A ESTRADA {ELIAS ABNER}



Um fato sobre mim: nunca fui um homem de medos. Vi – ou ouvi – pouca coisa nessa minha vida que me fez experimentar tão infantil sentimento. Medo. Pra mim sempre foi coisa de crianças, ou de mulheres. Sim, porque nosso pai não aceitava que filho homem seu borrasse as calças por qualquer coisinha... Por isso dormíamos todos no escuro, sempre; e, no escuro, eu apertava bem os olhos na inútil tentativa de não enxergar a escuridão reinante para além das minhas pálpebras. Pro nosso pai, homem tinha que aguentar firme, sempre, acontecesse o que acontecesse. Talvez por isso o que vou relatar agora eu tenha guardado há alguns anos, com receio de abalar a minha reputação de homem destemido cultivada – ou melhor, imposta – ao longo desses quase cinquenta anos.
Eram quase cinco e meia da manhã quando o ônibus encostou na beira da rodovia e desci apenas com uma mochila nas costas. Ainda estava bastante escuro, e, fora o ônibus que se distanciava, não havia qualquer movimento, ou sinal de vida. Estava sozinho. Arrumei os óculos e encaminhei-me para um pequeno abrigo improvisado ao lado da rodovia, estrategicamente erguido na confluência entre a rodovia e uma estrada de terra, formando um pequeno trevo. Sentei-me num tosco banco de madeira. O telhado de palha há muito gasto deixava que aqui e ali se visualizasse partes do céu estrelado. E ali, sozinho no meio do nada, esperei por um mototáxi. A rodovia seguia direto para o litoral, cerca de trinta quilômetros; mas o local para onde eu iria ficava a quase 15 quilômetros por aquela estrada de terra, sem qualquer iluminação. Estava sentado de costas para ela, virei-me; até onde pude ver, a estrada seguia quase em linha reta e depois fazia uma curva, desaparecendo por trás de um denso arvoredo.
O que é que estou fazendo aqui?, perguntei-me consultando o relógio apenas para constatar que o ponteiro parecia estar tão cansado quanto eu. Fechei os olhos e passei as mãos no rosto para espantar o sono.
Havia sido convocado para ser mesário naquelas eleições justamente para aquele lugar, cujo nome – mesmo agora – não gosto nem de mencionar e do qual sequer ouvira falar. Pelas informações que colhi antes de viajar, soube que a tal vila, de pouco mais de 40 casas, era bem pacata, com um igarapé imenso pelo qual era possível até navegar num pequeno barco. Por conta disso havia me animado em ir pra lá. Todavia, nas atuais condições em que me encontrava, sozinho naquele lugar, comecei a repensar na loucura em que havia me metido. Pensei em Amanda e em Julia, nossa filhinha de dois anos apenas, seguras no nosso apartamento minúsculo, muito provavelmente dormindo àquela hora. Olhei pro céu estrelado. Fiz um sinal da cruz na altura do peito. E esperei. 
Passado um tempo, ouvi um barulho em direção à estrada de terra. Olhei de imediato por cima do ombro. Um homem, aparentava ser idoso, vinha caminhando. Na hora fiquei receoso, confesso. Mas o homem vinha a passos lentos, e parecia inofensivo. Deu bom dia.
— Bom dia — respondi, mesmo tendo plena certeza que ainda era noite.
O homem se sentou em outro banco à minha frente, o rosto meio oculto nas sombras.
Ele não cheirava nada bem. Imaginei que deveria ser algum mendigo, ou um andarilho, comuns nessas estradas. Mas ele falou que estava indo pra cidade, receber sua aposentadoria. Assim, presumi que o fedor deveria ser por falta de asseio, ou causado pelo esforço de andar os 15 quilômetros, pois dissera vir da tal vila para a qual eu estava me dirigindo.
— O senhor não tem medo de andar sozinho, uma hora dessas, por uma estrada escura assim?
Ele passou a mão no pescoço, como se alguma coisa lhe comprimisse a garganta. Tossiu.
— Medo... — disse depois de cuspir no chão. — Já tive, mas hoje não...
Fiquei calado.
— O senhor não é daqui não, né? — Ele perguntou. — Não tem medo de ficar aqui sozinho?
Mexi-me no banco.
— Tô aqui a trabalho... — respondi. — E pra falar a verdade, não tenho medo não; tenho receio, já que não conheço essas bandas... mas medo não. Aliás, nunca tive medo, de nada.
Ele pigarreou e uma lufada de vento trouxe aquele nada agradável cheiro direto às minhas narinas. Virei o rosto tentando disfarçar.
— Ah, se o senhor morasse pra cá ia pensar diferente...
Fiquei interessado.
— Como assim?
— Essa estrada, meu rapaz, não é fácil... Não é pra qualquer um não.
Olhei pra estrada.
— Mas porquê? — quis saber.
— Antigamente, antes de chegar pra cá esses carros e moto-sei-lá-o-quê, o povo só vinha em grupo de dez ou mais, geralmente nessa hora da manhã pra pegar o ônibus que acabou de passar... Tudo indo pra cidade fazer compra, receber pagamento, essas coisa...
— Mas porquê em grupo, tinha muito bandido por essas bandas?
O velho riu.
— Bandido? Nem bandido se atrevia a andar por aqui, seu moço...
Engoli. Olhei novamente para a estrada. Ele continuou:
— Eram outras... “coisas” — fez as aspas com os dedos —, entende?
Balancei a cabeça. Não entendia.
— Visagem, assombração, essas coisa, entende?
Eu não entendia. Ridículo ele falar uma coisa dessas.
— Besteira, isso não existe — disse rindo. Só podei ser coisa de interior mesmo...
— O senhor fala isso porque não passou pelo que eu passei... — o velho disse, passando a mão novamente na garganta.
Recostou-se no banco.
— Numa vez fiquei foi aperreado nessa estrada aí...
Com a curiosidade aumentando, apoiei o queixo nas mãos. O velho continuou:
— ... O pessoal sempre saía às sexta-feira, lá pelas quatro da madrugada. Mas eu tinha uma consulta na quinta, não dava pra faltar. Então tive que vir de lá sozinho, aliás, só eu e Deus, umas três e meia da madrugada, já pensou? Mas eu já tinha feito isso outras vez, não tinha nada a temer. Era o que eu esperava... — o homem tossiu e cuspiu no chão, depois limpou a garganta. — E tava eu andando tranquilamente, assim, sabe, um pouco apreensivo mas tranquilo; até que já quase na metade do caminho, passando o velho cemitério que fica perto do rio Mearim, o senhor conhece o rio Mearim? — fiz que não com a cabeça — Ah é, o senhor não é daqui... Pois então, passando o cemitério tive a impressão de que de dentro do mato alguma coisa me observava...
Me endireitei no banco.
— Sabe a sensação de que tão te observado? — não respondi. — Pois eu podia jurar, seu moço, que eu tava sendo observado. Mas eu era corajoso, como o senhor; não me intimidei, não, nem corri nem nada. Primeiro que estava no meio do trajeto, longe lá da vila e aqui da parada. Se corresse, seria ruim; se ficasse, né... Resolvi ficar, aliás, continuar a viagem. Poderia ser algum animal, uma onça, muito comum naquele tempo... Era uma noite estrelada como esta e a lua tava alta no céu. Conseguia enxergar bastante a estrada à minha frente por que naquele tempo era de areia, e não de piçarra como agora... Lá do mato, um farfalhar indicava que alguma coisa, além de me observar, parecia que tava me seguindo. Fiz o sinal da cruz e continuei o meu caminho. De repente alguma coisa foi jogada do mato até à estrada. A coisa que eu não fazia ideia do que era caiu a alguns metros na minha frente. Ah, seu moço, na hora um arrepio levantou os cabelos da minha nuca! Eu era corajoso, te juro, mas quem disse que olhei pra’quela coisa? Tava louco! Olhei não! Custasse o que custasse, eu não ia olhar, mas jeito maneira... Não mesmo! Mas ia ter que olhar, né, já que tava no meu caminho. Segui a diante. Tentei olhar pra frente, pro fim da estrada. Não deu. À medida que me aproximava os olhos eram atraídos para aquela “coisa” ali, sei lá, coisa do cão! A uns dois metros não aguentei mais e baixei os olhos... Sabe o que era, seu moço? — percebi que havia segurado a respiração. — Era uma mão, uma mão de gente, assim, ó, com os dedo e tudo!
— Uma mão? — percebi minha voz um tanto embargada.
O homem fez que sim com a cabeça, passando a mão na garganta mais uma vez.
— Uma mão! Pense num desespero que me deu. As perna começaram a tremer que nem vara verde na correnteza, a cabeça pareceu ficar des’tamanho, inchando que nem balão... Segui, andando bem mais apressado. Pra minha desgraça, seu moço, mais à frente outra coisa foi jogada. E sabe o que era? Uma perna! E assim foi. Um braço, um pé, uma coxa... Eu só ia desviando, olhando de canto do olho, já quase correndo. E sabe o que é pior? Eu não olhei pra traz nenhuma vez, mas tinha a certeza de que o corpo tava se montando...
Não apenas os meus olhos estavam arregalados, mas a minha respiração estava levemente alterada; uma estranha atmosfera pareceu baixar naquele momento.
— Só faltava uma coisa — o velho continuou —: a cabeça... Fiz várias orações em pensamento, o sinal da cruz... Então, mais na frente... a cabeça caiu. Caiu assim, com um baque abafado, molhado de sangue, parece... E ela veio rolando, rolando, e parou na minha frente, nos meus pé. Eu parei com o susto, quase caí. Arregalei os olho; a respiração assim, ó, entrecortada. A cabeça mantinha os olho fechado, a boca contorcida numa expressão de dor, sei lá, crueldade aquilo. Não quis olhar pro mato pra ver se alguém, ou alguma coisa, tava mesmo lá, me observando, seguindo; fiquei imaginando que ia ter o mesmo destino... Foi então que ouvi o barulho de passos atrás de mim. Ah, seu moço... eu fechei os olhos, temendo olhar pra ver quem ou o que era. Então o barulho parou. Voltei a abrir os olhos. Eu estava tremendo! Olhei novamente pra cabeça no chão. Seus olhos tavam abertos, e piscando, seu moço!, pra mim! Foi quando uma mão tocou no meu ombro...  
Eu estava simplesmente paralisado. Sem qualquer reação.
— M-mas o que acontece-ceu? — perguntei, e um arrepio subiu pela espinha, parando na nuca.
O homem passou a mão na garganta. Tossiu.
— O que aconteceu? — escarrou e cuspiu. — E eu corri; corri com toda a força que ainda me restava!
O homem se calou e abaixou a cabeça. Eu também resolvi ficar calado, impressionado que estava com aquele relato.
— Já tinha ouvido sobre essa aparição — o homem voltou a falar e eu levei um baita susto —, mas nunca tinha dado crédito. Diziam que era o fantasma de um senhor que foi brutalmente assassinado naquela estrada e esquartejado...
Meus olhos continuavam arregalados.
— Já imaginou o senhor nessa situação? — ele perguntou.
— Nunca... — respondi apreensivo, mas não querendo parecer medroso. — Mas mesmo assim isso foi há muito tempo, não é? Hoje em dia as coisas mudaram...
— Verdade... — ele respondeu pensativo. — Mas tem coisas que não mudam assim, tão rápido...
O homem abaixou a cabeça e começou a coçar freneticamente o pescoço. Senti uma sensação estranha, como se estivesse sendo observado por todos os lados... Uma atmosfera pesada caiu. O céu não estava tão estrelado como antes, e a escuridão ali parecia quase palpável... Olhei pro homem e me deu pena. Ele continuava a coçar a garganta de cabeça baixa, os gestos mais lentos, bem mais lentos, como em câmera lenta. Quando levantou a cabeça notei, pelo facho tênue de uma luz que passou por um dos rasgos da cobertura, que o seu rosto se contorcia penosamente, e havia um pequeno corte em seu pescoço, logo abaixo do pomo de Adão. O homem levantou mais a cabeça e um esguicho de sangue saiu do corte. Meu olhos se arregalaram mais ainda, como se fosse possível. A cada movimento, o corte se abria mais e mais, o sangue esguichando em abundância. A primeira ideia que me veio à mente foi correr. Mas me vi paralisado. Não conseguia articular palavra alguma. O rosto do homem se contorcendo em agonia... Até que a cabeça dele tombou de lado, e, como se fosse puxada, veio rolando até os meus pés. O corpo inteiro se fez em pedaços e um fedor insuportável infestou o local. Gritei, e apenas um som abafado, gutural, saiu da minha garganta. Meus movimentos também pareciam estar em câmera lenta, como se cada articulação rangesse, estralando os ossos. Caí do banco. De costas, fui me arrastando penosamente sem saber o que fazer ou pra onde ir enquanto via os pedaços do corpo começarem a procurar seus pares, um zumbido no ar, como dezenas de vozes distantes falando coisas incompreensíveis... Era o meu fim! O que quer que fosse acontecer eu tinha certeza que não sairia vivo. Pensei em Amanda e Julia: meu coração ficou apertado. Pensei no meu pai. A coragem dele em nada me serviria naquele momento... Os olhos do homem se reviravam nas órbitas fundas, as mãos aracnídeas se arrastando em minha direção... Eu me arrastando de costas sem conseguir pensar em mais nada que não fosse sair dali. Mas seria impossível. Tentei gritar por ajuda mais uma vez e só um monte de baba caiu da minha boca escancarada, minha língua parecia ter aumentado quase um metro e eu não conseguia mantê-la dentro da boca... E o corpo já quase totalmente montado... Faltava apenas um braço que se contorcia em minha direção pelo chão e a cabeça cujos olhos estavam cravados em mim e cuja boca sussurrava coisas que eu não entendia... O corpo veio se arrastando em minha direção... Eu me arrastando tentando inutilmente fugir... Foi então que uma forte luz brilhou às minhas costas e eu me virei imaginando o sol nascendo. Minha visão foi ofuscada e fechei os olhos. Ouvi o barulho de um motor se aproximando. Abri os olhos embaçados pela falta dos óculos – caído em algum lugar. Um vulto de camisa amarela encostou e desligou os faróis da moto.
— Bom dia, patrão, esperando corrida?
Eu não conseguia falar. Não conseguia nem me levantar. Virei-me desesperadamente para ver o corpo, mas ele havia sumido.

O mototaxista apenas riu e me ajudou a levantar.

O TEMPO {MAURO LOPES LEAL*}


O arcebispo da cidade de B., como de costume, abençoou a multidão de fieis, assinalando o fim da cerimônia. Recebeu, como de praxe, parabenizações pelas belas palavras de ânimo com as quais costumava adornar a sua homilia. Após alguns apertos de mão e uma dezena de fotos, retirou-se para descansar na imensa casa que ficava aos fundos da igreja. Estava exausto e havia dado orientações de que não queria mais ser importunado. Sua secretária, uma velhinha de uns sessenta anos, inclinou a cabeça.
O religioso, já no seu quarto, trocou de roupa, tomou um demorado banho. Enquanto se enxugava, refletia sobre a possibilidade de ainda jantar outra vez, mas o pernil não estava do seu agrado, o que rendeu momentos de aborrecimento para si horas antes. Odiava alimentar-se mal, pois seu humor tornava-se instável nesses momentos e, por vezes, até mesmo grosseiro para com as demais pessoas, algo que não era do seu agrado, mas culpava seu organismo por semelhante comportamento. Olhou no relógio, era quase meia noite. Achou melhor não comer nada, pois poderia ter pesadelos durante a noite, outra coisa que o aborrecia constantemente. Apreciava noites de sono calmas e revigorantes, principalmente as de chuva.
Ajoelhou-se, como de costume, diante de um ícone e começou a rezar. Enquanto repetia maquinalmente as orações, lembrou-se de que havia esquecido de mandar comprarem cigarros. Tinha dois na sua carteira, o que era quase desastroso, pois costumava acordar de madrugada para fumar, coisa que fazia duas ou três vezes durante a noite. “Ave-maria, cheia de graça...”. Escutou atrás de si uma forte respiração. Assustou-se e o ar faltou-lhe aos pulmões momentaneamente. Engoliu seco. Voltou-se abruptamente. A um canto do quarto, sentado em uma das três poltronas de couro, um idoso, vestido elegantemente, fitava-o com avidez. “Boa noite, senhor arcebispo”. Sua voz era grave, mas pausada, como se não tivesse pressa alguma em se expressar. Saudou o religioso com um gesto positivo de cabeça.
O religioso, com o olhar fixo no estranho que ocupava seu quarto, ergueu-se de forma impressionante, em um movimento brusco que não condizia com o seu avantajado porte físico e ventre protuberante. “O que queres? Dinheiro? Jóias?”. Sua voz, apesar de firme, traia-o com um leve tremor. O outro cruzou as pernas e exibiu um elegante par de sapatos pretos. Retirou do bolso um charuto, cheirou-o com parcimônia. “O que eu quero? Pergunta curiosa. Eu quero aquilo que é meu”.  Apanhou ao lado da poltrona uma magnífica pasta, abriu-a e retirou de dentro um papel bastante envelhecido. Agitou-o no ar.
“Isso é... é impossível! Algo deve estar errado. A data... há algum equívoco, certamente”. O estranho ancião sorriu. Passou, na vasta cabeleira grisalha, a cumprida mão, cujos dedos estavam adornados com anéis de ouro e prata. Acendeu seu charuto e deu duas baforadas, em seguida percorreu o quarto com o olhar. Fitou o teto, o chão de mármore, os quadros, a rica mobília. Chamou sua atenção o crucifixo de ouro acima da cabeceira da cama do arcebispo. Pigarreou, como se preparando para dizer alguma coisa, mas continuou em silêncio, olhando em torno, como que procurando algo que não saberia dizer com precisão. Em seus gestos havia nobreza e altivez autênticas, e nada em si parecia desnecessário, como se tudo em sua pessoa fosse imprescindível.
“A questão é o tempo, senhor arcebispo. O tempo é eterno inimigo do homem, não eu. Reflita comigo: ao serem concebidos, os homens iniciam uma interminável disputa contra o tempo, que por sua vez é inflexível, pois avança, poderoso, indiferente às colunas majestosas do Partenon ou aos traços sublimes e melancólicos da Pietá. É essa impiedosa postura do tempo, por assim dizer, que angustia o homem, este, por seu turno, torna-se, sem perceber, escravo desse tempo. Na luxuriante vida ou no remexer das latas de lixo, o homem vive, ou sobrevive, sob o estigma da finitude da existência. Sabendo que sua efetividade no mundo é breve, um sopro, ele quer desfrutar, ao máximo das potencialidades, tudo aquilo que é bom, belo ou prazeroso, não importa o que seja preciso fazer para alcançar semelhantes... doçuras. Há os que corrompem, os que matam, os que furtam, mas, pessoalmente, eis aqui um segredo meu que confesso com certo pudor, mas também ironia, prefiro aqueles que, em nome de um entidade superior, nutrem-se da fé alheia para a satisfação de desejos, digamos, particulares. Não estou aqui para julgar ninguém, o senhor bem sabe, na verdade incentivo esse desejo insaciável do homem em desfrutar daquilo que lhe é natural, o que me torna, em muitos casos, uma figura injustiçada. Sim, eis o termo exato, uma vez que, o senhor há de concordar comigo, nada sou além de um simples mensageiro. Se o homem não fosse um ser de veleidades exacerbadas e infindas, certamente eu não estaria aqui, minha existência seria nula”. O ancião parou para dar mais uma baforada em seu charuto, para em seguida repousá-lo com bastante calma em um cinzeiro próximo.
“Contudo, apesar de meu apreço ao homem, estou aqui na condição de executor, não, esse é um termo robusto demais. Digamos que sou um atravessador, uma espécie de barqueiro, um tipo singular de Caronte, bem mais alinhado”. Com gestos vivos, o ancião arrumou a gola da sobrecasaca. “Mas veja, o relógio na parede marca meia noite em ponto. Hoje, portanto, é 05 de janeiro de 1998. Logo, conforme este papel, deixe-me confirmar de novo, sim exato, conforme este documento, o senhor arcebispo deve acompanhar-me...”.
Diante daquelas palavras, o eclesiástico foi tomado por uma postura combativa. Armou-se com algum dos objetos religiosos que adornavam o seu quarto e apontou-o para o outro. “Espírito imundo” bradou com fúria “ordeno-te que retornes às abissais entranhas das quais surgistes!” Destemido, avançou. Em seu olhar havia uma espécie de esperança desesperada. Sabia que muita coisa estava sendo decidida ali, na sua alcova e que provavelmente a sua própria vida estava em jogo. Muitas coisas passavam pela sua mente, lembranças terríveis, mas não havia tempo para arrependimentos. Uma luta estava sendo travada e ele não podia esmorecer. Bradou outra vez as palavras anteriores, com mais ênfase e firmeza.
Ouviu-se uma forte e inumana gargalhada que ecoou por toda a casa. Os cães da vizinhança começaram a latir. No andar de baixo, ouviram-se rumores, talvez a velha secretária tenha acordado.
“Não me tome por um dos seus seguidores, homenzinho”. O ancião ergueu-se lentamente e só então percebeu-se o quanto ele era alto e corpulento. Com passos precisos, caminhou em direção ao arcebispo. Seu rosto ia desfigurando-se aos poucos, ao ponto de, após alguns instantes, tornar-se completamente horrendo. “O seu tempo, senhor arcebispo, extinguiu-se. Como eu sei disso? Eu sou o tempo!”. Uma grande sombra nasceu das costas do monstruoso ser e avançou sobre o religioso, adentrando-lhe pelas narinas, ouvidos, boca. O pobre homem debatia-se, sentindo um frio intenso invadir violentamente seu corpo. Um vazio extremo preenchia sua alma. Tentou ainda pronunciar alguma coisa, mas era impossível. Já não era mais senhor de si e tudo o que podia fazer era testemunhar a sua absoluta corrupção física e espiritual enquanto que, diante dos seus olhos, homens desesperançosos, mulheres desesperadas, crianças maltrapilhas, esqueléticas, enfermas, dançavam em um movimentar freneticamente convulsivo. Quem eram? O arcebispo sabia quem eram cada uma delas, reconheceu-as e, se não fosse a intensa dor que sentia, teria chorado. 

            A velha secretária bateu à porta do quarto. “Senhor arcebispo?”. Forçou-a. Chamou mais duas vezes e obteve como resposta um grito humano, intenso inicialmente, depois como que sumindo para regiões remotas. Procurando com dificuldades a chave certa em um molho grosso, a pobre mulher abriu, trêmula, a porta, para encontrar o quarto vazio e com um forte cheiro que lembrava cigarros, mas mais forte.

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* Mauro Lopes Leal

Natural de Belém do Pará, é graduado em Filosofia e Letras, especializando-se em Estudos Linguísticos e Análise literária pela UEPA, bem como o mestrado em Letras pela UFPA. Seus estudos acadêmicos abordam especificamente os autores russos, trabalhando a relação entre filosofia e literatura. 

A ARANHA {SAMANTHA DE SOUSA}



         Sentei-me sozinha e em silêncio. Todos dormiam e ao meu lado, alguns livros de linguagem estranha e uma caneca de café. Eu ainda tentava me organizar por dentro, um redemoinho de pensamentos provocava um caos em minha mente. O tempo se rastejava paradoxalmente, em pouco tempo muitas horas já se passaram. Eu continuava sentada e em silêncio, não tocara em um único livro. Uma sombra negra se movimenta na parede à minha frente, olho fixamente para ela e não sinto medo.
Levo a caneca à boca, mas o café já esfriou, eu sinto náuseas e cuspo o café de volta na caneca. Minha boca fica amarga e rançosa. A sombra se movimenta e parece crescer, ela caminha, descendo a parede até o vão da porta. Oito patas finas e longas. A criatura se precipita num salto e fica suspensa num fio de teia. Devagar, suas patas vão se enlaçando no fio e ela sobe, balançando-se na passagem. Eu não posso me mover. Fico observando aquele ser tecendo seu ninho na única saída do quarto em que eu estava.
A cada fio armado, a aranha se tornava maior e a teia ficava mais densa para sustentar seu peso. Até então, já teria se passado ¼ de hora ou ¼ de século e quase toda a passagem já estava bloqueada pela teia. Era uma teia branca, de aparência pegajosa. A criatura não cansava, parecia se tornar mais forte a cada fio lançado e trançado. Aos poucos, minha vista se tornava turva. Aos poucos, só o que eu podia ver era aquele vulto negro se contorcendo numa tapeçaria branca.
Minha respiração ficava pesada e uma espécie de torpor me dominava. Aranhas tecem teias para capturar seu alimento, eu era a presa e estava aprisionada sem ao menos tocar a armadilha. Eu estava aprisionada naquela estranha coreografia. Levantei-me forçosamente, com um movimento brusco e desatento derrubei a caneca, o café se espalhou sobre o chão e sobre os livros que também caíram, o som da louça e estilhaçando soou como uma perfuração em meus ouvidos. Despertei momentaneamente daquele quase-sonambulismo. Meus olhos foram sugados pelos olhos da aranha, ali, na minha frente: oito olhos imensos de um negro espelhado, em cada um deles eu via a imagem do meu rosto, era um rosto envelhecido, irreconhecível. Olhos fundos, pele ressecada e enrijecida, boca pálida, aquele rosto parecia ruínas de um tempo que eu nunca vivi.
Presa aos olhos da criatura, nem percebi que ela preparava o ataque: a presa esta pronta para ser devorada. Senti apenas o peso do corpo dela se abatendo contra o meu, minha vista escureceu instantaneamente. Contudo, foi como um piscar de olhos, um breve e pesado pisar de olhos. Quando os abri, ainda meio tonta e desequilibrada pelo ataque, não havia mais nada no quarto, nem teia, nem aranha. Tudo permanecia silencioso. Apoiei-me sobre a penteadeira ao meu lado e me olhei no espelho, a luz era fraca, mas eu podia ver: meu rosto ainda era o mesmo, mas em cada um dos meus olhos havia uma aranha negra tecendo uma teia de fios brancos.

ZONA MORTA II {SAMANTHA DE SOUSA}





Era noite. Nem cedo, nem tarde. Era uma noite quente. Os dois desciam a avenida depois de um breve passeio. Paulo falava freneticamente, Júlia ouvia sorrindo, vez ou outra concordando. Paulo segurava no ombro de Júlia com uma mão e com a outra balançava o chaveiro, estavam próximos de casa. Subitamente um vento frio passa e um silêncio abafa a voz de Paulo, todas as luzes se apagam. A escuridão era opaca, Júlia não pode enxergar e já não sente a mão de Paulo sobre seu ombro. Tudo se tornou silêncio naquela densa escuridão. Júlia sente os pelos se eriçarem com o frio e não consegue se mover. Ela sussurra o nome de Paulo, e a sua voz ecoa naquele vazio. Júlia não consegue enxergar absolutamente nada ao seu redor. Um desespero vai crescendo dentro dela. Ela corre, precisa fugir, precisa encontrar Paulo. Júlia corre até sentir vertigens. Após a breve tontura, a escuridão vai se tornando menos densa, consegue, então, enxergar alguns contornos e movimentos. Júlia não saíra do lugar onde estava quando aquilo começou. Com os olhos apertados para enxergar naquele breu, que mesmo um tanto dissipado, ainda era pouco ou quase nada nítido, Júlia diferencia entre as árvores, a meia distância de si, um movimento. Novamente ela chama por Paulo, mas ninguém responde.  O vulto andava pesadamente, não reagia ao seu chamado. Ela começou a caminhar ao seu encontro, mas por mais que andasse a distância não se consumia, embora ele também caminhasse em sua direção. Respirava com dificuldade, o frio se intensificara. Sem que percebesse, o vulto desaparecera, olhou ao redor, não havia ninguém. Precisava voltar para casa, estava perto. A chave? Levou a mão ao bolso e a mesma chave que Paulo sacudia em sua mão estava lá dentro. Voltaria para casa. Entretanto, ao tentar se mover, sentiu como se os ossos de suas pernas estivesse se partindo, era uma dor excruciante. Ao abrir os olhos marejados de lágrimas, viu rente a si aquele mesmo vulto. Parecia uma sombra, entre o nebuloso e o sólido. Não distinguia nele uma face, seu rosto era feito de várias faces em confusão. A criatura abria a boca e várias vozes gritavam lá de dentro. Júlia não conseguia se mover nem respirar. A criatura colocou sua mão sobre o rosto de Júlia. O toque daquela mão era extremamente gelado. Júlia sentiu alguma coisa se desfazendo dentro dela. Tudo se tornou branco. Infinitamente branco.
***
Era noite. Nem cedo, nem tarde. Era uma noite quente. Os dois desciam a avenida depois de um breve passeio. Paulo falava freneticamente, Júlia ouvia sorrindo, vez ou outra concordando. Paulo segurava no ombro de Júlia com uma mão e com a outra balançava o chaveiro, estavam próximos de casa. Subitamente um vento frio passa e um silêncio abafa os ruídos da rua, todas as luzes se apagam. A escuridão era opaca, Paulo não pode enxergar e já não sente Júlia ao seu lado.

4 FOLHAS SOLTAS {RAPHAEL SOARES}

Gravura de Gustave Doré


Sua captura foi pacífica. Já éramos aguardados. Em sua casa encontramos catorze carteiras de identidade, doze delas pertenciam a mulheres adultas, mas duas eram de meninas de onze e doze anos, respectivamente. Falta confirmar se todas as identidades batem com as vítimas identificadas, e se há vítimas que ainda não foram identificadas entre elas. Após vasculhar toda a casa encontramos apenas essas quatro folhas. Os cadernos originais foram destruídos ou estão escondidos. Não há razão para crer que essas folhas foram escolhidas por motivo especial: o caderno original delas provavelmente era pequeno, de 96 folhas, de cor preta e com a brochura costurada (como outros três cadernos encontrados em branco na residência). Podem ter caído devido as folhas do lado oposto terem sido arrancadas, pois as encontramos separadas e em lugares que não aparentam ter sido propositalmente escondidas. Enviamos na ordem que nos pareceu mais lógica, mas não sabemos se pertenciam ao mesmo caderno ou a cadernos diferentes. Como se pode ver, os versos estão em branco. Todas as evidências estão sendo encaminhadas junto com estas quatro folhas e o nosso relatório final.


 Fonte usada: Honey Script, by Dieter Steffmann

ESTOU AQUI {GIROTTO BRITO}


Acordei na madrugada com um gosto adocicado na boca. Tateei no escuro à procura do interruptor, mas por algum motivo meu abajur não estava onde deveria estar. Levantei no escuro e fui caminhando com cuidado para não esbarrar nos móveis, arrastando os pés descalços no piso frio, mas não esbarrei em nada: estranhamente parecia só haver a cama no quarto. Uma dor no peito se misturava ao sono e a uma confusão mental de quem começava a se perguntar se aquele era realmente seu quarto. Sim, era o meu quarto! Descobri quando cheguei à parede oposta e meus dedos encontraram o interruptor no lugar onde sempre esteve. O alívio que senti, no entanto, foi seguido pelo desânimo ao perceber que não havia energia em casa.
Abri a porta e fui descendo a escada para pegar velas na cozinha. Ali, na escada, um pouco da luz lunar que entrava pela vidraça do hall clareava timidamente os degraus, o suficiente para não precisar me apoiar no corrimão enquanto descia.
Um desconforto começava a me incomodar, um aperto no peito sem razão aparente e o gosto estranho e doce na boca que não passava. Sempre guardava as velas no mesmo lugar, em cima da geladeira, do lado do liquidificador. Desci a escada e, conforme ia me aproximando da cozinha o feixe de luz ia enfraquecendo e a escuridão tomava novamente conta de todo o ambiente. Era uma noite quente, lembro bem, o suor escorria em minha face e estava ofegante, não sei se pelo calor ou pelo pavor que ia crescendo em mim a cada passo. Quando cheguei finalmente na cozinha, um susto. Meus pelos arrepiaram-se quando tentei alcançar a geladeira e minhas mãos flutuaram diante de mim sem nada tocar — ela não estava lá! Continuei andando pelo cômodo a tatear pelas paredes, mas não havia nada. Geladeira, fogão, mesa, armários, tudo havia desaparecido! A cozinha estava vazia!
Minha respiração ficou ainda mais ofegante e um sentimento aterrorizador me perturbava. Devia estar enlouquecendo, ou era apenas um pesadelo, tinha que ser um pesadelo. Voltei para a escada e comecei a subir com pressa. O banheiro devia estar iluminado pela janela, assim como hall, e lá tinha uma lanterna. Aos tropeços cheguei ao andar superior e entrei no banheiro. Aparentemente estava tudo normal e era possível enxergar relativamente bem lá dentro. Procurei a lanterna no armário lateral, mas estava vazio. Abri todas as gavetas e estavam completamente limpas. O suor ia encharcando minha camisa e a dor no meu peito aumentava a cada suspiro. Quando passei em frente ao espelho, mesmo no breu, notei algo diferente no meu rosto. Fui aproximando lentamente, ajustando a visão à penumbra do ambiente quando, ao reparar meu rosto, um frio cortante pareceu penetrar-me, como estaca nos ossos. Empalideci de horror ao ver o sangue escorrendo da minha boca.
Por algum instante inconsciente fiquei ali, parado, olhando a imagem sombria de minha face expulsando aquele líquido agridoce, rubro-negro e cálido que descia por meu corpo. Eu precisava de ajuda. Não me lembrava do que tinha acontecido no dia anterior, e naquele momento acreditava ter sido dopado, agredido e roubado. Era a única explicação para o sumiço dos móveis, para aquele sangue e a amnésia súbita. Eu precisava reagir, pedir socorro, gritar aos vizinhos, fazer alguma coisa, mas percebi então que não seria possível. Meus pés não se moviam, meus braços não reagiam e em meu rosto havia apenas uma expressão tenebrosa que eu não conseguia desfazer. Eu estava lá, de frente para minha imagem. Olhos vidrados. Eu estava lá, mas não mais era o dono de mim.
Aqui dentro, onde existo, no âmago do que sou, fui testemunha de tudo o que aconteceu. Vi com meus próprios olhos, embora não os pudesse controlar, meu braço direito se erguer contra minha vontade. Meu indicador tocou levemente o canto da minha boca, colhendo uma porção de sangue ainda não coagulado e em seguida começou a escrever no espelho com meu próprio sangue palavras que a penumbra não me permitiu decifrar. Não era eu, sei que não era. Escrevo com a esquerda.


Acordei assustado, a luz do sol incomodava meu rosto. Ainda com a visão embaçada comecei a olhar ao redor. Estava tudo lá. Abajur, guarda-roupas, escrivaninha. Levantei cambaleante e passei a mão no rosto à procura do sangue. Nada! Meu rosto estava limpo, não sentia mais o gosto do sangue em minha boca e nem a dor no meu peito. Corri, desci a escada e fui até a cozinha: tudo normal! Como sempre esteve. Senti um imenso alívio.
Subi a escada novamente e fui me arrumar para o trabalho. Estava impressionado com o quanto o pesadelo havia sido real e a lembrança do que havia sonhado ficava borbulhando em minha cabeça. Fora tudo tão absurdamente real, a dor, as sensações, a visão, que não compreendia como tinha sido apenas um sonho. “O imaginário nos prega peças”, pensei com um sorriso tímido e aliviado nos lábios. Dessa vez, no entanto, eu estava enganado. Até hoje não sei dizer o que foi real e o que foi imaginação, o que sei é que ao entrar no banheiro naquela manhã, encontrei meu espelho rabiscado com meu sangue. E o que não foi possível ler na escuridão da madrugada, estava perfeitamente legível ali aos meus olhos: “Estou aqui”.


A MARCA DE CAIM {RAPHAEL SOARES}


Gravura de Gustave Doré

Eu era jovem quando o conheci. Da minha juventude inteira quase nada persiste na memória, mas lembro muito bem de tudo o que se refere a ele, embora todos me digam que tudo o que permanece na minha lembrança é mera fantasia, normal para a idade que tinha quando tudo se passou. Normal que todos que tenham “sã sua consciência” pensem assim.
Seu nome era Samuel, aparentava ser uns três a cinco anos mais velho que eu, que à época tinha doze anos. Podia, no entanto, ser bem mais velho que isso. Estava atrasado na escola, porém não possuía indícios de baixo desempenho. Ninguém nunca havia falado de seus pais, provavelmente não viviam mais, mas o deixaram em boa condição financeira. Morava no velho casarão na saída da cidade. Isso era tudo o que soube dele, e se alguém sabia algo a mais, duvido que fosse muito.
Acabara de trocar de escola, onde o conheci. Eu vinha da escola pública, e fiz o processo de seleção de bolsas para a escola particular de meu bairro. Fui o último colocado contemplado com a bolsa integral, o que foi para mim uma grande sorte: talvez meu pai não tivesse condições de pagar a metade da escola, tendo sido grande a dificuldade de arcar com o custo do material escolar, que não era barato.
No primeiro dia de aula notei-o imediatamente. Era escandalosamente invisível, de modo que prendia minha atenção. Ninguém mais o notava, ao que parece se habituaram a tê-lo como um apêndice no canto esquerdo da sala. Não falava com ninguém nem possuía qualquer amigo, e era a única coisa em que parecia ter vontade. Não demonstrava nenhum interesse pelas aulas ou pela escola, apenas ficava em sua carteira imóvel e olhando para o horizonte. Nenhum professor fazia qualquer pergunta, nem participava de qualquer atividade de natureza dinâmica, como seminários, debates ou trabalhos em grupo; raramente lia ou abria o livro. Na primeira avaliação surpreendi-me: Samuel fechara todas as provas, compensando tudo o que não fizera durante as aulas. Pensava nele como um gênio enfadado, desperdiçando sua vida em uma série de atividades escolares mecânicas, e meu fascínio sobre ele crescia cada vez mais. Não posso dizer que não continua crescendo até hoje, depois de tanto tempo.
Fui eu quem teve a iniciativa de falar com ele, mas fui violentamente rechaçado. Samuel claramente não queria falar com ninguém; não queria ter amigos. Apesar disso eu insistia. Ele me fascinava. Algo nele o fazia diferente de todos os outros.
Com o tempo, percebi que ele desistiu de fazer questão de afastar a minha presença. Talvez tenha percebido que não importava o que fizesse não conseguiria me demover da ideia de me aproximar dele. Com o tempo passou a tolerar minha presença, embora continuasse a me ignorar completamente. Até que um dia, após o almoço – almoçávamos na escola, antes de ir para nossas casas – ele segurou minha mão, repentinamente, não me permitindo sair. Disse uma única palavra: fica. Fiquei a olhá-lo por algum tempo, sem dizer nada e sem que ele me dissesse qualquer coisa. Estava sério e aparentemente aflito: parecia ter feito algo errado e queria contar para alguém. Demorou a largar meu braço, de modo que perdi o ônibus para casa, e tive de esperar aproximadamente uma hora para o próximo. Samuel nunca mais retornou à escola depois desse dia.
Ao que parece, eu fui o único que senti sua falta no outro dia. Ao chegar em casa, preocupado que algo tenha ocorrido com Samuel ouço minha família comentar a tragédia que ocorrera no dia anterior: ônibus é assaltado, deixando quatro mortos e alguns feridos. Preocupei-me logo com meu amigo, e pedi para ver a notícia. A princípio fiquei aliviado, pois Samuel não estava listado como morto ou ferido, porém minha reação seguinte foi de espanto e terror. Era o meu ônibus, e ele sabia.

O MORCEGO {SAMANTHA DE SOUSA}


Era uma tarde de domingo quando lhe bati a porta. Recebera-me como a um filho que há muito não via, mas se mantinha recalcado pelo costume de mestre instrutor que nunca se permitiu perder. Lembro-me como ele era quando a idade não lhe transparecia: ainda andava ereto, tinha uma postura colossal que o tempo corroeu-lhe quase instantaneamente. Agora parecia mais uma assombração do meu pavor de outrora, que ousei buscar, que ouso tentar imitar.
Entrei, sentei numa das poltronas e fiquei a segurar meus joelhos quando ele se retirou. Meus olhos perambulavam por toda a sala. Nunca tinha visto paredes tão brancas, tão lisas, tão limpas, era uma perfeição angustiante, eu sentia vontade de fugir dali, daquela sala tão branca.
Meus olhos continuavam a passear, buscando, ao menos, uma mancha naquelas paredes, uma mancha pequenininha. Mas, para qualquer lugar que eu olhasse só havia aquela brancura impecável. Meus olhos desesperaram-se, eu precisava encontrar uma imperfeição para que encontrasse a perfeição de não ser perfeito. Meus olhos, então, fixaram-se num ponto, quase magneticamente, eram aqueles olhos que eu tanto evitava olhar. Aqueles olhos negros, pavorosos, que não podiam ser humanos, podiam pertencer a qualquer entidade mística, mas não a um homem. Sentia-me caindo num poço sem fundo, sentia-me tragado, sugado por aqueles olhos. Aquele corpo já não era o mesmo, mas aqueles olhos, eu nunca os esqueceria. Como podiam ser tão penetrantes, tão vivos, tão fixos, tão indecifráveis, tão abismais?
Sentou-se ao meu lado e começou a mostrar-me seus artigos literários. Ele tinha um comentário para cada um deles, há muito tempo se afastara das salas de aula, mas sua sabedoria só crescia, cada vez mais. Sua voz era, então, mais cavernosa como nunca fora antes. Sentia-me diante de um deus e nada sabia responder-lhe quando me perguntava. Sentia-me totalmente leigo perto dele, então eu ficava apenas parado, escutando-o, com as mãos trêmulas, evitando olhá-lo nos olhos.
Fizera um silêncio repentino, ficara a contemplar suas alvas paredes. Senti-lhe me observar e meus olhos fugiam cada vez mais, minha alma queria escapar-me do corpo. Levantou-se e falou-me, como uma trovejada, que iria buscar-me um chá. Senti minha alma voltando ao corpo.
Eu tentava ler alguns artigos, mas meus olhos começaram, novamente, a passear pela sala. Encontrei-a, finalmente, uma mancha nas cortinas. Tamanha foi a emoção de encontrar uma mancha em toda aquela alvura que eu sentira-me hipnotizado, estava fascinado, atraído, encantado com aquela mancha. Saltei da poltrona e fui até a cortina e novamente a angústia tomara conta de mim, a mancha tornara-se sombra, era apenas uma sombra.
Aquela angústia me envolvia cada vez mais, eu precisava de ar, precisava fugir daquele branco. Abri as cortinas, queria ver o asfalto, os postes, as casas, o céu, as árvores, a grama. Abri as cortinas e os vi, aqueles olhos negros, eram os olhos dele, mas numa figura muito mais pavorosa, toda a minha angústia de olhar aquelas paredes brancas sumia diante daquele ser infernal. Aqueles olhos tão negros, tão profundos me envolviam. Eu queria fugir, mas meus olhos estavam presos aos olhos daquela criatura. Eu olhava para ela e ela olhava para mim. Eu lutava insignificantemente contra aquele olhar que subia e descia e parou diante do meu.
Eu odeio morcego e odiava ainda mais aquele por ter aqueles olhos. Aquela criatura negra que pendia de uma teia, como uma teia de aranha. Ele estava de cabeça para baixo, com as asas abertas. Ele tecia a teia. Naquele momento fui tomado por um temor insano. Como podia haver, no mundo, outra criatura com aqueles olhos? Eu me sentia petrificado diante daquela imagem, eu queria ajoelhar-me e adorá-la, eu queria matá-la, eu queria morrer.
Os olhos do morcego continuavam fixos aos meus e senti-me envolvido por aquela teia. Como uma aranha envolve sua presa, o morcego envolvia-me com sua teia. Eu já não sentia meu corpo, eu já estava completamente envolto pela teia e caia no poço onde a criatura guardava seus mantimentos. Eu caia, caia, caia e nunca chegava ao fundo.
Escutei passos. O morcego soltava-se da teia. O professor se aproximava. Eu acordava. Tentei abrir a janela para expulsar a criatura e quando olhei para trás vi, novamente, aqueles olhos negros, mas não pertenciam àquela negra criatura alada, eram os olhos de um ser frágil e encurvado que carregava tremulamente uma bandeja. Voltei à janela e já não havia morcego, teia ou sombra naquele branco puríssimo.


A INVASÃO DAS MÁQUINAS {GIROTTO BRITO}



A cena que encontramos quando chegamos à beira da Lagoa Morgat foi de completa destruição. Do antigo galpão em construção restaram poucas paredes em pé, ferragens e máquinas se amontoavam retorcidas e ainda quentes, derramando óleo no chão de terra vermelha, revirada. Minha equipe fazia a vistoria do local à procura de sobreviventes ou, pelo menos, alguma informação relevante que pudesse nos servir. Há pouco mais de trinta horas, notícias assustadoras se espalhavam na internet sobre máquinas de guerra, em várias partes do mundo, que invadiam cidades e vilas, destruindo sem qualquer justificativa qualquer forma de vida que encontrassem pela frente. Eu mesmo cheguei a assistir alguns vídeos amadores postados na rede, que mostravam os ciborgues em verdadeiras cenas de guerra, embora a qualidade ruim dos vídeos não deixasse distinguir com exatidão como são essas máquinas. Os ataques aconteciam em vários países ao mesmo tempo e os governos convocaram as forças armadas para combater essa ameaça.
Dois dias à procura dessas máquinas e nenhum confronto direto com soldados tinha sido registrado até esse momento em nosso país. De alguma forma ainda desconhecida eles apareciam e devastavam cidades pequenas, ainda desprotegidas, mas tudo indica que dessa vez um grupo de soldados havia chegado no exato momento em que os ciborgues migravam para a cidade de Monsenhor Acan, interceptando-os no caminho, aqui, na beira da lagoa. Embora não haja corpos ou qualquer vestígio da presença de militares no local, os sinais de que houve aqui uma batalha são visíveis, e nos informaram por rádio, há vinte minutos, que uma equipe do esquadrão Centauro não retorna contato há mais de quatro horas.
— Comandante! Comandante! Venha ver o que encontramos. — gritou um soldado das ruínas do galpão.
Terminei de enviar uma mensagem ao centro de comando e fui até o local onde soldados se aglomeravam para ler um texto rabiscado numa das paredes que ficaram em pé. Escrito com uma lasca de carvão no reboco da parede de um cômodo que parecia ser um banheiro, o texto era mais que um diário, era o registro de tudo que havia acontecido ali.

Não sei o que vai acontecer em poucos minutos, mas acredito que não sairemos vivos daqui. Estamos, eu e meu irmão, abrigados nesse galpão enquanto uma batalha inimaginável acontece lá fora. Estávamos na lagoa, nadando como de costume, eu, meu irmão mais novo que ainda é um criança e alguns amigos que lá ficaram. Leandro, outro amigo, chegou e me chamou para virmos até este galpão. Atravessamos a lagoa nadando, e quando chegamos nessa margem percebemos movimentações entre as árvores, nos dois lados da água. Subitamente as árvores começaram a tombar e foram surgindo muitas máquinas, robôs, ou seja lá o que são essas coisas. Umas menores, quase do meu tamanho, outras enormes, como carros ou vãs. Eu corri para cá e me escondi no cômodo ao lado e fiquei espiando por trás de uma parede. As máquinas chegaram primeiro ao lado oposto da lagoa e foram matando um por um dos meus amigos que estavam lá. Eles tentaram correr, fugir, mas em vão. Fiquei desesperado, achei que meu irmão também estivesse lá, mas não, ele havia me seguido e quando percebi estava aqui perto. Corri para pegá-lo. Por detrás do galpão veio um grupo de soldados, acho que uns vinte, e começaram uma guerra dos diabos. Agarrei meu irmão e corremos para cá, entre tiros, granadas e explosões. Os robôs estavam próximos. Um soldado ajudou a gente e nos trouxe para este cômodo. Meu irmão chora sem parar, está com medo. Eu tento acalmá-lo, mas também não consigo disfarçar meu pavor. O soldado está aqui com a gente, vigiando, parece qu..
... uma máquina entrou e o matou. Consegui me livrar dela, mas estou ferido. Usei a arma do soldado, é a primeira vez que uso uma arma. Atirei várias vezes, e só tive êxito porque era uma máquina pequena e acertei um tubo em seu dorso que parece ser vital para o seu funcionamento.
As paredes da frente do galpão desmoronaram. Os tiros estão diminuindo, parece que a maioria dos soldados morreram. Não vai demorar até que nos encontrem aqui. Meu irmão dormiu, ou desmaiou, não sei. A parede já está quase sem espaço para continuar escrevendo, embora ainda tenha bastante carvão aqui para rabis...
... eles estão entrando no galpão. Parecem conversar na nossa língua. Ouvi algo como "... eliminem os corpos". Agora dizem "... daremos um novo propósito a esse mundo".
Eles estão vindo...

O texto termina aí. Impossível não ficar emocionado lendo um relato como esse e imaginar pelo que passaram esses irmãos. Provavelmente foram mortos, mas deixaram um importante relato sobre o que havia acontecido ali.
— Comandante, estão te chamando no rádio. É de Monsenhor Acan. — disse o Cabo Fernandes me trazendo o aparelho.
— As notícias não são boas, comandante, — falava ofegante um informante pelo rádio — a cidade foi tomada, as máquinas apareceram e saíram arrebentando tudo. A maioria dos nossos homens estão mortos e os que sobreviveram estão escondidos. Nossas armas foram inúteis. Abatemos no máximo oito deles, mas perdemos uns duzentos homens para isso.
— Calma, soldado! Tenha calma. Estou com poucos homens aqui, mas vamos para aí ajudar. Qual a sua localização?
— ...
— Soldados?
— ...
— Soldado, qual a sua localização?
— ...
Não houve resposta. Juntei meus homens e expliquei-lhes a situação. Estavam todos apavorados. Não foram treinados para combater esse tipo de inimigo. Na verdade, sequer foram treinados para uma guerra. A situação do país sempre foi tão tranquila que os treinamentos de combate de muitos esquadrões resumiam-se a aparar a grama dos quartéis e provas de tiro ao alvo uma ou duas vezes por mês. Raramente havia algum treinamento especial que exigisse mais que isso e, quando havia, poucos eram selecionados para participar. Eu estava entre esses poucos. Encorajei-os. Nossas mulheres, nossos filhos, nossos amigos... todos dependiam de nós. Éramos a esperança para aqueles que ainda não tinham sido mortos.
Em meia hora já estávamos nos carros, chegando em Monsenhor Acan. No caminho, carros pareciam virados do avesso, retorcidos. Tivemos que descer e seguir a pé, pois a estrada estava completamente interditada por árvores tomadas, carros capotados — muitos em chamas —, motos caídas, bicicletas abandonadas e a maioria das casas completamente destruídas. Nenhuma pessoa nas ruas, absolutamente nenhuma. Nem viva, nem morta. Uma situação inimaginável. Uma realidade distópica. Percorremos os escombros, mas nada, nenhuma alma parecia ter escapado ao ataque e não conseguíamos imaginar como conseguiram fazer sumir tanta gente.
De repente, no horizonte, avistamos uma movimentação longínqua que despertou um brilho súbito nos olhos dos homens que estavam comigo. Forçamos nossas visões para tentar reconhecer o que era. Alguns chegaram a afirmar que eram as pessoas retornando para a cidade. Os homens se levantaram e chegaram a esboçar, por alguns segundos, uma ponta de alegria. Mas em vão. Não demorou para que percebêssemos que não eram humanos, eram máquinas, de todos os tipos. Alguns soldados começaram a correr na direção contrária, mas pararam. Estávamos cercados.
Se ainda existia ânimo e esperança entre meus homens, se fora naquele momento. Todos sentaram, choraram e rezaram por si e por suas famílias. Inclusive eu.