irritante, terminando numa forte batida contra o muro, e isso continuamente, pois ventava bastante e parecia que já ia chover.
Por sobre o muro irregular apareciam o topo de cruzes enegrecidas e de lápides com estatuetas de anjos com as asas e as mãos voltadas para cima, como em posição de subida. Estiquei o pescoço para olhar por cima do muro, e naquele lugar sinistro e sombrio nada se movia, nem som algum se ouvia, tudo estava mergulhado num silencio perturbador que só foi interrompido pelo voou de uma coruja para uma árvore no outro lado da rua com um rato no bico.
O caminho central que começava a partir do portão era estreito e muito comprido, meus olhos seguiram por ele, indo parar numa pequena capela caiada de branco e coberta por ervas. Tinha ouvido histórias sinistras daquele lugar, inclusive a de que, trancada nas profundezas daquele lugar, ficava o caixão de um homem que havia sido muito mal em vida e que a terra se recusava a decompor suas entranhas. O homem secara, e segundo contava o meu avô, algumas pessoas juravam que o corpo mudava de posição...
Sempre achei essa história ridícula. Mas quando me virei de volta à rua ouvi um estalo vindo de lá, parecido como de uma fechadura. Voltei-me novamente para a capela, com o coração já um pouco disparado; mas por ali tudo continuava inerte como antes.
Continuei a andar pisando bem devagar, com os ouvidos atentos a qualquer estalo parecido, porém como resposta só ouvia o cricrilar dos grilos nas moitas de capim ao redor da rua e o coaxar distantes de sapos. Um pouco mais à frente findava a quadra do cemitério; respirei fundo, aliviado, como se tivesse acabado de sair ileso de uma difícil prova que me fora severamente imposta.  Mais à diante olhei para o cemitério pela última vez, já sem qualquer receio aparente, acreditando ter provado que todas as histórias que me contavam quando menino não passavam de meras invenções fantasiosas e sem qualquer fundamento real. No entanto, vi-me às voltas com todas essas questões naquele momento. Aquela noite poderia ser escura como fosse, mas tive a forte impressão de ter visto uma sombra em pé, parada junto ao portão e olhando fixamente para mim. Assim que semicerrei os olhos para tentar ver melhor, a sombra já não estava mais lá.
Fiquei profundamente confuso e as garras frias do medo pareciam querer se apoderar das minhas pernas, mas novamente fiquei pensando e tentando me persuadir de que aquilo nada mais fora do que fruto de minha sutil imaginação. Avancei o caminho a passos largos, com os olhos fixados no chão de piçarra à minha frente, até chegar à avenida principal. Esta estaria igualmente deserta como as demais, se não fosse por um bombonzeiro que cruzou comigo voltando do trabalho e sumiu por uma rua estreita.
A avenida estava bem iluminada. Voltei a andar devagar pela calçada, tentando aproveitar cada pedaço iluminado, na esperança de esquecer a atmosfera lúgubre de que acabara de sair e a visão que, mesmo não tendo certeza de sua veracidade, tivera minutos antes. Começou a chover, uma chuva fina e constante. Converti à direita na primeira esquina que surgiu, agora acelerando os passo para não chegar em casa encharcado e o vento frio da chuva – eu acho – fez-me arrepiar dos pés à cabeça e o coração aumentar os batimentos. Cruzei os braços tentando esquentar as mãos sob as axilas e olhando ligeiramente de um lado para outro da rua.
As coisas pareciam estar mudando comigo de forma muito estranha, e pela primeira vez desde há muito, como vim a lembrar, comecei a sentir medo da imensidão da noite e dos seus habitantes. Não entendia como um simples vento frio, tão comum quando começava a chover, havia-me feito experimentar outra sensação, uma sensação de mais puro medo, de terror mesmo.
Imaginei ser algum tipo de sinal, e estava certo, como depois fui descobrir. O que veio depois dele, porém, mudaria para sempre a minha vida e me faria tratá-la como algo quase insignificante.
Então aconteceu.
Escutei da primeira vez, mas não dei atenção, pensando ser apenas o meu inconsciente tentando me amedrontar. Da segunda vez, porém, ouvi nitidamente o som, assim mesmo quis fazer-me de surdo e convencer-me de nada ter ouvido, apenas apressei ainda mais os passos já vacilantes. Porém... da terceira vez, aquele uivo que começou agudo e foi morrendo num rosnar agonizante talhou-me a alma por inteiro, e eu, mesmo contra a vontade, parei de andar virei-me, vagarosamente, para ver de onde vinha aquele som aterrorizante.
Como já disse antes, volto a repetir: nunca acreditei em fenômenos sobrenaturais, mas a coisa para a qual acabara de olhar deixou-me com os olhos arregalados e a boca tremendo sem conseguir gesticular palavra, e fez-me em segundos rever todos os meus conceitos acerca de tão incrédulo assunto. Eu estava a uma quadra de distância do cemitério, e desse ponto podia ver o muro irregular dos fundos dele, descendo verticalmente seguindo a inclinação da rua. A estranha figura estava lá, próxima a encruzilhada junto ao cemitério.
O ar condensado formava uma fina e quase invisível camada de névoa ao seu redor, e em contraste com ela surgia, assim como pude no momento distinguir, a figura sinistra de um grande cão preto, com as enormes e compridas orelhas parecendo dois chifres pontiagudos apontando para cima. Chamar de assustador uma figura que me fez dar um salto para trás e me imobilizar de medo já é o suficiente para que se tenha uma noção de como ficara o meu estado de espírito naquele momento. Porém não fora apenas o sinistro cachorro que horrorizou-me a alma, mas sim a forma como ele vinha andando: sobre as duas patas traseiras, em pé, como um homem enorme. Deveria ter, no mínimo, uns dois metros e meio de altura devido a largura de seus passos. Para meu terror, a figura parou de andar e, olhando-me fixamente, começou a rosnar, depois inclinou a boca para cima e saltou mais um daqueles terríveis uivos, voltando-se em seguida para mim.
Senti as pernas se aquecerem rapidamente, quando percebi havia mijado nas calças. Virei-me e me pus a correr o mais rápido que consegui. Enquanto isso a chuva começava a aumentar rapidamente.
Quando já estava um pouco afastado, dei uma rápida olhada para trás. Para minha desgraça a criatura vinha correndo furiosamente, com as quatro patas no chão, em minha direção. O terror instalado em mim aumentou sobremaneira, muito além do que eu pensava suportar. Meu corpo já não atendendo os comandos da minha mente febril começou a ficar cada vez mais pesado e a minha respiração tornou-se quase impossível. Na loucura do momento pensei em gritar e tentar pedir socorro, e talvez se o tivesse feito teria acordado toda a vizinhança com o meu desespero, no entanto meus lábios adormeceram de forma tão assustadora que comecei a pensar que estava caminhando de encontro com a morte, e aquela criatura, que parecia ser a própria morte em pessoa, seria a sua condutora. Naquele instante compreendi que um fim desastroso me aguardava e eu não tinha como evitar. Morreria de qualquer forma. Com esse pensamento olhei para frente. A rua parecia ficar cada vez mais distante, como se eu estivesse sendo puxado lentamente para trás. Até que as luzes foram se apagando, uma a uma, até o final da rua, e uma escuridão sufocante tomou conta da minha vista. Minhas pernas enfraqueceram e eu caí, semimorto, no chão enlameado.
Fiquei prostrado ali, imóvel, com o coração já não batendo tão forte e sentindo um frio mortífero percorrer cada músculo do meu corpo inerte. Não conseguia falar nem ver nada, mas conseguia ouvir bem tudo o que acontecia ao meu redor. Imaginei que estava na minha cama, dormindo, e tendo um horrível pesadelo. Ouvia os grilos ali próximos, deveriam estar em baixo da janela do meu quarto; mas não conseguia compreender que estava dormindo, não conseguia mover um dedo sequer. Foi quando ouvi uma pisada forte e constante, e percebi que a criatura dos meus pesadelos não havia me abandonado no mundo do inconsciente e agora aproximava-se lentamente de mim. E eu ali, sem poder pedir ajuda, sem poder me defender...
Ouvia a água estalar enquanto a criatura andava e percebi quando parou, bem próximo de onde eu estava. Senti o ar quente e um forte cheiro de ovo podre que saia de suas narinas enquanto farejava-me dos pés à cabeça. Não chegou a tocar-me, mas pelo forte som que fazia ao respirar pesadamente imagino que ficara a poucos centímetros de mim.
Depois disso desfaleci e não faço a mínima ideia do que pode ter acontecido depois. Quando voltei a mim, estava caído ao lado de uma poça d’água, a chuva já havia parado. Levantei-me vagarosamente olhando de um lado para outro, mas sem encontrar nada de comprometedor. Estava confuso e quase não acreditava no que tinha acontecido.
           A cidade continuava deserta e silenciosa como antes, e parecia que realmente nada de estranho havia acontecido. A lua estava alta no céu e as estrelas brilhavam fortemente, como se não houvesse chovido. Mas a terra molhada mostrava-me que havia chovido sim, mas que parara há um bom tempo. Dei alguns passos sacudindo a lama da minha roupa e percebi que havia uma garrafa de cerveja vazia no local onde eu estava caído. Distraído com isso tropecei num buraco e cai de volta ao chão. Comecei a rir de mim mesmo e do meu descuido. Mas o meu riso transformou-se num gemido melancólico que morreu na minha garganta quando vi, ao tirar o pé do buraco, que para minha desgraça havia tropeçado dentro de uma enorme pegada, incrustada na piçarra endurecida. Parecia ser a pegada de algum cachorro e seria se não fosse por uma estranha peculiaridade, pois em nenhum lugar do mundo haveria um cachorro que deixasse uma pegada daquele tamanho... Uma pegada que era monstruosamente maior do que a minha mão aberta.